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Centenário Norberto Bobbio - Paz em construção

Publicado em 25 agosto 2009

Agência FAPESP

Tradução de O Terceiro Ausente - Ensaios e discursos sobre a paz e a guerra, de Norberto Bobbio, é lançada em homenagem ao centenário do pensador italiano

Agência FAPESP - Lançada nesta segunda-feira à noite (24/8), em São Paulo, a tradução do livro O Terceiro Ausente - Ensaios e discursos sobre a paz e a guerra, do pensador italiano Norberto Bobbio (1909-2004), faz parte das comemorações do centenário do autor.

O lançamento da obra publicada em 1989 na Itália foi marcado pela mesa-redonda "Bobbio e as relações internacionais", que reuniu Celso Lafer, presidente da FAPESP e professor titular da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP) - responsável pelo prefácio da edição -, Rubens Ricupero, secretário-geral da Conferência das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento (Unctad) de 1995 a 2004 e atualmente diretor da Faculdade de Economia da Fundação Armando Álvares Penteado e presidente do Instituto Fernand Braudel, e Cláudia Perrone-Moisés, professora da Faculdade de Direito da USP e pesquisadora do Centro de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (USP) - um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepids) da FAPESP, também conhecido como Núcleo de Estudos da Violência (NEV).

De acordo com Lafer, um dos maiores especialistas na obra de Bobbio no Brasil, o tema do qual trata o livro - as relações internacionais - não corresponde à faceta mais conhecida do autor.

"Bobbio é um grande pensador que trabalhou muito bem em várias áreas, como a teoria do direito e a teoria geral da política, além de ter feito análises muito importantes sobre a vida intelectual italiana. Seu trabalho como estudioso das relações internacionais se concentrou em duas obras: O problema da guerra e as vias da paz e no livro que lhe dá continuidade, O Terceiro ausente", disse à Agência FAPESP.

Lafer explica que, nessa segunda obra, o italiano trabalhou em especial uma ideia que já vinha do texto anterior: a noção de que a presença das armas atômicas representou uma mudança qualitativa na vida internacional.

"Com o advento das armas atômicas, a reflexão da filosofia da história sofreu mudanças. Todos aqueles argumentos que, bem ou mal, defendiam a hipótese da guerra, viram-se postos em questão diante do risco da própria destruição da humanidade que comporta as armas nucleares", afirmou.

Na obra, a discussão também se encaminha, segundo Lafer, para um exame das possibilidades de ação diante desse tipo de desafio. "Ele faz uma profunda discussão - que em parte é a análise de um estudioso da política e em parte é a análise de um jurista - sobre as maneiras pelas quais o conflito pode ser administrado pela existência de um terceiro independente e imparcial. O ponto central, portanto, é a importância da construção de um terceiro, na vida internacional, como forma da solução pacífica dos conflitos", explicou.

Até certo ponto, segundo Lafer, a reflexão de Bobbio parte das ideias do filósofo inglês Thomas Hobbes (1588-1679) sobre a construção do Estado como uma instituição capaz de evitar a "guerra de todos contra todos", característica do estado de natureza. Bobbio discute, no livro, a possibilidade da construção, no plano internacional, de um terceiro capaz de impedir a guerra nuclear.

"Ao mesmo tempo, ele discute as formas de terceiros que existem no plano internacional. A Organização das Nações Unidas, por exemplo, é um terceiro. Mas trata-se de um terceiro fraco, porque está entre as partes e não acima delas. A ausência desse terceiro é o que preocupava Bobbio, com muita razão", disse Lafer.