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ABC Farma

Células — Tronco

Publicado em 01 abril 2005

"Dra. Lygia, com a aprovação do Projeto de Lei de Biossegurança pela câmara dos Deputados, quantos pacientes sairão das filas de transplantes?". Gelei com a pergunta feita em entrevista ao vivo, no dia seguinte da aprovação do uso de embriões humanos para a extração de células-tronco (CTs) embrionárias. Ela sintetizava toda a expectativa que a luta por esta aprovação gerou no último ano. Respirei fundo e respondi "Nenhum... ". Nenhum hoje, nenhum até mesmo nos próximos anos. Mas quem sabe muitos no longo prazo, agora que podemos trabalhar com CTs embrionárias humanas no Brasil. Talvez um certo sensacionalismo faça parte do jogo, e tenha sido importante para mobilizar a sociedade e os parlamentares e levar à aprovação do PL de Biossegurança. Mas agora que a poeira baixou, quais são as reais possibilidades das CTs embrionárias?
As CTs embrionárias são o tipo mais versátil de CTs até hoje identificadas em mamíferos. Enquanto as CTs derivadas da medula óssea ou do sangue de cordão umbilical conseguem se transformar em somente alguns, as CTs embrionárias possuem a formidável capacidade de dar origem a todos os tecidos do corpo. Estas células não são uma novidade da ciência — desde a década de 1 980 faz-se pesquisas com as CTs embrionárias de camundongos. Trabalhando com elas, descobrimos como multiplicá-las e transformá-las no laboratório em células da medula óssea, do músculo cardíaco, em neurônios, entre outras. E mais: quando transplantadas em animais doentes, estas células derivadas das CTs embrionárias foram capazes de aliviar os sintomas de diversas doenças, desde leucemia e doença de Parkinson até paralisia causada por trau
ma da medula espinhal (daí o entusias mo do Super Homem Christopher Reeve em relação a essas células).
Qual é a segurança?
Em 1 998 surgiram as primeiras linhagens de CTs embrionárias humanas, e junto com elas a enorme expectativa de seu uso terapêutico. Porém, antes de começarmos testes clínicos injetando O embrionárias em seres humanos, te- mos algumas questões fundamentais que devem ser resolvidas.
primeira diz respeito à segurança dessas células. Quando injetadas em seu estado nativo em camundongos, as CTs embrionárias podem formar teratomas. Assim, antes de injetarmos estas células no paciente (seja ele um camundongo ou uma pessoa), temos que primeiro induzi-las no laboratório a se transformar no tipo celular que nos interna da medula espinhal (daí o entusiasmo do Super Homem Christopher Reeve em relação a essas células).
Caso contrário, no organismo elas se multiplicam e podem se diferenciar descontroladamente formandõ tumores.
Uma segunda questão importantíssima diz respeito à compatibilidade entre as CTs embrionárias e o paciente. Ora, em qualquer transplante é necessá rio existir uma compatibilidade entre doador e receptor para que o órgão não seja rejeitado. O mesmo deve acontecer com um transplante de CTs embrionárias. Como garantir que teremos CTs embrionárias compatíveis com todos os pacientes? Uma forma seria criar um banco dessas células, cada uma derivada de um embrião diferente, e torcer para encontrar uma compatível com o paciente. Porém, nossa experiência com bancos de medula óssea demonstrou que isso é extremamente difícil de se conseguir.
Técnica da clonagem
Uma alternativa seria então criar O embrionárias "sob medida", ou seja, geneticamente idênticas ao paciente. Com as técnicas de clonagem, podemos criar um embrião clonado do paciente e dele extrair as CTs embrionarias Estas poderiam então gerar tecidos 1 00% com patíveis com o paciente. Esta técnica chama-se clonagem terapêutica, e foi realizada pela primeira vez em seres humanos na Coréia no início de 2004.
E importante ressaltar que apesar da clonagem terapêutica resolver a questão da compatibilidade das CTs embrionárias infelizmente ela não poderia ser utilizada em indivíduos com doenças genéticas... As CTs embrionárias geradas a partir das células destes pacientes também carregariam a doença, e por isso não seriam capazes de gerar tecidos sadios para transplante... Assim, para o tratamento de doenças genéticas com CTs - sejam embrionárias, da medula ou do sangue do cordão, a melhor alternativa é conseguir um doador aparentado, que tem maior chance de ser compatível com o paciente.
Made in Brasil
E no Brasil, como andam as pesquisas com as CTs embrionárias? Em 1 999, com o financiamento da FAPESP, nosso grupo estabeleceu as primeiras linhagens de CTs embrionárias de camundongos totalmente "made in Brasil", implantando a tecnologia no país e a disponibilizando para outros grupos de pesquisa. Atualmente, pelo menos  cinco grupos trabalham com essas células, estudando a sua capacidade de transformação em diferentes tecidos, e já estão capacitados a trabalhar com as CTs embrionárias humanas — só dependiam da aprovação da lei de Biossegurança. Provavelmente com toda a discursão em torno da células. Outros grupos de pesquisa se interessaram por trabalhar com elas. Para que essas pesquisas avancem no país, será fundamental um financiamento consistente por parte dos governos estaduais e do governo federal.
Quanto a clonagem terapêutica, a colaboração entre grupos que fazem clonagem animal e aqueles que trabalham com Cts embrionárias poderia tornar esta pratica uma realidade no país. Porém como resultado das negociações envolvidas na aprovação do PL de Biossegurança, este proíbe a clonagem terapêutica. Não tem problema, a con quista do direito de utilizar embriões congelados para pesquisa foi um primei- ro e importantíssimo passo — quem sabe em uma segunda rodada a clonagem terapêutica possa ser renegociada?
E enquanto não podemos utilizá-las como agente terapêutico, temos muito a aprender com as CTs embrionárias. Ao desvendarmos os mecanismos envolvidos em sua capacidade de se transformar em qualquer tipo de célula, aprendemos sobre a biologia do ser humano — esses conhecimentos básicos trarão  ao longo prazo grande benefícios à saúde humana.
Em conclusão, o uso terapêutico da CTs embrionárias ainda está longe de se tornar uma realidade, tanto no Brasil quanto no mundo todo. Porém, para que exista alguma chance de isso um dia acontecer, precisamos pesquisar — e foi este direito que adquirimos no mês passado, passando de meros observadores do desenvolvimento de uma área promissora da medicina para jogadores muito competitivos. Afinal de contas, as pesquisas com  de medula e de cordão umbilical no Brasil são motivo de orgulho nacional. Agora  poderemos fazer o mesmo bonito com as embrionárias.