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Cérebro tem "sexto sentido" para calorias

Publicado em 27 março 2008

O paladar tem papel importante na busca dos animais por nutrientes, estimulando-os a procurar os alimentos mais calóricos. Entretanto, mesmo na ausência de estímulos gustativos, o cérebro é capaz de escolher o alimento com mais calorias, segundo um estudo feito por pesquisadores da Universidade Duke, nos Estados Unidos.

De acordo com a Agência Fapesp, os cientistas utilizaram camundongos geneticamente modificados para perder a capacidade de sentir sabores doces na experiência.

A pesquisa com camundongos apontou que os animais dão preferência ao alimento mais calórico, contrariando uma das explicações mais recorrentes para o consumo exagerado de calorias.

Segundo os autores, o trabalho pode ter importantes implicações para a compreensão de causas da obesidade. Os resultados foram publicados na edição de hoje da revista Neuron. O trabalho liderado por Ivan de Araújo contou com a participação de outros brasileiros, entre os quais Miguel Nicolelis, professor titular do Departamento de Neurobiologia da Universidade Duke.

"O estudo sugere que pode ser ineficaz tentar diminuir o consumo de calorias por meio da substituição do alimento por uma versão menos calórica, mas com gosto parecido. Graças aos mecanismos cerebrais que regulam o comportamento ingestivo, a pessoa pode acabar, a longo prazo, preferindo a versão mais calórica", disse Araújo.

O sistema gustativo provavelmente não existe para dar prazer, mas para ajudar o animal a detectar rapidamente a presença de alimentos calóricos na natureza. Por isso a versão "light" dos alimentos acaba não sendo capaz de ludibriar o cérebro por muito tempo, de acordo com o cientista, do Instituto John B. Pierce, ligado à Universidade Yale.

"A recompensa não é o sabor, e sim a caloria. Não surpreende que esses mecanismos cerebrais, de alguma forma, priorizem o aspecto nutritivo e, desse modo, não sustentem o consumo de compostos menos calóricos a longo prazo", afirmou Araújo.

O "sexto sentido" dos animais para alimentos calóricos ainda não pode ser explicado, mas há algumas possibilidades plausíveis, segundo o cientista. Uma delas é que os hormônios dopaminérgicos presentes no cérebro seriam capazes de detectar receptores para insulina.

"O consumo de alimentos calóricos provoca mudanças hormonais no nível de glicose sangüínea, aumentando a insulina e alterando uma série de outros hormônios. As células cerebrais expressam receptores para muitos desses hormônios, em particular para os dopaminérgicos", apontou.

Outra possibilidade é que o cérebro detecte mudanças nos níveis sangüíneos de glicose por meio de determinados hormônios glucossensores. "Fisiologicamente e neuroanatomicamente existem caminhos para que isso ocorra. Ninguém demonstrou ainda que esses receptores nas áreas dopaminérgicas têm uma função, mas a maquinaria necessária para que isso aconteça existe de fato", afirmou Araújo.