Notícia

Correio Popular (Campinas, SP) online

Cenário XXI - Estudo detalha ação das estatinas

Publicado em 28 maio 2010

Por Adriana Giachini

Da Agência Anhanguera

Depois de um ano e meio de testes e observações, uma pesquisa da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) identificou novo mecanismo de ação das estatinas — a classe de fármacos mais utilizada no tratamento de níveis elevados de colesterol no sangue. O estudo, coordenado pelo professor Lício Velloso, do Laboratório de Sinalização Celular, descreve como a droga provoca uma redução de estresse do retículo endoplasmático (com isso, diminui também a chance de obstrução das artérias e, como consequência, os riscos de uma evolução para quadros de angina e enfarte em pacientes com colesterol).

Com o resultado do estudo, pesquisadores da Unicamp acreditam que haverá um impacto forte sobre os medicamentos, tanto na comercialização, quanto na fabricação das substâncias - uma vez que as indústrias farmacêuticas aprimoram cada nova geração de estatinas. Porém, ainda não é possível dizer quando o produto chegará ao mercado. "Porque o processo depende ainda de novos estudos. Acreditamos que ainda precisamos de alguns anos, menos que dez", explica Andressa Coope, aluna de doutorado do professor Velloso.

Além de ajudar pacientes com colesterol alto, Andressa acredita que a descoberta possa beneficiar também paciente com diabete do tipo 2. Isso porque, diminuindo o colesterol e reduzindo o estresse do retículo endoplasmático, haverá uma redução também na produção de citocinas pró-inflamatórias que, por sua vez, afetam a resistência a insulina, principal fator do diabete tipo 2. "É uma descoberta importante porque estabiliza a placa aterosclerótica, diminuindo o risco de doenças cardiovasculares", explica.

A metodologia utilizada pelos pesquisadores da Unicamp foi concentrada na na região específica dos macrófagos, que são células do sistema imunológico. Essa zona do corpo, responsável por proteínas que combatem bactérias e corpos estranhos ao organismo humano, é chamada de retículo endoplasmático, cuja relação com o quadro de anginas e enfartes é facilmente explicada.

Quando uma pessoa ingere gordura em excesso, o sangue tende a apresentar altos níveis de colesterol, em especial o LDL, também chamado "colesterol ruim". De acordo com Velloso, os macrófagos "enxergam" essa gordura como um corpo estranho e, desta forma, o retículo passa a funcionar de modo incorreto, gerando o estresse. Em quadros mais críticos, esse processo provoca o aumento no tamanho das células, o que pode causar obstrução das artérias. "O que nós observamos é que a estatina inibe este estresse, reduzindo a inflamação e o nível do colesterol", explica Velloso.

O professor acredita ainda que a descoberta será utilizada também em pesquisas genéticas. Como o retículo endoplasmático regula a produção de proteínas, que são codificadas pelos genes, se os pesquisadores souberem quais são os genes envolvidos neste tipo de processo poderão impedir ainda mais o estresse e suas consequências.

Aterosclerose

O colesterol é fator principal da aterosclerose, doença inflamatória crônica na qual ocorre a formação de ateromas dentro dos vasos sanguíneos. "Acreditamos que nossa descoberta irá reduzir o número de eventos atero-trombóticos", comemora Íkaro Soares Santos Breder, que também acompanhou os estudos do Velloso.

Dados da Sociedade Brasileira de Cardiologia indicam que os benefícios das estatinas em termos de redução das taxas de doenças cardiovasculares atingem cifras que podem alcançar 44% de eficiência. As doenças cardiovasculares são a causa de 35% das mortes do Brasil. O câncer aparece em segundo, com 12%. "Além disso temos que lembrar que o Brasil é o campeão mundial de internações por insuficiência cardíaca", diz o presidente da Sociedade Brasileira de Cardiologia, Jorge Ilha Guimarães.

SAIBA MAIS

NOZES E COLESTEROL

Estudo publicado no Archives of Internal Medicine, liderado por Joan Sebate, da Universidade de Loma Linda, na Califórnia, apontou no início deste mês que comer nozes pode ajudar a combater o colesterol ruim. Durante a pesquisa, foram analisados 25 testes realizados em sete países, envolvendo homens e mulheres entre os 19 e os 86 anos com níveis altos ou normais de colesterol. A conclusão foi que as pessoas que comeram 67 gramas de nozes por dia registraram uma queda de 5,1% na concentração total de colesterol e uma diminuição de 7,4% por cento na lipoproteína LDL-C, o colesterol de baixa densidade, conhecido como mau colesterol.

CAMPANHAS

Médicos defendem a importância de campanha para redução dos níveis de gordura saturada na alimentação. Prova disso é que, apontam estudos, se houvesse uma diminuição de apenas 2% no teor de gordura saturada nas dietas dos norte-americanos, poderiam ser evitados, por ano nos EUA, cerca de 100 mil enfartes do miocárdio. Outro exemplo é que a Finlândia, após esforços do governo, reduziu em 60% o número de mortes por doenças cardiovasculares.

DESCOBERTA FOI DESTAQUE NA MÌDIA ESPECIALIZADA. TRABALHO RENDEU DOIS PRÊMIOS PARA ALUNO

A descoberta de um novo mecanismo de ação de estatinas também se destaca academicamente, uma vez que estudos são procurados há mais de dez anos. Por esta razão, a revista Atherpsclerosis aceitou rapidamente a publicação de um artigo sobre o tema.

Também o aluno Íkaro Soares Santos Breder, do curso de iniciação científica e bolsista da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) ganhou, com a mesma pesquisa, dois prêmios: o de melhor trabalho do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Cientifica, em 2009, e o prêmio principal do Congresso Brasileiro de Cardiologia, organizado pela Sociedade de Cardiologia de São Paulo.

A estatina tem um longo histórico de estudos. No início da década de 1970, pesquisadores descobriram como o corpo humano sintetizava o colesterol e com isso desenvolveram-se medicamentos como a estatina. O uso do medicamento começou em 1980, porém sem que se explicasse porque o fármaco reduzia os níveis de colesterol. Somente na década de 90 estudos apontaram o poder anti-inflamatório da droga. A novidade apresentada pela equipe da Unicamp é justamente "desvendar" esse novo mecanismo de ação, mostrando porque a estatina reduz o colesterol. (AG/AAN)