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CEIC em Bauru realiza Drive-Thru do Bem para arrecadar doações neste sábado (13)

Publicado em 11 fevereiro 2021

Em 2016 foi comemorado pela primeira vez o Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência.

Essa data, criada pela Organização das Nações Unidas (ONU), tem o objetivo de encorajar mulheres e meninas a atuarem no meio científico. Setor que por muito tempo foi marcado pela presença predominante dos homens.

Nos dias atuais, segundo a UNESCO, mesmo que existam mais mulheres atuando em áreas como ciência, tecnologia, engenharia e matemática, ainda há um longo caminho para a igualdade de gênero ser atingida nesses setores.

Para ilustrar, de acordo com o relatório “Decifrar o código: educação de meninas e mulheres em ciências, tecnologia, engenharia e matemática (STEM)”, menos de 30% dos pesquisadores no mundo são mulheres.

Avante mulheres!

A situação de desigualdade de gênero na ciência dura muitos anos, por isso, é uma questão que não tem como ser resolvida do dia para a noite.

No entanto, pouco a pouco este panorama vai se alterando. Segundo a Profª. Dra. Rute Mendonça Xavier de Moura, coordenadora do curso de farmácia da FIB, somente nos últimos 20 anos houve um grande avanço da participação de mulheres no meio científico.

“As publicações científicas realizadas por mulheres cresceram de 29% para 38%. Ainda, de acordo com a Coordenação de Aperfeiçoamento Pessoal de Nível Superior (CAPES), as mulheres são a maior parte dos inscritos em pós-graduação”, explica.

Para a professora, este aumento aconteceu, pois mais espaços foram abertos para as mulheres participarem dos processos científicos nesse período. Isso porque o número de mulheres em cursos universitários cresceu, assim como o avanço da ciência e da tecnologia nestas duas últimas décadas.

A área de ciências da saúde, segundo Rute, é uma das que têm destacado a participação de mulheres, principalmente neste momento de pandemia.

“Uma das áreas de destaque é a do combate à Covid-19, na qual há uma cientista brasileira, imunologista, na linha de frente de pesquisa do Reino Unido, coordenando a equipe que testa a vacina da Universidade de Oxford. Enquanto isso, aqui no Instituto Butantan, um dos maiores centros de pesquisa e produção de imunobiológicos do país, as mulheres representam 71% do corpo científico”.

Levando Bauru para Harvard

Um grande exemplo do que a professora Rute falou é a bauruense Laísa Bonafim Negri. Laísa é farmacêutica bioquímica doutora pela Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP Ribeirão Preto.

Atualmente ela trabalha como pesquisadora no Massachusetts General Hospital, unidade de saúde filiada à Universidade de Harvard.

Laísa participa de um grupo, comandado pelo diretor do centro, Dr. Mark Poznansky, e por Dr. Jeffrey Gelfand, que está pesquisando uma nova vacina para a Covid-19.

“O nosso laboratório está estudando o desenvolvimento de uma nova vacina anti Covid-19. Basicamente é uma vacina que consiste em dois componentes essenciais. O primeiro é uma base proteica, que provoca uma ampla resposta imunológica. Enquanto o segundo são peptídeos exclusivos do coronavírus previamente identificados que provocam respostas imunes específicas”, explica.

Pesquisadora bauruense Laísa Bonafim Negri em Harvard (Foto: arquivo pessoal)

Até chegar nesse estudo tão importante, realizado em uma das melhores universidades do mundo, Laísa conta que foi necessário ter muita dedicação e persistência.

“Eu lutei, me dediquei e estudei muito. O principal foi que eu não desisti, mesmo quando tudo parecia impossível. Então a sensação de estar aqui é a da realização de um sonho. Como cientista e profissional da saúde eu me sinto lisonjeada em poder contribuir com a ciência, superar desafios e levar conhecimento para a sociedade dentro do contexto de uma doença que até então não tem tratamento e precisa de uma forma de prevenção”.

Uma das principais dificuldades encontradas por Laísa neste processo, que também é enfrentada por diversos pesquisadores, é a falta de investimento na ciência em nosso país.

Segundo ela, no Brasil é difícil seguir na área por conta da “falta de verbas, credibilidade, reconhecimento profissional e social, suporte e perspectivas de futuro para os jovens doutores”.

Reconhecimento em pauta

Quem concorda com Laísa é a Profª. Dra. Ana Carolina Magalhães da Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB-USP) que diz que “a obtenção de fomento ainda é um grande entrave em nosso país pela falta de investimento e pela burocracia”.

Apesar desse desafio, em seus 12 anos de carreira, a professora já realizou diversas pesquisas com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Com uma linha de pesquisa sobre cariologia (estudo da cárie dentária) e outras lesões que acometem a estrutura dos dentes, a pesquisadora foi reconhecida como uma das 100 mil cientistas mais influentes do mundo em 2019, de acordo com um estudo da Universidade de Stanford (EUA).

