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Celebridades da invenção

Publicado em 19 agosto 2008

Por Fábio de Castro

Agência Fapesp

É preciso colocar em evidência quem cria soluções relevantes para a sociedade, afirma Joshua Schuler, diretor executivo do programa Lemelson-MIT, que premia o melhor inventor do ano com US$ 500 mil e dá bolsas de US$ 10 mil a inventores do ensino médio

Mesmo quando uma invenção genial transforma a sociedade, na maioria das vezes o inventor permanece desconhecido e é pouco valorizado. A Escola de Engenharia do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, na sigla em inglês) tem uma estratégia para amenizar essa injustiça: o Prêmio Lemelson-MIT, conhecido como o “Oscar dos inventores”.

O programa da Fundação Lemelson, mantida pelo MIT, oferece anualmente US$ 500 mil para o inventor de maior destaque, US$ 100 mil para soluções sustentáveis voltadas para problemas de comunidades de países em desenvolvimento e US$ 30 mil para invenções de estudantes de graduação, além de bolsas de US$ 10 mil para grupos do ensino médio.

De acordo com Joshua Schuler, diretor executivo do Programa Lemelson, o objetivo é dar notoriedade aos grandes inventores e inspirar os jovens a seguir carreiras criativas por meio da invenção. “Há uma desproporção muito grande entre o impacto das invenções na vida das pessoas e o grau de reconhecimento recebido pelos inventores. Isso precisa ser mudado”, disse à Agência Fapesp.

Schuler veio ao Brasil a convite da Embraer para conhecer o colégio Engenheiro Juarez Wanderley, que oferece cursos pré-universitários a jovens egressos da rede pública de ensino de São José dos Campos (SP).

Para Schuler, quando um inventor ganha notoriedade, ele não é o único a ser estimulado em sua carreira. A divulgação de seu perfil leva dezenas de outras pessoas a reconhecer nelas mesmas os elementos que constituem um potencial inventor, em um efeito multiplicador.

“Os jornais gastam muita tinta com celebridades e esportistas. Enquanto isso, as pessoas que realmente podem mudar o mundo com o impacto de suas invenções ficam no ostracismo. Quando um inventor realmente aparece, além de aumentar as possibilidades de investimentos, essa visibilidade estimula muita gente com idéias criativas”, apontou.

Schuler afirma que o baixo grau de reconhecimento dado aos inventores é um problema universal. “Noto a mesma coisa no Brasil. Pouca gente sabe quem são os inventores. E o país tem uma criatividade impressionante. Gostaria de ver programas semelhantes ao nosso sendo criados por instituições daqui para dar evidência a esses talentos.”

O norte-americano vê perspectivas de parcerias do Programa Lemelson com instituições brasileiras. “Nessa visita a São José dos Campos discutimos potenciais colaborações. Imagine o que pode acontecer quando tivermos uma equipe de estudantes em Chicago, por exemplo, e outra em São Paulo trabalhando juntas em um projeto de alto impacto social. O potencial criativo é imenso”, salientou.

Conhecimento cruzado

O Programa Lemelson oferece prêmios desde 1994. Em 2002, foi criado o projeto InvenTeams, que oferece bolsas de US$ 10 mil para grupos de estudantes cujos projetos inovativos tenham sido aprovados.

Segundo Schuler, os inventores têm perfis diferentes, mas os que conseguiram melhores resultados têm algo em comum: são pessoas que dominam o conhecimento de uma área e conseguem aplicá-lo em outras. Um exemplo disso é o ganhador de 2008 do prêmio de US$ 500 mil, que é voltado para inventores em meio de carreira, Joseph DeSimone.

“DeSimone é especializado em ciência de polímeros. Sua última invenção é uma tecnologia de replicação de partículas usada para fabricar nanocarreadores com aplicação médica. O produto já é usado para dirigir moléculas específicas para o tratamento de câncer e outras doenças”, explicou.

Outro exemplo dado por Schuler mostra que dominar o processo científico de uma área, adaptá-lo e aplicar em outro setor é o coração da atividade de inventor. Em 2003, James McLurkin ganhou o prêmio de US$ 30 mil voltado para estudantes universitários de graduação e pós-graduação.

“Esse estudante de ciência da computação era fascinado por duas coisas: pelo comportamento de abelhas e por robótica. Ele percebeu que o comportamento dos insetos funciona como um software – as abelhas fazem um percurso, reconhecem, voltam para comunicar e assim por diante. James programou pequenos robôs com comportamento de abelhas. Há uma infinidade de aplicações para isso, inclusive militares”, afirmou.

Segundo Schuler, o prêmio voltado a estudantes é o mais estimulante de todos. “As pessoas nessa faixa etária têm uma criatividade incrível e já conseguem criar coisas altamente relevantes. Essa modalidade é realmente divertida”, disse.

Como exemplo de bom resultado nessa modalidade, Schuler cita o caso de Carl Dietrich, vencedor do prêmio de US$ 30 mil de 2006 com um projeto de carro voador. Atualmente trabalhando com um grupo de oito pesquisadores, Dietrich acaba de lançar um protótipo da aeronave cujas asas de 3 metros são dobráveis, permitindo a circulação também no trânsito urbano.

Martin Fisher, vencedor de 2008 do prêmio de US$ 100 mil, voltado para sustentabilidade em comunidades carentes, inventou bombas de irrigação de propulsão humana com baixo custo e de fabricação caseira. O projeto foi acompanhado por um modelo de cadeia de produção para agricultura de subsistência capaz de permitir que os camponeses africanos pudessem se tornar empreendedores auto-suficientes.

“Esse processo tem transformado a vida de milhares de africanos, que estão conseguindo dobrar ou triplicar sua renda familiar. Isso demonstra que as grandes invenções não se resumem a tecnologias avançadas. Muitas vezes uma solução focada em problemas básicos tem uma importância crucial”, disse.

Embora o programa pertença à Escola de Engenharia do MIT, Schuler destaca que as boas invenções não precisam estar ligadas necessariamente às ciências exatas.

“As grandes invenções não estão confinadas às exatas. Você pode criar, por exemplo, um método para ensino de redação altamente inovador. Em todo caso, vale o mesmo princípio: quanto maior a capacidade de articular diferentes áreas do conhecimento, maior o potencial da invenção”, disse Schuler, que é formado em ciência política.

Além de aptidão para cruzar campos do conhecimento, outras duas características típicas dos bons inventores, segundo Schuler, são a disposição para o trabalho e a capacidade de aprender com os erros.

“O trabalho duro é fundamental, mas alguns dos maiores inventores dizem que o mais importante é errar. O fracasso é sempre uma incrível oportunidade para aprender”, destacou.

(Agência Fapesp, 19/8)