Notícia

Correio Popular (Campinas, SP)

Centro depende de esforço integrado

Publicado em 09 maio 2010

Por Rogério Verzignasse

A revitalização do Centro de Campinas depende de uma ação que integre a Prefeitura, as universidades e os empresários. Só assim, por meio de um debate que considere todos os aspectos envolvidos em uma intervenção, a cidade vai conseguir implantar um programa efetivo para a valorização de trechos historicamente degradados. Plano que combine áreas comerciais com lazer, ofereça segurança, comodidade e atrativos para usuários do Centro. A opinião é da professora Maria Tereza Duarte Paes, doutora em ciências sociais pela Universidade Estadual de Campinas Unicamp e que se dedica a pesquisas sobre geografia humana.

A professora faz uma análise especial da questão do comércio informal, que tem provocado discussões tão acaloradas na sociedade. Na sua opinião, é um erro confinar os camelôs em uma área restrita. Se o comércio informal permanece nas áreas centrais, diz, é justamente porque há uma demanda vinda de uma população com baixo poder aquisitivo que se desloca pela cidade tendo o Centro como entroncamento de vários trajetos cotidianos.

A população, fala, precisa desse comércio informal para ter acesso à sociedade de consumo. Nesse sentido, a melhor estratégia é a negociação de territorialidades na cidade, de modo que essa possa acolher o comércio informal por meio de uma gestão participativa. Eles não precisam ser expulsos da região central. Se existir a elitização do trecho, diz a pesquisadora, Campinas vai comprometer a própria natureza do Centro, historicamente um lugar da participação política, da negociação da diversidade nos espaços públicos e dos conflitos de uso e apropriação do solo.

Correio Popular - Na sua opinião, quais foram as causas históricas da transformação do Centro campineiro em uma área decadente?

Maria Tereza Duarte Paes - O Centro de Campinas passou por um processo de descentralização e alteração da sua composição social local. Com o crescimento populacional da cidade, surgiu a necessidade de expansão da malha urbanizada, por meio da incorporação de novas áreas, em direção à zona Sul e Sudoeste, criando novos bairros e marcando a formação de subcentros na periferia para atender a essa demanda local. A consolidação de bairros como Cambuí, Taquaral e Guanabara também levou à criação de subcentros especializados e menos multifuncionais dentro de cada um desses bairros. Esses subcentros transformaram a centralidade de Campinas, na medida em que a cidade deixou de ter um Centro único e monopolizador. Consequentemente, o Centro principal sofreu alterações funcionais por causa das transformações ocorridas nos padrões de uso e ocupação do solo, bem como do tipo de bens e serviços ofertados. Essa alteração resultou em uma ocupação do Centro por atividades comerciais e de serviços voltados a uma clientela de menor poder aquisitivo, o que gerou um relativo empobrecimento. Outra questão relacionada se refere ao fato de, durante o dia, o Centro possuir um fluxo muito intenso, enquanto durante a noite esse fluxo cai drasticamente. Houve também uma alteração do perfil de usuários, na qual o Centro passou a ser ocupado também por outros grupos sociais como mendigos, prostitutas, pedintes e ambulantes.

Como é possível, no nosso caso, reverter o quadro atual?

Para reverter essa situação, é preciso criar uma nova dinâmica na área central, buscando combinar áreas comerciais com áreas de lazer, oferecer segurança, comodidade e atrativos aos usuários do Centro. Ou seja, é importante refuncionalizar o Centro, lembrando que é essencial priorizar o uso habitacional para garantir a reestruturação da vida cotidiana, com o uso contínuo durante todo o dia e noite, assim contribuindo para uma maior segurança local. A valorização do patrimônio é fundamental nesse processo, pois além de preservar a memória e a história local, pode promover a melhoria das infraestruturas urbanas e o embelezamento das formas, a valorização e resgate dos espaços públicos, além da inserção de novos usos, o que insere o patrimônio dentro da dinâmica urbana.

A seu ver, qual é o papel da sociedade civil na revitalização de uma área degradada?

A participação da sociedade civil é fundamental no processo de refuncionalização de uma área degradada. Se considerarmos a cidade como uma construção humana, ela não pode ser entendida somente enquanto materialidade, ou seja, suas ruas, construções, monumentos e elementos naturais inseridos na malha urbana. Os indivíduos que nela habitam constituem e determinam, em grande medida, as características da cidade, pois atuam como sujeitos na produção social do espaço. Assim, se abordamos a questão da preservação do patrimônio cultural e sua refuncionalização, é importante que ela seja feita com envolvimento da sociedade, para espelhar seus anseios, seus desejos e valores, promovendo uma verdadeira apropriação e legitimação do patrimônio como um processo de identificação da sociedade com seu espaço de referência.

Você acha que o empresariado tem tido uma participação efetiva nos debates?

O empresariado tem participado desse processo, pois grande parte das intervenções urbanas são financiados em parceria com o capital privado.