Profª Dra Ana Carolina Magalhães da Faculdade de Odontologia de Bauru (Foto: arquivo pessoal)

Ascensão de mulheres na carreira acadêmica

Junto com Ana Carolina, nesta lista, está a Profª. Dra. Marília Afonso Rabelo Buzalaf, que foi sua orientadora e agora é colega de trabalho na FOB-USP.

Marília, que salienta a importância deste reconhecimento, revela que hoje no laboratório da FOB, 90% dos pós-graduados são mulheres, mas que ainda faltam figuras femininas em cargos de gestão.

“Isto também está começando a crescer, mas sem dúvida a maternidade é um fator que dificulta a ascensão das mulheres na carreira acadêmica. No entanto, com um bom jogo de cintura é possível conciliar tudo. Eu, por exemplo, tive trigêmeos, que hoje estão com 22 anos. Eles nasceram no último ano do meu doutorado. A ajuda da família foi fundamental para que eu passasse por este momento sem interromper a carreira”, revela.

Além de ter a linha de estudo da cariologia, Marília se orgulha de ter sido uma das bauruenses que contribuíram para o entendimento da Covid-19, visto que seu marido foi o primeiro diagnosticado com a doença em Bauru.

“Neste período, li muitos artigos sobre a doença e planejamos uma pesquisa em conjunto com o Hospital Estadual de Bauru. Achamos algumas proteínas que, uma vez validadas, poderão ajudar a predizer se os pacientes poderão evoluir bem ou mal na internação”, elucida.

Profª. Dra. Marília Afonso Rabelo Buzalaf (Foto: G1 Bauru e Marília)

Ciência desde a infância

Entrando em consenso, as pesquisadoras entrevistadas reforçam que uma das principais medidas para fomentar a maior participação das mulheres na ciência é incentivá-las desde cedo. Isso porque, na maioria das vezes, é durante a infância que surge o interesse pela ciência.

A doutoranda Gleici Kelly de Lima, que faz parte do programa de Educação para a Ciência da Unesp, tem justamente esse propósito em sua atuação.

“Na pesquisa do mestrado, analisei os discursos entre crianças da Educação Infantil e professores monitores no Observatório Astronômico com base na teoria psicanalítica. Busquei entender como acontecia essa relação e de que maneira isso envolvia o processo de inserção da criança na ciência, e o que elas demandavam dos monitores. Hoje a pesquisa continua no campo da linguagem, porém, o foco agora é encontrar as crianças que existem dentro dos adultos, por meio da rememoração da infância em entrevista com astrônomas e astrônomos. Com isso, busco entender o quanto a criatividade, curiosidade dos pesquisadores foram (ou não) influenciadas por ações lúdicas, brincadeiras e histórias”, explica.

Além dessa linha de pesquisa, Gleici já fez parte de diversas ações pautadas na temática de mulheres na ciência. Tanto em Videira, sua cidade natal, quanto em Bauru, ela participou do desenvolvimento de exposições mostrando o trabalho de mulheres na Astronomia e Astronáutica e sessões de cinema que trouxessem figuras femininas como protagonistas.

Atualmente, trabalhando junto com colegas no comitê de divulgação da União Astronômica Internacional (IAU), Gleici está desenvolvendo um questionário para começar a levantar dados sobre projetos nacionais que auxiliam na inserção de meninas e mulheres na ciência.

Que cada vez mais meninas se tornem cientistas!

Para Gleici, que desenvolveu seu interesse pela área científica quando adolescente, essa inserção das meninas é importante para que elas se sintam parte desse espaço.

“Que garotas e garotos possam brincar de serem cientistas, de criarem coisas, de catalogarem os insetos, que possam ser astronautas, biólogos, astrônomos, físicos, químicos. Que nossas crianças possam sonhar e realizar aquilo que elas gostam de fazer. A ciência se constrói com pessoas que pensam, que se interrogam acerca do mundo e não pelo gênero, que não muda em nada a inteligência da pessoa. O dia que não existir mais essa diferença e que passemos a comprar kits de química, telescópios ou béqueres de brinquedo para todas as crianças, talvez possamos falar sobre a história das ciências sem esquecer daquelas mulheres que sequer são mencionadas nos livros” , diz.

Dessa forma, a pesquisadora sugere que temos que falar mais sobre cientistas que fizeram a diferença, como Marie Curie, por exemplo, em vez de apenas falarmos sobre Einstein. Segundo ela, esta atitude, que parece tão simples, faz com que as pequenas futuras cientistas tenham figuras para se espelhar e admirar.

Como prova da influência que a representação de figuras femininas traz, Laísa Bonafim afirma que um grande incentivo para sua carreira como cientista foi justamente se inspirar em mulheres fortes que fazem parte dessa área.

Assim, meu desejo ao escrever esta matéria é que as garotas bauruenses que estejam lendo esse texto e desejam ser cientistas, consigam se inspirar nas mulheres retratadas e busquem realizar seus sonhos.