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Centenário de Milton Santos: geógrafo negro teorizou sobre desigualdades (151 notícias)

Publicado em 04 de maio de 2026

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Em um estudo que examina as complexidades do consumo em São Luís, Maranhão, a academicista Livia Cangiano analisa como a presença de grandes redes de supermercados contrasta com mercadinhos e feiras populares que atendem à população de baixa renda, explorando as dinâmicas de exclusão e desigualdade que permeiam a cidade. Suas pesquisas se apoiam na teoria formulada na década de 1970 por Milton Santos, um renomado geógrafo brasileiro que deixou um legado significativo ao longo de sua vida.

No dia 3 de maio, marcada como a data de seu centenário, recorda-se o nascimento de Milton Santos, que faleceu em 2001. Suas teorias continuam a ser referências valiosas para a análise das questões socioeconômicas, tanto no Brasil como em outras partes do mundo.

A teoria de Santos postula a divisão da economia urbana em dois circuitos: o primeiro é o circuito superior, que abriga grandes empresas com elevado investimento em tecnologia e organização, enquanto o segundo, o circuito inferior, é composto por pequenos comércios e serviços que, embora tenham menos acesso a recursos, se mostram notavelmente adaptáveis às necessidades locais.

“É extremamente difícil para as pessoas que vivem na periferia se deslocarem até o centro da cidade para realizar compras. Assim, essas comunidades acabam criando seus próprios estabelecimentos, como mercadinhos e quitandas,” explica Livia Cangiano, que realiza sua pesquisa na Universidade de São Paulo (USP) e atua como professora colaboradora na Universidade Estadual do Maranhão (UEMA).

Um exemplo claro dos desafios enfrentados se dá na alimentação, onde o acesso é limitado. “No circuito inferior, um consumidor que não consegue pagar pela dúzia de ovos pode optar por comprar apenas um ovo. Esse tipo de comércio é mais flexível em comparação às grandes redes de supermercados, onde os produtos costumam ser vendidos em maior quantidade,” ressalta Livia.

As implicações das teorias de Milton Santos se espalham muito além das fronteiras brasileiras, sendo aplicadas em contextos urbanos em lugares como Gana, na África, e em cidades como Londres e Paris, na Europa, onde dinâmicas urbanas semelhantes são investigadas.

Uma trajetória de contribuição intelectual

Milton Santos nasceu em 3 de maio de 1926, na cidade de Brotas de Macaúbas, na Bahia. Ele se consolidou como uma das figuras mais proeminentes da geografia mundial, obtendo seu bacharelado na Universidade Federal da Bahia (UFBA) e um doutorado na Universidade de Strasbourg, na França.

Durante a ditadura militar no Brasil, viveu em exílio, lecionando em diversas instituições na Europa, África e América Latina antes de retornar ao país, onde continuou seu trabalho acadêmico e intelectual na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e na USP.

Como um intelectual negro, Milton Santos enfrentou o racismo estrutural na academia e produziu uma obra que redefiniu a compreensão do espaço geográfico, interligando os domínios da economia, política e sociedade. Sua contribuição é reconhecida por outros acadêmicos negros, como a geógrafa Catia Antonia da Silva, professora na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

“Como uma mulher negra de 60 anos que entrou na UFRJ na década de 80, onde a maioria dos meus colegas não eram negros, Milton foi uma figura crucial não apenas para meu desenvolvimento acadêmico, mas também para minha formação humana,” afirma Catia.

Embora a obra de Santos não trate diretamente da negritude, ele apresentou uma crítica social tão essencial que se tornou um instrumento para a análise das desigualdades raciais, sempre se posicionando de forma clara nas questões públicas relativas ao racismo.

Aprofundando as desigualdades urbanas

Milton Santos foi pioneiro ao destacar que o espaço nunca é apenas um cenário, mas o produto de decisões políticas e econômicas. A disparidade na distribuição de infraestrutura nas cidades não é acidental, mas sim resultado de escolhas que favorecem determinados grupos e regiões.

Ao observar áreas sem serviços básicos e outras com grande concentração de investimentos, Santos encoraja a ver essas realidades não como meros acidentes, mas como manifestações de relações de poder, onde os grandes aparelhos do Estado moldam a geografia de maneira histórica.

Em seu livro “Por uma outra globalização”, ele argumenta que um sistema aparentemente promissor de integração e progresso, na prática, intensifica desigualdades globais. As grandes obras de infraestrutura, como portos e corredores logísticos, conectam economias, mas também reconfiguram territórios locais, pressionando comunidades enquanto ampliam a concentração de riqueza.

Outro importante conceito de Santos, o “meio técnico-científico-informacional”, ilustra como as tecnologias e a infraestrutura vêm moldando o território. Isso resulta em áreas altamente conectadas coexistindo com outras que carecem de serviços elementares, refletindo a desigualdade inerente à modernização.

Caminhos para a transformação social

Apesar de suas análises críticas, Milton Santos também vislumbrou possibilidades de transformação social. Ele defendia que as mesmas redes e tecnologias que provocam desigualdades poderiam ser utilizadas pelas comunidades para desenvolver alternativas econômicas e sociais.

Iniciativas comunitárias e a cooperação mostram que os territórios podem ser espaços de resistência e reinvenção, trazendo à tona a ideia de que a periferia urbana brasileira possui um potencial para criar novas formas de existência. “Ele traz ferramentas que nos incentivam a entender as desigualdades de uma forma prática, permitindo que possamos ir a campo e interagir com as comunidades,” conclui Livia.

Comemorações do centenário

O centenário de Nelson Santos será celebrado com vários eventos pelo Brasil, reunindo pesquisadores, ativistas e o público para discutir o impacto de seu trabalho. O Seminário Internacional “Milton Santos 100 anos: um geógrafo do Século 21” será realizado de 4 a 8 de maio na USP, com transmissão online.

No Rio de Janeiro, o Núcleo de Estudos Afro-brasileiros e Indígenas (Neabi) do Sesc promoverá uma série de palestras ao longo de maio. A Universidade Federal do Tocantins também realizará um evento internacional de 26 a 29 de agosto, focando no pensamento de Milton Santos.

Reconhecimento do legado de Milton Santos

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva prestou homenagem ao centenário de Milton Santos, ressaltando sua crítica à globalização e como suas contribuições são cruciais para compreender as desigualdades. “Pouca gente conseguiu compreender o Brasil como este intelectual baiano, um dos mais importantes geógrafos de nosso país e do mundo,” escreveu Lula. Em tempos de significativas mudanças geopolíticas, a obra de Milton continua a ser relevante e necessária.