Notícia

Gazeta de Ribeirão online

Cenário XXI - Radiografia subterrânea

Publicado em 16 julho 2010

Até o final desse ano o Brasil deve começar a aplicar o que há de mais avançado na busca por petróleo. Por meio de um acordo firmado entre a Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e a Petrobras, o País acaba de adquirir a Microssonda Iônica de Alta Resolução (Shrimp na sigla em inglês). O equipamento permite verificar a idade das bacias sedimentares, onde geralmente há petróleo, com alta precisão. A conta de R$ 3 milhões foi dividida entre as duas instituições e a microssonda Shrimp deve ser instalada no Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo (IGC-USP).

Para saber a idade dos minerais presentes em uma bacia sedimentar, a Shrimp traça a composição de um ponto de 15 a 20 microns, medida que equivale ao milésimo de milímetro, da substância analisada. "Imagine um mineral pequeno. Dentro desse cristal, a microssonda analisa um ponto menor do que a ponta de uma caneta esferográfica", disse o diretor do IGC Colombo Celso Gaeta Tassinari. Segundo o geólogo, o mineral mais analisado na busca por petróleo é o Zircão, por causa da sua resistência. "Dependendo a idade desses minerais e de suas rochas fontes, há mais possibilidades de encontrarmos petróleo nessa ou naquela bacia", contou.

As bacias sedimentares, localizadas em zonas profundas do mar, são formadas por minerais que se soltam de rochas encontradas mais à superfície. A cada acontecimento geológico os minerais passam por uma recristalização, e é analisando essas camadas que a Shrimp consegue identificar suas idades. "As aplicações acadêmicas são diversas. Com um único cristal é possível descobrir todo o histórico de acontecimento geológico de uma região", explicou Tassinari.

Hoje, a maneira mais prática de se analisar minerais, sem ser necessário viajar a outros países, é através do método químico. "Essa análise utiliza substâncias pesadas, no caso Chumbo e Urânio, para dissolver os minerais. Mas esse processo demora cerca de 15 dias, a Shrimp faz o serviço em uma hora", disse o geólogo Miguel Basei do IGC.

A FRASE

"Com um único cristal é possível descobrir todo o histórico de acontecimento geológico de uma região"

Celso Gaeta Tassinari, diretor do IGC Colombo

Brasil será o único na AL a ter a sonda

Somente 14 países no mundo possuem a microssonda Shrimp. Na América Latina, o Brasil será exclusivo. "Precisávamos ir à Austrália ou China para fazer essas análises. Agora, podemos virar um pólo de referência quando a questão for estudos geológicos", afirmou o diretor do IGC Colombo Celso Gaeta Tassinari, que espera receber cientistas de países vizinhos em breve devido ao novo equipamento. "A demanda é muito grande. A Shrimp possibilitará um aumento do conhecimento acadêmico sobre o solo brasileiro", completou.

O fortalecimento da geologia no País começou em 2004, quando uma rede de laboratórios especializados foi criada. São quatro centros em diferentes universidades equipados com um Espectrometro de Alta Resolução (ICP-MS na sigla em inglês). "Ele também serve para datar os minerais, porém é inferior a Shrimp, não possui a mesma precisão", disse Miguel Basei, também do IGC.