Notícia

Correio Popular (Campinas, SP)

Cenário XXI - Soro neutraliza veneno de abelha

Publicado em 09 julho 2010

Por Patrícia Azevedo

Cientistas brasileiros desenvolveram o primeiro soro contra o veneno de abelhas do mundo. O antídoto já foi patenteado e começou a ser produzido pelo Instituto Butantan, mas ainda não há previsão para ser comercializado. Pesquisadores de várias partes do mundo vinham tentando encontrar o antídoto para esse tipo de veneno, mas só agora que a fórmula foi encontrada. A bióloga Keity Souza, responsável pela pesquisa, explica que a dificuldade em desenvolver a fórmula está na complexidade do veneno da abelha. "O veneno das abelhas é formado por uma série de compostos e proteínas diferentes. É uma mistura complexa com mais de 100 componentes. São necessários fazer vários testes", conta.

O soro é recebido por via intravenosa e cerca de 20 mililitros trazem ao corpo uma quantidade de anticorpos necessária para neutralizar 90% dos efeitos provocados pelas picadas de abelhas. O antídoto foi desenvolvido com base no veneno das abelhas africanizadas, as mais comuns encontradas no Brasil. "Esse índice é muito satisfatório. Alguns antídotos para venenos de cobras têm eficácia de 70%", comenta.

O produto não pode ser usado em pessoas alérgicas ao veneno de abelha. "Quando uma pessoa é alérgica, qualquer quantidade de veneno, por menor que seja, desencadeia uma série de reações na pessoa. O procedimento é usar remédios, como broncodilatadores, que tratem esses sintomas", explica. Segundo Keity, o soro é indicado para anular os efeitos provocados pela descarga de uma grande quantidade de veneno no organismo.

Segundo dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN), do governo federal, em 2006 foram contabilizados 3.500 acidentes com ferroadas de abelhas no País. Quando um adulto é picado por mais de 200 insetos, o corpo recebe uma quantidade de veneno suficiente para causar lesões nos rins, fígado e coração. Os casos que resultam em morte decorrem de problemas renais, com a falência dos rins. Até então, o casos de envenenamento eram tratados com remédios para aliviar os sintomas causados pelo excesso de veneno. "O tratamento é suporte, você vai tentar barrar as consequências do veneno, usando analgésicos, broncodilatadores e até hemodiálise", explica.

O soro foi desenvolvido no Laboratório de Imunologia do Instituto do Coração (Incor) da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) durante os quatro anos do doutorado de Keity. A pesquisa recebeu R$ 3 milhões em investimentos do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e Financiadora de Estudos e Projetos (Finep).

Novos estudos

Os estudos prosseguem para identificar as proteínas presentes no venenos de abelhas da Europa e da África. Os cientistas querem testar se esse soro neutraliza venenos de espécies diferentes. "Pelos testes iniciais, há uma grande chance de isso acontecer", diz a cientista. Segundo Keity, o veneno da abelha africanizada é mais complexo, tem mais proteínas, o que aumenta a chance do soro funcionar com outras espécies. De acordo com a bióloga, nos Estados Unidos, essas abelhas são chamadas de abelhas assassinas.

O NÚMERO

17 MORTES é o total de pessoas que morreram em decorrência de picadas de abelha no Estado de São Paulo no ano de 2006.

Anvisa precisa avaliar o novo antiveneno

Antes de ser distribuído aos hospitais da rede pública, o soro deve ser aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Não há prazo para que isso ocorra. "Agora depende mais de uma questão de burocracia. O pedido de aprovação já foi mandado", diz a bióloga. O Instituto Butantan já produziu 80 litros de soro desde 2008. A informação sobre a descoberta só foi divulgada agora depois que o produto recebeu a patente.

A Anvisa vai conferir a validade dos testes feitos pelos pesquisadores, o que deve acontecer em até seis meses. Depois, o soro vai ficar disponível no Hospital Vital Brazil, da Fundação Butantan, que é referência para os casos de envenenamento. Esses pacientes serão acompanhados pela Anvisa e, caso a agência considere os efeitos do soro satisfatórios, ele poderá ser distribuído pelo Ministério da Saúde para os hospitais públicos de todo o País nas áreas onde houver mais relatos de acidentes. Hospitais privados e governos de outros países poderão comprar o produto diretamente do Instituto Butantan.(PA/AAN)

Fonte: Agência Anhanguera