Não pode haver uma aproximação efetiva com a própria academia, com os pesquisadores sugerindo medidas ao governo?

A academia também tem participado desse processo, contribuído imensamente com o governo, quando se consolidam parcerias e convênios entre universidades e Estado. O inventário do Centro realizado pela Coordenadoria Setorial do Patrimônio Cultural de Campinas CSPC, por exemplo, é uma parceria entre a Prefeitura, o Programa de Políticas Públicas da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo Fapesp e a Unicamp, que visa levantar os bens de interesse histórico e cultural da cidade, auxiliando na sua preservação. Dessa maneira, o trabalho de refuncionalização do Centro deve ser visto como um trabalho em conjunto entre sociedade civil, empresariado, universidades e governo. A revolta da cidade com os camelôs é quase uma cultura local. Quem tem barracas é apontado como contrabandista e sonegador de impostos. Mas muitas daquelas pessoas precisam trabalhar, sustentar suas casas.

Qual é a sua opinião sobre o comércio informal e quais medidas devem ser tomadas pela Prefeitura para resolver a questão?

Em primeiro lugar, não temos uma leitura tão negativa do comércio informal, afinal, ele movimenta um circuito importante da economia, funciona como alternativa de uma parcela representativa da população que se encontra fora do mercado formal do trabalho e, ainda, proporciona a acessibilidade a produtos variados para uma população que não teria acesso a eles pelo seu poder aquisitivo. Claro que temos que refletir sobre a questão dos impostos, dos direitos autorais, da ilegalidade, não simplesmente punindo-os como infratores, mas buscando alternativas de inclusão social. Em uma sociedade de desenvolvimento econômico e social desigual, não são os menos privilegiados que devem pagar a conta. Por isso, é importante buscar alternativas, já que o problema do desemprego estrutural não será resolvido do dia para a noite e nem tampouco localmente. Embora esse problema não seja exclusivo de nossas cidades - em Milão, por exemplo, na Itália, os camelôs que comercializam as grifes internacionais estão sempre às voltas com a polícia -, em Campinas, o comércio informal instalado na área central da cidade já foi objeto de vários debates, pesquisas e intervenções por parte do poder público. Consideramos que confiná-lo a uma área restrita seja uma saída pouco promissora. Pois se o comércio informal permanece nas áreas centrais é justamente porque há uma demanda vinda de uma população com baixo poder aquisitivo que se desloca pela cidade tendo o Centro como entroncamento de vários trajetos cotidianos. De certo modo, esta população precisa desse comércio informal para ter acesso à sociedade de consumo. Nesse sentido, a melhor estratégia é a negociação de territorialidades na cidade, de modo que esta possa acolher o comércio informal por meio de uma gestão participativa. Para a gestão dos conflitos e de modo a não expulsar ou enclausurar esses comerciantes e consumidores nos famosos camelódromos, é preciso incorpora-los à economia política das cidades, negociando suas territorialidades. Afinal, a vitalidade das áreas centrais sobrevive justamente por meio da diversidade dos seus usos. Se as elitizarmos demais, comprometeremos a própria natureza da área central que é, historicamente, lugar da participação política, da negociação da diversidade nos espaços públicos e dos conflitos de uso e apropriação do solo.

PATRIMÔNIO

A valorização do patrimônio é fundamental, pois além de preservar a memória e a história local, pode promover a melhoria das infraestruturas urbanas ... , a valorização e resgate dos espaços públicos.

PARCERIA

O trabalho de refuncionalização do Centro deve ser visto como um trabalho em conjunto entre sociedade civil, empresariado, universidades e governo.

CAMELÔS

A melhor estratégia para resolver a questão do comércio informal é a negociação de territorialidades na cidade, de modo que esta possa acolher o comércio informal por meio de uma gestão participativa.

DIVERSIDADE

A vitalidade das áreas centrais sobrevive justamente por meio da diversidade dos seus usos. Se as elitizarmos demais, comprometeremos a própria natureza da área central.

SAIBA MAIS

A geógrafa Maria Tereza Duarte Paes, doutora em ciências sociais pela Unicamp, é membro do Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico, Arqueológico e Turístico do Estado de São Paulo Condephaat . Ao lado da arquiteta Melissa Ramos da Silva Oliveira doutoranda do Departamento de Geografia da própria Unicamp , a professora organizou a obra Geografia, Turismo e Patrimônio Cultural, elaborada com os recursos da Fapesp e recentemente publicada pela paulistana AnnaBlume Editora. A obra reúne artigos de especialistas que discorrem sobre as dimensões histórias, geográficas e políticas do patrimônio arquitetônico e toda sua potencialidade para o desenvolvimento do turimo e dos negócios. As pessoas interessadas em conhecer o livro podem entrar em contato com a editora ou com as organizadoras, por meio dos endereços eletrônicos paes.tereza@gmail.com e melinerso@yahoo.com.br.