Notícia

Jornal de Piracicaba

Cena ter vai equipamento mais preciso do país para medir CO2

Publicado em 22 maio 2005

Tecnologia

O espectômetro mede a concentração de carbono 13 e gera dados para avaliar impacto de queimadas na floresta sobre o clima mundial
Maria Fernanda Ribeiro — fernanda@jpjornal.com.br
O Cena (Centro de Energia Nuclear na Agricultura) vai ter o equipamento mais preciso do país para medição de gás carbônico (CO2) na atmosfera, que fornecerá dados para avaliar a influência das queimadas na floresta Amazônica sobre o clima mundial. O equipamento, doado por uma empresa norte-americana em parceria com a Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), custa US$ 250 mil, o equivalente a R$ 619 mil. O diretor do centro, Reynaldo Luiz Victória, informou que o aparelho chega em um mês.
Victória disse que o equipamento, chamado espectômetro de massas, mede a concentração de um parâmetro do gás carbônico —— o isótopo 13 —— o elemento menos abundante do carbono na natureza. Os dados coletados em 11 torres de 40 a 60 metros, construídas no meio da floresta, serão analisados no Laboratório de Ecologia Isotópica do Cena em Piracicaba. "Temos outros semelhantes no Cena e no país, mas com essa tecnologia e precisão é o único", disse Victória.
O aparelho foi doado por uma entidade norte-americana que trabalha com o controle de atmosfera, a NOAA (Oceanos nacionais e administração de atmosferas), em parceria com a Universidade do Colorado e com a Fapesp.
"Será possível medir a concentração do isótopo 13 do CO2, de onde ele está vindo e se é de queimada ou de combustível fóssil, por exemplo", disse Victória. A Fapesp doou US$ 46 mil — R$ 113,8 mil — para completar o valor do equipamento.
O experimento faz parte do projeto LBA (Experimento de Grande Escala da Biosfera-Atmosfera na Amazônia), mas é uma iniciativa de pesquisa internacional liderada pelo Brasil. Segundo a assessoria de imprensa do LBA, o experimento está projetado para gerar novos conhecimentos para entender o funcionamento climatológico, ecológico, biogeoquímico e hidrológico da Amazônia, o impacto das mudanças no uso da terra nesses funcionamentos e as interações entre a Amazônia e o sistema biogeofísico global.
"O equipamento é para uma análise de "altíssima' resolução da concentração isotópica do indicativo de origem do CO2", informou Victória.
Segundo ele, a alteração do clima global pode interferir nos padrões de troca do gás carbônico na atmosfera. "Saber se os gases estão vindo do hemisfério Norte ou Sul. Se não estiver havendo transporte de gás carbônico pode ser que o clima esteja alterado."
O professor do Laboratório de Ecologia Isotópica do Cena Luiz Antônio Martinelli disse que os resultados coletados serão analisados e guardados em um banco de dados e, possivelmente, serão transformados em publicações para resoluções futuras. "É um projeto que terá resultado em cinco ou dez anos", declarou Martinelli. Segundo ele, a saúde climática do planeta é o foco do experimento.

Manipulação — O equipamento será manipulado por técnicos capacitados e alunos de mestrado e doutorado do centro. De acordo com Martinelli, são pessoas qualificadas para o trabalho que envolve operação prática e teórica.
O professor explicou que há cerca de três anos foram construídas 11 torres na floresta Amazônica com aparelhos específicos — bombas que aprisionam o ar dentro de balões para serem enviados, em frascos de aço inox de cinco litros cada ao laboratório do Cena para análise do isótopo.
Se a amostra coletada for acima de três quilômetros do solo, as torres são substituídas por aviões que também possuem equipamentos para "aprisionar" o ar.

Utilização — Martinelli informou que além da medição do isótopo 13 do gás carbônico, o novo equipamento também vai medir outros parâmetros, como carbono-3 que identifica plantas características de floresta.
Ele disse que na prática o equipamento possibilita saber se a concentração de açúcar da cana nos vinhos está dentro do exigido pela legislação. "O vinho é caracterizado pelo carbono-3, mas a legislação permite um pouco de C-4 para aumentar o álcool. A análise permite saber se a legislação está sendo cumprida e o consumidor não vai comprar gato por lebre."

Experimento é iniciativa internacional liderada pelo Brasil