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Células humanas agregam-se a cérebro de rato

Publicado em 17 janeiro 2006

Agência FAPESP
Pode-se lembrar de Pink e de Cérebro, os camundongos inteligentes do desenho animado criado por Steven Spielberg, a partir do experimento coordenado pelo geneticista brasileiro Alysson Muotri no Instituto Salk dos Estados Unidos. Em meio a uma corrida mundial, Muotri conseguiu implantar células embrionárias humanas no cérebro de camundongos. O experimento - um dos primeiros feitos em animais - funcionou. As células embrionárias se diferenciaram em neurônio, entraram em contato com os neurônios naturais do roedor e responderam a impulsos elétricos, mas evidentemente os animais não deram nenhum sinal de querer dominar o mundo, como Cérebro tenta em cada novo episódio do seriado da televisão. "O número de células incorporadas ao cérebro dos camundongos é menor do que 0,1%", diz Muotri, que trabalha sob a supervisão de Fred Gage, chefe do laboratório de genética do Salk. Sua intenção era verificar se é possível implantar células embrionárias humanas em animais - até agora, a maioria das pesquisas foi feita com células em cultura, in vitro. Esse trabalho, publicado no mês passado na PNAS, a revista da Academia de Ciência dos Estados Unidos, mostrou como produzir quimeras - animais que agregam características de outras espécies e, neste caso, podem se tornar um modelo para testar medicamentos em um organismo vivo, complementando as avaliações feitas em células humanas em cultura. "Nosso modelo pode servir para avaliar o potencial de terapias levando em conta todo o organismo, com muitas variáveis e interferências", diz ele. "Além disso, temos pela primeira vez um modelo para estudo das primeiras etapas do desenvolvimento humano, utilizando células normais ou células carregando mutações responsáveis por doenças específicas dos seres humanos, que ainda não contam com um modelo animal." Camundongos quiméricos já são usados para estudar algumas doenças neurodegenerativas, como a esclerose lateral amiotrófica. Para chegar a esses resultados, Muotri e a equipe do Salk, em colaboração com Kinichi Nakashima, do Instituto Nara de Ciência e Tecnologia, do Japão, primeiramente marcaram as células embrionárias humanas que iriam usar, adicionando em cada uma delas uma proteína fluorescente verde, que depois permitiria sua identificação. Só então as transplantaram no cérebro de quatro camundongos com apenas 14 dias de gestação, ainda no útero da mãe. Os animais sobreviveram à cirurgia e nasceram saudáveis, de parto normal.