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Células-tronco de tecido dentário têm potencial para formar vasos sangüíneos, mostra estudo brasileiro

Publicado em 05 novembro 2008

Agência Fapesp

Uma pesquisa de doutorado defendida na Faculdade de Odontologia de Araraquara (FOAr) da Universidade Estadual Paulista (Unesp) mostrou que células-tronco derivadas de tecido dentário humano têm alto potencial de formação e proliferação de novos vasos sangüíneos.

De acordo com o estudo de autoria de Andreza Maria Aranha, em condições de baixa concentração de oxigênio (hipóxia) no sangue, essas células são capazes de estimular a formação de proteínas responsáveis pela revascularização de estruturas dentárias que sofreram traumas.

A pesquisa foi realizada por Andreza Maria Fabio Aranha no Laboratório de Angiogênese da Faculdade de Odontologia da Universidade de Michigan (EUA), sob orientação do professor Jacques Nör.

Segundo a pesquisadora, o estudo mostrou pela primeira vez eventos de sinalização molecular em células-tronco de tecidos internos do dente (tecido pulpar) em condições de hipóxia, mostrando a diferença de comportamento dos diferentes tipos de células presentes nesse tipo de tecido durante a angiogênese (mecanismo de crescimento de novos vasos sangüíneos a partir dos já existentes).

"Os mecanismos examinados no trabalho podem futuramente ser ativados terapeuticamente para potencializar a revascularização de tecidos pulpares danificados por traumas dentários, evitando a necrose e a perda de outras estruturas do dente", disse Andreza à Agência FAPESP. "Agora estudos in vivo serão fundamentais para a avaliação da vascularização induzida a partir dos resultados in vitro obtidos", aponta.

A pesquisadora, orientada pelo docente Carlos Alberto de Souza Costa, no programa de Doutorado do Departamento de Clínica Infantil da FOAr, ganhou o Prêmio Hatton, concedido em Águas de Lindóia (SP), em setembro, durante o Encontro Anual da Sociedade Brasileira de Pesquisa Odontológica, divisão brasileira da International Association for Dental Research (IADR).

Durante seu estágio de doutorado na instituição de ensino americana, Andreza cultivou células do tecido interno do dente em condição de hipóxia. Segundo Andreza, a estrutura dentária é formada por três componentes distintos: o esmalte e os tecidos externo e interno (tecido pulpar), popularmente conhecido como "nervo" do dente e que é altamente vascularizado.

"O tecido interno do dente, responsável pela formação da estrutura dentária, é composto por vasos sangüíneos, linfáticos, células e feixes nervosos", descreve Andreza. Seguindo essa linha de raciocínio, o estudo avaliou o comportamento de células-tronco (DPSC) e de fibroblastos (HDPF) de polpas dentárias de dentes permanentes humanos em condições de hipóxia.

O objetivo foi verificar a capacidade das células-tronco e dos fibroblastos no que diz respeito à formação de vasos sangüíneos por células endoteliais (que recobrem a parede interna dos vasos).

De acordo com o projeto de pesquisa, tanto as células-tronco como os fibroblastos derivados de tecidos pulpares de dentes permanentes humanos apresentam potencial angiogênico, estimulando a formação de vasos sangüíneos pelas células endoteliais em condição de hipóxia.

"O trabalho mostrou que o processo de revascularização envolve a participação de inúmeras proteínas que são secretadas por diferentes células", explica Andreza, que colocou células endoteliais em contato com o meio de cultura em que as células pulpares estudadas foram cultivadas, por diferentes períodos e concentração de oxigênio, para demonstrar o alto potencial angiogênico das células pulpares.

"Tanto as células-tronco como os fibroblastos foram capazes de estimular a proliferação e a organização das células endoteliais em estruturas vasculares", conta. Segundo ela, após 48 horas de incubação, observou-se que as células endoteliais tratadas com o meio de acondicionamento das células-tronco em hipóxia tiveram proliferação 70% maior quando comparadas ao grupo controle, que são as células endoteliais cultivadas apenas em meio de cultura.

Com isso, de acordo com as condições experimentais da pesquisa, foi possível concluir que as células pulpares humanas estudadas foram capazes de aumentar a proliferação e a formação de vasos sangüíneos pelas células endoteliais.

"Concluímos que a baixa concentração de oxigênio, ou hipóxia, induziu o potencial angiogênico de células pulpares humanas, o que foi demonstrado pela primeira vez nas células-tronco", aponta Andreza.

Agregando conhecimento

De acordo com a cirurgiã-dentista, esses resultados agregam conhecimento para a área de traumas dentários, que ocorrem com freqüência em crianças e adolescentes em idade escolar e em fase de crescimento, tendo como causas mais freqüentes as quedas, colisões, acidentes automobilísticos e atividades esportivas.

Com o deslocamento do dente para fora de sua estrutura protetora ocorre o rompimento dos vasos sangüíneos, responsáveis pelo transporte de oxigênio para o local.

"A regulação da angiogênese, o processo de vascularização a partir de vasos sanguíneos preexistentes, em baixas concentrações de oxigênio, é uma estratégia importante para o controle homeostático do organismo. O conhecimento dos mecanismos envolvidos na resposta das células pulpares à hipóxia pode melhorar o prognóstico dos tratamentos das luxações dentárias", aponta Andreza.

Em abril de 2009, a pesquisadora irá representar o Brasil na competição mundial da IADR, que ocorrerá durante a 87ª General Session & Exhibition, em Miami (EUA). Seu trabalho concorrerá ao Prêmio Hatton Internacional, junto com outras pesquisas selecionadas nos principais países que contribuem para estudos na área.

"Ganhar o Prêmio Hatton foi de fundamental importância para minha carreira acadêmica, visto que é o maior prêmio para pesquisas científicas em odontologia no Brasil", disse a pesquisadora, que teve bolsa de doutorado da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

"E representar o país na competição mundial da IADR me deixa muito feliz, primeiro pela oportunidade de presenciar a participação do Brasil num evento científico dessa natureza e também por poder divulgar meu trabalho em âmbito internacional", afirma Andreza.