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Centenário Otto Richard Gottlieb: o canto e encanto pela Química de Produtos Naturais

Publicado em 01 setembro 2020

Artigo de Vanderlan Bolzani, professora do IQAr da Unesp, conselheira da SBPC e presidente da Aciesp

Dia 31 de agosto de 2020 pode parecer um dia da semana, mês e ano iguais aos demais, mas não é, especialmente para aqueles que se dedicam à química de produtos naturais no Brasil. Neste dia comemora-se 100 anos do professor Otto Richard Gotllieb, um dos maiores cientistas brasileiros, único na área com excelência reconhecida mundialmente, para ser o único químico brasileiro indicado ao Prêmio Nobel, em 1999, pelas suas pesquisas na ciência de plantas com uma abordagem química até então inédita, a quimiossistemática. Foi indicado ao Nobel por Roald Hoffmann, Prêmio Nobel em Química em 1981. Hoffmann veio ao Brasil várias vezes e o indicou pela admiração que tinha pelo seu trabalho fundamentado no arsenal químico biossintetizado pelas espécies vegetais e pelos cálculos matemáticos simples que permitiam uma visão holística da natureza. Assim, idealizou as bases da sistemática bioquímica das plantas, considerada uma nova disciplina científica.

Professor Otto foi meu orientador de mestrado e doutorado e até os dias atuais é para mim um exemplo de cientista, que me inspira e continua me incentivando a novos desafios aos 70 anos. Seu legado nos move a continuar a pesquisa em química de produtos naturais que nos deixou de herança e que neste momento tentamos consolidar o seu sonho – ver os produtos naturais da biodiversidade brasileira organizados e certificados, num sistema racional útil a todos que almejam explorar a natureza de forma racional, pensando na preservação das nossas riquezas naturais. O professor Otto encantava seus alunos com suas aulas de biossíntese e mais adiante com as ideias e conceitos sobre a quimiotaxonomia, objetivando estudos de filogenia. Exigente e muito disciplinado nos cobrava o aprendizado dos seus ensinamentos nas inúmeras arguições que ocorriam em suas aulas magníficas. Um apaixonado pela natureza e em especial pela Amazônia que durante anos desvendou a química de inúmeras espécies das Lauraceae (quem não conhece a folha de louro!) e das Myristicaceae.

Como resumir nesta pequena nota a vida acadêmica e pessoal de um dos maiores cientistas da América latina? Quase impossível textualizar aqui a vida profissional e pessoal entrelaçadas num espaço de um século? Como trazer fatos de tempos e de onde ocorreram, de tal modo que trate com isenção e precisão a vida do Professor Otto, como carinhosamente era chamado por todos? Como fazer de seu centenário um dia em que a nova geração de pesquisadores reconheça sua maravilhosa contribuição à biodiversidade e aos produtos naturais? Como sensibilizar e

mostrar a comunidade de jovens cientistas a trajetória de um cientista tão especial, que marcou a trajetória de inúmeras pessoas que orientou, além do legado cientifico inestimável que deixou para o país que escolheu como pátria e para a pesquisa em química de produtos naturais que se faz hoje? Acredito que o Professor Otto teve papel importante em muitas escolhas feitas por muitos pesquisadores espalhados por este país afora, em função da importância e fascínio pelos produtos naturais como área de pesquisa. Acredito ainda que nos jovens também, em especial nos dias atuais, onde a destruição das nossas florestas leva a perda da mais sofisticada biblioteca química do planeta, um arsenal de conhecimento ainda inexplorado e do potencial para gerar bioprodutos de alto valor agregado.

O professor Otto começou sua carreira acadêmica com quase 40 anos e depois de sair do Instituto de Química Agrícola em 1962, foi para o Instituto Weizmann, em Israel, onde se especializou em métodos de análise orgânica e em fitoquímica. Ao voltar do seu pós-doutorado, saiu como um peregrino distribuindo conhecimento por este Brasil afora. Em 1964 foi convidado para coordenar o Instituto Central de Química na UnB, para onde mudou levando consigo vários profissionais que já haviam trabalhado com ele, do Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Fortaleza e Recife. Seu sonho era formar um time de cientistas especialistas em fitoquímica assim como, bons professores de pós-graduação objetivando consolidar esta área em todo o Brasil. O sonho durou pouco. Solidário com outros colegas assinou sua demissão e com ela encerrou o seu sonho de ver em Brasília o local ideal para concretizar suas pesquisas com espécies da nossa biodiversidade. Em 1967, o IQ-USP iniciou suas pesquisas com apoio FAPESP e foi na USP que consolidou as pesquisas em produtos naturais e a tornou reconhecida mundialmente. Da sua primeira conferencia ministrada no IQ-USP, Bloco 11 sobre “Os jacarandás: 400 anos de carpintaria, quatro anos de química” até seus 90 anos o professor Otto construiu a carreira brilhante em São Paulo. Os colaboradores no início de suas pesquisas em São Paulo foram essenciais para a consolidação do Laboratório de Produtos Naturais do IQ-USP, São Paulo de reconhecimento mundial. O Professor Massayoshi Yoshida e os bolsistas Raimundo Braz Filho, Nídia Franca Roque, Zenaide Scattone, no início seguido de Mardem Alvarenga. Professor Otto e este time destacaram a pesquisa em química de produtos naturais sobre as angiospermas da Amazônia. Aos 90 anos, sua paixão pela diversidade química da biodiversidade era tão fascinante que costumava afirmar – “Cada planta tem centenas de substâncias e uma delas pode ser mais importante do que uma galáxia”.