Notícia

DCI

Celulose amplia as margens do etanol

Publicado em 05 junho 2007

A tecnologia da hidrólise da celulose para a produção de etanol vai ampliar a gama de matérias-primas para a produção de biocombustíveis, mas aumentará ainda mais a competitividade da cana na geração de álcool. A Dedini Indústrias de Base, de Piracicaba (SP), tem um plano para atingir uma unidade de hidrólise do bagaço de cana de porte industrial dentro de três anos, informa o DCI o vice-presidente da Dedini, José Luiz Olivério.

Segundo o executivo, as pesquisas estão na fase de determinação de parâmetros para uma unidade industrial. "Estamos confiantes", diz Olivério, que não revela os valores investidos pela companhia no projeto, surgido nos anos 80 e retomado em 1997 em parceria com a Fundação de Amparo à Pesquisa de São Paulo (Fapesp).

"A cana é a melhor matéria-prima para o etanol de celulose porque o bagaço, rico em fibras, já é colhido atualmente para a extração do caldo", explica Nilson Zaramella Boeta, diretor superintendente do Centro de Tecnologia Canavieira (CTC). No caso de outras matérias-primas, como o capim ou a palha do milho, todo o processo de produção teria de ser desenvolvido especificamente para a fabricação de etanol a partir da celulose.

"As matérias-primas que precisarem ser colhidas exclusivamente para a produção de etanol sempre terão um custo maior", prevê o consultor Alexandre Mendonça de Barros, da MB Associados.

Boeta conta que o CTC já está trabalhando para obter variedades de cana mais ricas em fibras, voltadas para a utilização em usinas que extraiam o caldo e posteriormente a celulose para a fabricação do combustível. Além disso, o diretor do CTC diz que é preciso buscar soluções logísticas para colher a palha da cana, que também é rica em celulose mas que atualmente fica no campo por não ter utilidade viável.

"A hidrólise também vai dar a opção de as usinas decidirem o destino da biomassa do bagaço e da palha: a produção de etanol ou a produção de energia elétrica a partir da queima", completa Nilson Boeta.

Déficit em pesquisa

Apesar do potencial que a hidrólise possui para consolidar a liderança mundial brasileira no mercado de álcool combustível, tanto Mendonça de Barros como Boeta criticam a falta de investimentos públicos na pesquisa desse processo produtivo no País.

O governo norte-americano está investindo US$ 385 milhões no financiamento de pesquisas na área de hidrólise que devem trazer resultado em até quatro anos, divulgou Helena Chum, consultora sênior do Laboratório Nacional de Energia Renovável (NREL, em inglês). A pesquisadora participa do Ethanol Summit 2007, que ocorre entre ontem e hoje em São Paulo.

"No Brasil, as pesquisas ainda são muito financiadas pela iniciativa privada", compara Boeta. O investimento do Governo Federal está concentrado em R$ 7 milhões aplicados no projeto Rede Bioetanol, dirigido pelo Ministério de Ciência e Tecnologia e realizado por diversas universidades públicas.

"A rede reúne os esforços, antes dispersos, para a obtenção de um processo de produção de etanol a partir da celulose através de ações enzimáticas", conta a coordenadora científica da Rede Bioetanol, Elba Bon. Entre as frentes do grupo está a pesquisa de enzimas mais eficientes que atuem na transformação da celulose.

"Estamos ficando para trás, mas temos competência para copiar a tecnologia norte-americana e nos fazer valer da maior disponibilidade de matéria-prima para este processo", avalia o consultor da MB.

Na opinião do presidente-executivo e controlador do grupo sucroalcooleiro Cosan, Rubens Ometto Mello, o fato de os Estados Unidos alcançarem primeiro a tecnologia da hidrólise em escala comercial não é um fator preocupante. "Isso não é problema algum, porque a tecnologia poderá ser utilizada e desenvolvida em qualquer parte do mundo", acredita o executivo.

Outro potencial para o Brasil no etanol de celulose é a utilização do capim gerado na produção de sementes de pastagem, que hoje é totalmente desperdiçado, pontua Roberto Rodrigues, ex-ministro da Agricultura e atual coordenador do Centro de Estudos do Agronegócio da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

O desafio da logística

Para Alexandre Mendonça de Barros, a logística deverá ser um fator limitante da produção e principalmente da comercialização de etanol a partir da celulose no Brasil. "A falta de infra-estrutura adequada para o escoamento da produção é alarmante", disse ele. A utilização do bagaço de cana poderá até dobrar a produção brasileira de álcool, segundo Roberto Rodrigues.

Quanto à construção de um sistema de alcoodutos anunciada pela Petrobras, Ometto dá um claro recado de que os usineiros não deixarão a estatal monopolizar o sistema de distribuição do biocombustível. "No nosso setor, quem domina a logística domina o mercado", considera ele. O presidente da Cosan diz que o setor privado já está negociando com a Petrobras para ser parceiro da companhia nos projetos logísticos para o etanol.

A posição é a mesma do presidente da Infinity Bio-Energy, Sérgio Thompson-Flores: "Consideramos que a logística faz parte do nosso negócio principal e daremos prioridade às soluções de distribuição nas quais sejamos sócios", diz ele. A Infinity possui quatro usinas em operação e seis em construção no País.

Liderança no flex fuel

Se na pesquisa da hidrólise o Brasil não está na dianteira, o País começa a exportar a tecnologia dos veículos flex fuel. A Bosch do Brasil já firmou parcerias com montadoras dos Estados Unidos, da Suécia e agora da França para embarcar as técnicas e até os componentes de injeção eletrônica flex. "Na Europa o espaço para veículos de combustível flexível está começando agora e a Bosch quer estar na liderança com os primeiros lançamentos da França, que devem ocorrer nos próximos meses", revela o gerente de Desenvolvimento de Produtos da Bosch América Latina, Fábio Ferreira.

O executivo da multinacional alemã conta que a filial brasileira está sendo responsável pela adaptação de sua tecnologia às necessidades dos novos mercados quanto a composição dos combustíveis e especificações de emissão de poluentes. As apostas iniciais estão no mercado norte-americano, onde a disponibilidade de etanol é cada vez maior.