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Diário da Saúde

Células do sangue podem servir de termômetro do câncer de mama

Publicado em 26 maio 2020

Pesquisadores franceses e brasileiros descobriram que pacientes com câncer de mama sofrem alterações em células do sistema imunológico - presentes no sangue - logo nos estágios iniciais da doença.

Essa descoberta pode contribuir tanto para identificar tumores agressivos precocemente quanto para aprimorar intervenções personalizadas em imunoterapia.

"É provável que um tipo de célula do sangue conhecido como monócito possa ser usado como 'termômetro' da doença. Pelo menos, foi o que verificamos em pacientes com câncer de mama", disse o pesquisador Rodrigo Nalio Ramos, que fez a pesquisa em conjunto com professores da USP e da Universidade Claude Bernard Lyon 1 (França).

Os monócitos são um tipo de leucócito - ou glóbulo branco - e têm a função de patrulhar o organismo e identificar potenciais ameaças, como vírus, bactérias e células tumorais. Eles são produzidos na medula óssea e, após algumas horas na circulação, seguem para outros tecidos, onde se transformam em macrófagos (as células que "ingerem" e destroem os corpos estranhos ao organismo) ou em células dentríticas (responsáveis por levar informações sobre o antígeno a ser combatido às estruturas do sistema imune responsáveis pela produção de anticorpos específicos).

Os pesquisadores coletaram monócitos do sangue de pacientes com câncer de mama e tentaram diferenciá-los, no laboratório, em macrófagos pró-inflamatórios, aqueles responsáveis por sinalizar ao sistema imune a necessidade de mandar reforços ao local do tumor - em outras palavras, células indicadoras de um bom prognóstico para o paciente.

Mas o resultado não foi o esperado.

"Esse tipo de célula é responsável, em teoria, por sinalizar para o organismo e eliminar o câncer. Porém, em cerca de 40% dos pacientes com câncer os monócitos falharam em fazer essa transformação e apresentaram um perfil muito parecido com os macrófagos intratumorais associados a um prognóstico ruim," contou Rodrigo.

Doença sistêmica

Ao analisar a expressão dos genes nos monócitos, ou seja, quais RNAs mensageiros estavam sendo produzidos por essas células, os pesquisadores identificaram a existência de várias vias de sinalização alteradas - até mesmo nas pacientes cujas células se transformaram em macrófagos de maneira semelhante à de doadores sadios.

"Isso confirma que o câncer não é apenas uma doença local, não afeta apenas a mama, mas as células de forma sistêmica. Quando a célula de defesa vai para o sangue, ela já está alterada," disse o professor José Alexandre Barbuto, um dos orientadores do estudo.

Os pesquisadores ainda não sabem explicar exatamente como o tumor interfere no sistema imunológico para "desarrumar a casa" desse jeito.

"Uma possibilidade é a secreção de fatores [proteínas com função moduladora] no sangue. Outra hipótese, mais complexa de se verificar, seria um efeito sistêmico via medula óssea. Nesse caso, a doença poderia estar afetando as células precursoras dos monócitos," disse Rodrigo.

Segundo o pesquisador, o câncer pode se desenvolver muito lentamente, durante anos. "Se conseguirmos observar esses sinais de alteração nos monócitos ainda no início do processo, quando não há sinais da doença, talvez seja possível indicar exames complementares e verificar se há algo de errado," finalizou.

Checagem com artigo científico:

Artigo: CD163+ tumor-associated macrophage accumulation in breast cancer patients reflects both local differentiation signals and systemic skewing of monocytes

Autores: Rodrigo Nalio Ramos, Céline Rodriguez, Margaux Hubert, Maude Ardin, Isabelle Treilleux, Carola H. Ries, Emilie Lavergne, Sylvie Chabaud, Amélie Colombe, Olivier Trédan, Henrique Gomes Guedes, Fábio Laginha, Wilfrid Richer, Eliane Piaggio, José Alexandre M. Barbuto, Christophe Caux, Christine Ménétrier-Caux, Nathalie Bendriss-Vermare

Publicação: Clinical &Translational Immunology

DOI: 10.1002/cti2.1108

Com informações da Agência Fapesp