Notícia

Secretaria de Ensino Superior (SP)

Centro de Memória da Educação resgata a memória do ensino

Publicado em 08 janeiro 2009

Nenhum tipo de pesquisa histórica pode ter êxito sem um acervo relativamente bom à disposição; só se faz história com memória, escrita ou oral - mas a oral tem seus limites, já que é preciso entrevistar personagens vivos. O caso da história da educação não é diferente. Há 17 anos, os pesquisadores desta área que começava a se firmar na Faculdade de Educação (FE) da USP perceberam a necessidade de preservar os documentos que eles levantavam. Propuseram então a instituição de um espaço capaz de amparar e subsidiar as pesquisas neste campo. Nascia assim o Centro de Memória da Educação (CME) da FE. "O CME procura recolher variados conjuntos de documentos, que muitas vezes estão dispersos, relacionados a temas da educação. Desde prontuários de alunos, cadernos de anotações de professores, até conjuntos de legislação sobre educação, livros-ponto e correspondências", explica a historiadora da educação e professora da FE Cecília Hanna Mate. Cecília está no Centro desde 2001, como uma das coordenadoras, ao lado das também professoras Carmen Sylvia Vidigal de Moraes e Marta Maria Chagas de Carvalho.

"No momento, por exemplo, estamos terminando o recolhimento de um grande acervo da Escola Moderna Nº 1 e o arquivo pessoal de um de seus fundadores: João Penteado, professor e militante anarquista do início do século XX", conta. Neste período, o Brasil recebeu muitos militantes do movimento anarquista por meio da imigração européia, que se juntaram aos que já estavam aqui e acabaram formando uma escola. A instalação de instituições escolares estava apenas começando naquele momento, mas como os anarquistas sempre foram favoráveis à independência em relação ao Estado e críticos em relação a Igreja - a maioria das instituições de ensino eram católicas naquela época -, resolveram fundar a sua própria escola em 1912. Localizada em São Paulo, a Escola Moderna Nº 1 passou por várias etapas e transformações, mudando inclusive de nome e chegando a ser fechada em 1919 para ser aberta posteriormente. Nos anos 30, foi transformada no Colégio Saldanha Marinho, e com o passar do tempo perdeu suas conexões antigas, tornando-se simplesmente uma escola de comércio que viria a ser fechada definitivamente em 2002.

Os documentos que foram se acumulando durante este período precisavam de um destino melhor do que o descarte. "Sabendo desta situação, a professora Carmen Sylvia desenvolveu um projeto com apoio do CNPq [Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico] para recolhimento do arquivo. Toda a documentação passou por uma série de etapas, começando com a higienização, restauração , enfim, a realização de todos os procedimentos técnicos da arquivística. Estamos finalizando o inventário, ao elaborar um guia das fontes recolhidas e formar uma espécie de catálogo disponível para a pesquisa".

"A pata nada. Pata pa, nada na"

Os leitores de boa memória alfabetizados até os anos 50 certamente reconhecem a frase acima, retirada da primeira lição da Cartilha Sodré. Esta cartilha e sua também famosa sucessora, Caminho Suave, bem como obras ainda mais antigas, podem ser encontradas no acervo de livros didáticos dos séculos XIX e XX do CME.

O acervo é outro exemplo de ação do Centro: um projeto finalizado em novembro de 2007 que contou com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e a coordenação da professora Circe Bittencourt. "Hoje o tema do livro didático tem sido muito valorizado em todo o mundo, por se tratar de um objeto que diz muito sobre a cultura da época, da região e principalmente sobre o ensino", explica Cecília.

A Biblioteca do Livro Didático, que está instalada com mais de 15 mil livros e continua crescendo, entra neste contexto. "A história das disciplinas também pode ser acessada por estas obras. Questiona-se, por exemplo, como se ensinava matemática em períodos mais antigos. Existem algumas formas de buscar esta informação, mas o livro didático é uma espécie de caixa-preta que pode fornecer importantes respostas".

Além da ligação com estes e outros projetos de pesquisa e da manutenção do acervo documental, o Centro conta ainda com um acervo museológico (mobiliário e materiais escolares antigos); proporciona visitas monitoradas; estágios para graduandos da FE; cursos para professores e funcionários do ensino público; e, ainda, orientação a alunos de pré-iniciação científica, que cursam o Ensino Médio.

"Temos estimulado as escolas a manterem e conservarem elas mesmas seus arquivos, principalmente porque é a própria escola que pode preservar e estimular sua memória. Mas também porque não teríamos espaço físico e mão-de-obra suficiente para abrigar e cuidar da documentação de tantas escolas. Mas para isso é preciso que a comunidade escolar - pais, alunos, professores e funcionários - não só esteja sensibilizada da importância da iniciativa, como também receba as informações necessárias sobre como recuperar, preservar e armazenar, estando assim apta a dar continuidade ao que foi iniciado pelo CME."

Aprendendo a valorizar a memória

Em contato com o trabalho do CME, os cerca de 30 alunos que participam da pré-iniciação científica da FE começam a entender o valor de cada documento antigo, além de aprenderem sobre as técnicas para sua preservação. Assim, o quanto antes a cultura da valorização da memória esteja presente na vida dos alunos, melhor. Pensando nisso, o Centro criou um "kit" didático composto por um jogo de tabuleiro, um gibi e um manual a ser distribuído em escolas públicas do estado de São Paulo fundadas até 1950.

Antes da distribuição do material para asescolas escolhidas, , uma equipe composta predominantemente por bolsistas já treinados e supervisionados pelo CME realiza uma visita onde é feito o diagnóstico e o roteiro das ações necessárias em cada instituição. Posteriormente é entregue o kit criado pela historiadora e arquivista do Centro, Iomar Zaia: o jogo e o gibi, que ensinam as crianças de maneira lúdica a importância da memória da educação, e o manual com orientações para que os professores insiram esta atividade nas aulas.

O "Projeto Kit" tem a coordenação da vice-diretora da FE, professora Maria Cecília Cortez Cristiano de Souza, e também recebe apoio financeiro da Fapesp. "Trata-se de um projeto ambicioso, por seu alcance em mais de 150 escolas, e de extrema importância dentro das perspectivas do CME", ressalta Cecília.

Serviço

Localizado no bloco B da FE, (Av. da Universidade, 308, Cidade Universitária, São Paulo) o Centro de Memória da Educação fica aberto à visitação e consulta de segunda a sexta-feira, das 10 às 18 horas, e aos sábados, das 8h30 às 13 horas. Mais informações podem ser obtidas no site http://www.cme.fe.usp.br/, pelo email cmeusp@usp.br, ou pelo telefone (11) 3091-3194, em que também podem ser agendadas as visitas monitoradas.