Notícia

AméricaEconomia

Cérebros alinhados

Publicado em 14 julho 2005

Por Juan Pablo Dalmasso, de Rosário, com Vladimir Goitia, em São Paulo

Como garantir que os avanços biotecnológicos não fiquem só na cabeça do pesquisador? Criando redes virtuais, como a  Bioceres e a Onsa

Em dezembro de 2001, a adrenalina da argentina Mariana Giacobbe estava nas alturas. Os maiores agricultores de seu país, os mesmos que duplicaram a fronteira agrícola nos anos 90 com a semeadura direta e os transgênicos, confiavam a ela a gerência-geral de um projeto ambicioso: a Bioceres, empresa com que queriam se lançar no mercado biotecnológico e garantir uma posição de vanguarda no agronegócio. "Pediam-me nada mais, nada menos, que administrasse a tecnologia que será trabalhada no campo durante o século XXI", diz Mariana.
Três anos depois, a Bioceres caminha para converter-se no caso líder do agronegócio latino-americano. Com investimentos de apenas US$ 530 mil, a companhia desenvolve quatro projetos de sementes geneticamente modificadas: um milho resistente ao mal de Río Cuarto — doença endêmica para o grão na região central argentina —, uma soja com um gene fungicida, e outros dois cultivos resistentes à seca. Paralelamente, na Biointa, um empreendimento que administra com o Instituto Nacional de Tecnología Agropecuaria (Inta), a Bioceres está negociando com investidores um financiamento de US$ 1 milhão por dez anos para o desenvolvimento de novas variedades de trigo e uma rede de distribuidores comerciais que já começou a tomar forma este ano. Além disso, tem outros cinco cultivos biotecnológicos a ponto de chegar ao mercado, a maioria focada na resistência a fungos e fatores climáticos.
E tem mais. O maior projeto da Bioceres está dentro do Instituto de AgroBiotecnología de Rosario (Indear). O Indear é promovido pelo órgãos estatais Inta e Consejo Nacional de Investigaciones Científicas y Técnicas (Conicet), mas seus promotores são a Bioceres e outra estrela biotecnológica argentina, a Biosidus, criadora das primeiras vacas transgênicas que sintetizam hormônios contra o nanismo hipofisário. As duas companhias estão investindo US$ 5 milhões para que o Indear forneça infra-estrutura de última geração a, inicialmente, cem pesquisadores do Conicet que desenvolverão novos produtos agrícolas biotecnológicos.
Mas não se confunda: a Bioceres não é uma companhia focada na produção de transgênicos. É mais que isso. Para começar, é uma empresa virtual, quase sem estruturas próprias, e se define como gerenciadora de projetos de pesquisa. E isso, basicamente, quer dizer que a Bioceres verifica a viabilidade legal, técnica e comercial de cada projeto e monta uma trama de associações com pesquisadores e investidores, que agrega vendendo cotas, como num fundo de investimento.

Rede de redes. Fazendo as contas, possivelmente sejam frentes demais para uma empresa jovem que nasceu com tão pouco dinheiro, pois o mercado biotecnológico está dominado por gigantes globais como Monsanto, DuPont e Basf. Talvez. "Mas se algo converteu a Bioceres em um referencial é a eficiência de sua pequena estrutura de somente dez executivos", diz Héctor Ordoñez, diretor do Programa de Agronegócios e Alimentos da Universidade de Buenos Aires. "Eles possuem a flexibilidade, capacidade de aprendizagem, e visão multidisciplinar para fomentar a inovação e trabalhar  com o mercado."
A rede tecida pela Bioceres conta com 120 investidores, 40 pesquisadores do Inta e do Conicet, mais respaldo das universidades nacionais de Buenos Aires e El Litoral. Em nível internacional, a companhia vinculou-se à Universidade de Columbia para modificar geneticamente um tipo de soja e ao Conselho Nacional para a Pesquisa Científica da França para desenvolver cultivos resistentes a secas. Além disso, nas proximidades de seu pequeno escritório central, em Rosário, estão acontecendo coisas maiores. Por um lado, Rosário está consolidando um Pólo Biotecnológico que compreenderá o Indear, os Centros de Estudios Fotosintéticos e Bioquímicos, o Instituto de Biología Molecular y Celular e o Centro Binacional Argentino-Español de Genómica Vegetal. Todos eles têm uma farta agenda de pesquisas e, em conjunto, reúnem não menos de 400 pesquisadores. "Tudo isso abrirá novas possibilidades de complementação que as empresas já estão delineando", diz Hemergildo Cercatto, titular do Cerider, entidade que abriga o Pólo.
Alianças à parte, a semente de onde surgiu a companhia virtual é uma fortaleza, pois conhece os produtores de perto, diz seu presidente, Gustavo Grobocopatel. Quase a totalidade dos 74 acionistas da Bioceres são empresários do agronegócio. E não são peixes pequenos. Somente entre Los Grobo, propriedade da Grobocopatel e um dos mais poderosos agronegócios latino-americanos, La Redención/Sofro, comandada pelo vice-presidente da Bioceres, Rogelio Bogante, e El Tejar, do investidor Oscar Alvarado, se administram mais de 200 mil hectares nas zonas mais produtivas da Argentina, Bolívia e Brasil.
Mas é tudo assim tão fácil? Claro que não. O dinheiro é um problema, e por isso a empresa ainda tem as portas abertas para somar acionistas e investidores, reconhece Mariana. A Bioceres requer três anos de puro investimento e, salvo o projeto Biointa, que esta temporada registrará suas primeiras vendas, os demais empreendimentos ainda demandarão vários anos de testes de campo, estudos de impacto ambiental e sanitário e a aprovação dos órgãos governamentais para chegar ao mercado.
Então como a Bioceres conseguiu seduzir os investidores? Em certa medida, indicar que a empresa é uma aliança entre produtores agrícolas de peso e institutos estatais de qualidade reconhecida é falar do fruto mais suculento do campo argentino. Muitos confiam nisso, mas também os atrai o fato de que a Bioceres faz pesquisas alinhadas com os mais novos desenvolvimentos biotecnológicos globais, os transgênicos de segunda e terceira geração. "É tudo muito novo e há muito pouco no mercado", diz Mariana. "Agora vão chegar os cereais funcionais para a saúde, os biocombustíveis, os bioplásticos, e aí teremos tudo por fazer."

