Notícia

Gazeta Mercantil

Centro de Toxinologia faz o registro da primeira patente

Publicado em 23 maio 2001

Por Adriana Fernandes Faria - de São Paulo

A primeira patente do Centro de Toxinologia Aplicada (CAT), sediado no Butantan, foi registrada no Instituto Nacional de Propriedade Industrial. Trata-se de um protótipo molecular que servirá de base na produção de um remédio anti-hipertensivo, o Evasin. A droga competirá com o Captopril, remédio derivado da toxina da jararaca que dá a seu laboratório, o Squibb, um faturamento anual de US$ 5 bilhões. É o mais usado no combate à hipertensão.

O passo seguinte do CAT será converter a molécula em produto farmacêutico, fazer testes em animais e clínicos. Deve chegar ao mercado em dois anos. Os custos da patente ficam por conta do consórcio formado por três laboratórios brasileiros — Biolab/Sanus, a União Química e Bio sintética —, parceiros do CAT. No Brasil, foi desembolsado R$ 2 mil para registrá-la. Nos Estados Unidos, os custos iniciais são de US$ 4 mil (sem contar gastos honorários advocatícios) e, na União Européia, de R$ 1.3 mil.

O consórcio investirá US$ 300 mil no CTA e Financiará estudos clínicos e pré-clínicos. A informação é de Márcio Falei, diretor médico da Biosintética. Já a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) investe R$ 3 milhões anuais no centro, que une pesquisadores do Butantan, USP, Unifesp e Unesp, Suas metas são pesquisa, difusão de conhecimento e parceria com empresas. O diretor Antonio Martins de Camargo quis associá-lo a indústrias nacionais. Consórcio e Fapesp são co-titulares das patentes e os lucros serão divididos igualmente entre eles, o CAT e pesquisador. Outras patentes devem sair nos próximos meses, ligadas ao sistemas cardiovascular e de coagulação.

"A indústria farmacêutica sabe que a parceria com institutos de pesquisa é o único caminho para desenvolvimento", diz José Carlos Magalhães, coordenador do consórcio. "A integração entre escola e empresas acontece nos países ricos há 50 ou cem anos".

Vantagem

O protótipo molecular do Evasin parece fazer parte do sistema de regulação da pressão arterial dos humanos. Ou seja, a substância é natural. Mas como é um peptídeo, não pode ser ministrado via oral — seria destruído no estômago. Deve ir ao mercado na forma injetável ou em spray. A vantagem da nova droga é que ela age seletivamente, apenas no alvo. Por isso, não tem os efeitos colaterais do Captopril, cujo uso contínuo pode levar a alterações das células sanguíneas. O Evasin inibe enzimas, que revestem os vasos sanguineos e, desreguladas, podem causar hipertensão.

Veneno produzido in vitro

O Instituto Butantan busca a produção em laboratório de veneno de serpentes a partir de células secretoras. A técnica tornará mais fácil a tarefa de conseguir veneno de cobras raras. Também vai reduzir o número de animais usados em pesquisa, produção de soros e remédios. Um dos desafios é manter células secretoras imortalizadas em cultura — crescendo e ploriferando. O outro é entender o mecanismo de secreção do veneno, para reproduzir as condições em laboratório. Esta fase está em estudo desde 94. Já se sabe, por exemplo, que a noradrenalina é essencial para iniciar o processo.

Sem ela, a serpente não produz as toxinas. Estudada desde o ano passado, a cultura das células terá a colaboração de um cientista da Universidade do Colorado (EUA). Ele conseguiu imortalizar células da glândula salivar de ratos. "A célula secretora tem uma diferenciação que deve ser mantida em cultura", explica a pesquisadora Norma Yamanouye, do Butantan. No instituto, células de cobra já foram imortalizadas por até 21 dias. Outros grupos, no Brasil e no exterior, tentam produzir o veneno por meio da biologia molecular. O gene da toxina é clonado e introduzido era uma bactéria para que ela o produza. Esse processo não tem resultado satisfatório — a quantidade produzida é pouca ou a proteína sai com uma estrutura diferente e fica inativa. A pesquisa de produção in vitro de veneno envolve também equipes da USP e da Unifesp. Tem patrocínio da Fapesp.