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Cérebro escolhe comidas calóricas para armazenar energia

Publicado em 11 fevereiro 2016

È o desejo do cérebro por calorias, e não pelo sabor doce dos alimentos, que controlaria nossa necessidade e, em alguns casos, compulsão por substâncias doces

Pesquisa feita na universidade de Yale (EUA) com a colaboração de pesquisadores da USP mostrou que o cérebro escolhe comidas mais calóricas para armazenar energia. O estudo mostra que a escolha de um alimento não passa, necessariamente, pelo sabor mais palatável. Entre um alimento saboroso e um com maior quantidade calórica e sabor desagradável, alguns animais vertebrados optam pela segunda opção como uma forma de assegurar sua sobrevivência.

A pesquisa, feita com colaboração de estudiosos do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP) e do Centro de Matemática, Computação e Cognição da Universidade Federal do ABC (CMCC-UFABC), foi publicado na edição on-line da revista Nature Neuroscience.

É o desejo do cérebro por calorias, e não pelo sabor doce dos alimentos, que controlaria nossa necessidade e, em alguns casos, compulsão por substâncias doces

Em entrevista à Agência Fapesp, a pesquisadora do CMCC-UFABC Tatiana Lima Ferreira afirma que há diferentes circuitos neuronais em uma mesma região cerebral envolvidos na percepção da sensação de prazer que são diferentes, por exemplo, daqueles que codificam a caloria desses alimentos.

O estudo, que se valeu de testes em camundongos, mostrou que a sensação de prazer da ingestão e o valor calórico e nutricional dos alimentos evocam circuitos neuronais do estriado, uma região no interior do cérebro.

Os circuitos neuronais dessa região do cérebro envolvidos na percepção dessas duas características são distintos. Os circuitos neuronais da parte ventral do estriado são os responsáveis pela percepção da sensação de prazer proporcionada pelo sabor doce, os neurônios da parte dorsal são encarregados de reconhecer o valor calórico e nutricional dos alimentos adocicados.

Doces

Os pesquisadores realizaram um experimento para quantificar a liberação de dopamina na região do estriado de camundongos após serem expostos a substâncias doce com e sem caloria. Para isso, os animais lambiam o bico de um bebedouro com adoçante e recebiam doses de soluções contendo açúcar (D-glicose) ou um adoçante também não calórico (sucralose), injetadas diretamente no estômago.

Os resultados do experimento indicaram que houve um aumento da liberação de dopamina no estriado ventral durante a ingestão do adoçante independentemente de qual solução (açúcar ou adoçante)  estava sendo administrada aos animais – se era açúcar ou adoçante.

“Os circuitos neuronais dessa região do cérebro não discriminam se o alimento que está sendo ingerido tem ou não caloria. Basta que o alimento seja palatável para a dopamina ser ativada nessa região cerebral”, disse Ferreira.

Em contrapartida, houve um aumento da liberação de dopamina na região do estriado dorsal somente quando a ingestão do adoçante foi acompanhada por infusão de açúcar, o que sugere que os circuitos neuronais dessa região do cérebro são sensíveis seletivamente à caloria do alimento.

“Apesar de o adoçante ser palatável, não houve um aumento da liberação de dopamina nessa região do cérebro dos animais quando foram expostos a esse alimento. Isso pode estar relacionado ao fato de que, ao contrário do açúcar, o adoçante não possui caloria, apesar de ser bastante doce e palatável”, comparou Ferreira.

Os pesquisadores também avaliaram o efeito da diminuição da sensação de prazer proporcionada pela ingestão de uma substância não palatável, mas calórica, na liberação de dopamina nessas regiões do cérebro dos camundongos.

Para isso, eles alteraram o sabor do adoçante que os animais lambiam no bico do bebedouro ao adicionar um composto amargo. Ao mesmo tempo, os camundongos receberam infusões de açúcar. Embora a alteração do sabor do adoçante tenha suprimido a liberação de dopamina no estriado ventral induzida pelo açúcar injetado no estômago dos animais, houve um aumento da liberação do neurotransmissor no estriado dorsal, constataram os pesquisadores. “Nossos dados indicam que o açúcar recruta neurônios da via dopaminérgica ao estriado, que, em geral, priorizam a ingestão de caloria, mesmo em uma situação desagradável com relação ao sabor do alimento”, disse Ferreira à Agência Fapesp.

Por Do Correio.com