USP promove seminário para debater legado do mestre baiano e sua análise crítica sobre o século XXI
Neste domingo (3), o Brasil celebra o centenário de nascimento de Milton Santos (1926-2001), o intelectual que não apenas colocou o país no mapa da ciência mundial, mas que redesenhou o próprio conceito de mapa. Baiano de Brotas de Macaúbas, neto de escravizados e vencedor do prêmio Vautrin Lud, o “Nobel” da Geografia, Santos transformou a análise do território em uma ferramenta de denúncia contra as desigualdades estruturais do capitalismo.
Para marcar os 100 anos de sua trajetória, a Universidade de São Paulo (USP) abre, nesta segunda-feira (4), o seminário internacional “Milton Santos 100 anos: um geógrafo do Século 21” . O evento, que contará com conferências de pesquisadores da Suíça, Argentina e Guiné-Bissau, reforça que a obra de Milton não é um registro do passado, mas uma lente indispensável para ler as crises urbanas contemporâneas.
O Seminário Internacional Milton Santos 100 Anos – Um Geógrafo do Século XXI é promovido pelo IEB, em parceria com o Departamento de Geografia da FFLCH e o Programa de Pós-Graduação em Geografia Humana, também da FFLCH.
A teoria na prática
Um dos exemplos mais latentes da atualidade de seu pensamento vem de São Luís, no Maranhão. A pesquisadora Livia Cangiano (USP/UEMA) utiliza a teoria miltoniana dos “dois circuitos da economia urbana” para explicar como as periferias maranhenses resistem à exclusão.
Enquanto o circuito superior (as grandes redes de supermercados) opera com alta tecnologia e exigências rígidas de capital, o circuito inferior (os mercadinhos e feiras populares) se adapta à escassez. É a economia que permite ao trabalhador comprar um único ovo quando o orçamento não alcança a dúzia. “O território produz outras racionalidades de existência” , explica Cangiano à Agência Brasil, evidenciando que o comércio popular não é um atraso, mas uma resposta sofisticada à “cidadania incompleta” brasileira.
A trajetória de Milton
Milton Santos não foi um acadêmico de gabinete. Sua vida foi marcada pelo enfrentamento direto ao poder. Exilado pela ditadura militar em 1964, percorreu universidades na França, Estados Unidos, Nigéria e Peru antes de retornar ao Brasil em 1977.
Na USP, onde se tornou professor titular em 1984, enfrentou o racismo estrutural da academia com a altivez de quem sabia que a liberdade de pensamento era inegociável. Como recorda o professor Jaime Tadeu Oliva (IEB-USP) no Jornal da USP, um dos organizadores do seminário, Milton recusava o rótulo de “homem cordial”, pois era um crítico feroz da burocracia universitária e do produtivismo vazio, tratando o conhecimento como um bem público essencial.
A globalização sob suspeita
Em sua obra-prima, Por uma outra globalização (2000), Santos descreveu o sistema global como uma “perversidade”. Ele argumentava que o meio técnico-científico-informacional – a rede de satélites, cabos de fibra ótica e logística – serve a um punhado de empresas que expropria a dignidade humana. “O espaço não é apenas um palco onde encenamos o drama social. Ele é parte desse drama, é integrante das nossas vidas”, defendia o geógrafo.
Agenda do centenário
Além do seminário na USP, que terá transmissão ao vivo pelo YouTube, as celebrações incluem:
Lançamento editorial: No dia 6 de maio, a Edusp lança A Bahia nos Anos 50 , vigésimo e último volume da Coleção Milton Santos, reunindo textos fundamentais sobre a formação de Salvador e Ubaitaba.
Acervo aberto: O Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) promoverá visitas guiadas à biblioteca pessoal do geógrafo, doada pela viúva Marie Hélène dos Santos.
Expansão nacional: Ciclos de palestras no Sesc (RJ) ao longo de maio e um fórum internacional na Universidade Federal do Tocantins, em agosto, discutindo as fronteiras técnicas do agronegócio sob a ótica miltoniana.
Cem anos após seu nascimento, Milton Santos permanece como o mestre que nos ensinou que, se a tecnologia hoje serve à exclusão, ela também pode, e deve, ser apropriada pelos de baixo para a construção de um mundo mais justo.
Com informações de Jornal da USP e Agência Brasil
(Artur Ikissima/ Itaú Cultural/ Ocupação Milton Santos/Divulgação)