O tigre genômico. A Bioceres tem um homólogo brasileiro, ainda que estatal. Em 1997, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) lançou a rede Organização para o Seqüenciamento e Análise de Nucleotídeos (Onsa, na sigla em inglês), instituto virtual para mapear o genoma brasileiro. Na prática, a Onsa é uma pequena blague felina que emula o poderoso Instituto para Investigação Genómica norte-americano (TIGR, em inglês), referência mundial em pesquisa genética.
A Fapesp formou a Onsa aproximando 34 laboratórios paulistas e centros de pesquisa conectados por uma rede virtual de intercâmbio de dados e informações que está permitindo a divisão de tarefas no seqüenciamento do DNA em grande escala. A centralização do projeto, que exigiu investimento inicial de US$ 10 milhões, está a cargo do Instituto de Computação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). "A rede nasceu para colocar o Brasil no mesmo caminho dos países desenvolvidos", afirma o professor José Fernando Pérez, ex-presidente da Fapesp e criador da Onsa. "Dada sua biodiversidade e complexidade social e de saúde, a biotecnologia era um nicho no qual o Brasil precisava atuar urgentemente."
A Onsa já demonstrou que a inter-relação com o setor privado é uma saída vencedora. Sua primeira pesquisa foi o genoma da Xylella fastidiosa, bactéria que ataca os cítricos brasileiros e provoca uma doença chamada "amarelinho". Em sociedade com o Fundo de Defesa da Citricultura (Fundecitrus), a Fapesp investiu 98% dos US$ 15 milhões demandados pelo seqüenciamento, o maior projeto concluído até hoje na América Latina.
Antes de concluir esse trabalho, a Onsa havia iniciado outros três: um de cana de açúcar, o do Xanthomonas citri, uma bactéria que afeta as laranjas, e o do câncer humano. Como a argentina Bioceres, a rede brasileira aliou-se a alguns centros internacionais, como o Instituto Ludwing de Pesquisa sobre o Câncer, dos Estados Unidos, que colocou US$ 7 milhões, metade do custo total do programa, para estudar as células cancerígenas. Os recursos do Ludwing foram repassados a fundo perdido e permitiram ao Brasil chegar a 400 mil seqüências de fragmentos de genes vinculados a tumores cancerosos, especialmente os mamários.
Diferentemente do projeto com o Ludwing, os seqüenciamentos da cana de açúcar tiveram uma perspectiva comercial semelhante à da Xylella. A Fapesp colocou 95% dos US$ 6 milhões necessários, enquanto a Coopersucar, maior cooperativa açucareira da América Latina, entrou com o restante. Trinta laboratórios trabalham agora na identificação de cerca de 50 mil genes da planta. A Fapesp também voltou a assumir 95% do financiamento de US$ 5 milhões para que 12 laboratórios seqüenciem a bactéria Xanthomonas citri. Depois disso, começaram a chegar as alianças mais diretas com o setor privado. Os grupos Votorantim, Suzano e Ripasa, por exemplo, aportaram recursos para desenvolver o genoma do eucalipto. Ao mesmo tempo, a poderosa Embrapa, empresa estatal de biotecnologia, ajudou a Onsa a trabalhar sobre a genética do café para os exportadores brasileiros.
Oito anos depois, o principal produto da rede Onsa é o domínio da tecnologia que gerou não somente competitividade, capacitação, treinamento e ciência de primeira linha como também empresas privadas voltadas à pesquisa e ao desenvolvimento tecnológico. Entre elas, a Allelyx (Xylella ao contrário), Scyll e Canavialles, todas propriedade do poderoso Grupo Votorantim. O próprio Pérez abandonou a presidência da Fapesp para criar a PP&D Biotech, que, como outra nova empresa, o Grupo Genoa, está desenvolvendo biotecnologia para a saúde humana. "(A biotecnologia) é um processo lento, porque é uma atividade de risco", diz Pérez. "Mas as empresas e os grandes conglomerados brasileiros já começaram a acreditar na necessidade de investir nela."
E, dado o dinamismo do processo de negócios, a Onsa, como a Bioceres, deverá continuar se mexendo para melhorar sua operação. Segundo Pérez, o modelo com base na rede virtual de laboratórios permitiu pesquisar, formar recursos humanos e capacitar profissionais. "Mas hoje a rede precisa voltar-se à eficiência e à competitividade para reduzir custos", afirma. E aí está a lição final: os projetos sem base realista acabam engavetados. Bioceres e Onsa sabem que o prêmio vem com os negócios.