Notícia

Gazeta Mercantil

Cegos na escuridão da floresta

Publicado em 22 julho 1997

Por Washington Novaes
Edward Wilson é um cientista eminente, um sábio mesmo, respeitadíssimo no campo da biologia evolucionista. E um escritor extraordinário, ganhador de dois prêmios Pulitzer com "The Ants" e "On human nature". Outro de seus livros, traduzido no Brasil - Diversidade da vida -, é um monumento à informação. E um tributo à vida. Logo no primeiro capítulo desse livro, Wilson descreve a noite na floresta amazônica batida por uma tempestade de água e de raios. "A floresta à noite -escreve ele - é uma experiência de privação sensorial a maior parte do tempo (...) Toda a selva fervilha, mas de uma maneira que está, basicamente, além do alcance dos sentidos humanos. Noventa e nove por cento dos animais se orientam pelas trilhas químicas deixadas sobre a superfície, lufadas de cheiro lançadas no ar ou na água e odores espargidos por glândulas ocultas e lançados contra o vento. Os animais são mestres desse canal químico, ao passo que nós somos idiotas (...). Ali nas proximidades eu sabia que morcegos-de-ferradura estavam voando em meio à coroa das árvores em busca de frutos, víboras arborícolas enrolavam-se nas raízes de orquídeas prontas para dar o bote, jaguares caminhavam pelas margens dos rios. Em torno deles, oitocentos espécies de árvore, mais que todas as nativas da América do Norte, e mil espécies de borboleta, 6% de toda a fauna do mundo, aguardavam o amanhecer. A respeito das orquídeas sabíamos pouco. Sobre as moscas e os besouros, praticamente nada. Acerca dos fungos, nada. Nada a respeito da maior parte dos organismos. Cinco mil tipo de bactéria podiam ser encontrados numa piada de solo, e a respeito delas não sabíamos absolutamente nada. O mesmo estado selvagem do século 16, o mesmo mundo bravio e agreste que deve ter inflamado a mente dos exploradores portugueses". O livro é de 1992. E é esse o centro da questão amazônica. Não sabemos quase nada dessa "pátria da água" — como a chamou o poeta Thiago de Mello. Por ali passa quase 10% da água doce que flui pelo mundo e que já está sendo disputada pela força das armas e das leis no planeta todo, a ponto de a Unesco prever que será esse o centro da maior crise do século 21. Mas estamos planejando e implantando hidrovias de alta densidade de carga, sem saber que conseqüências ambientais, sociais e econômicas podem advir dessa exportação intensa daquilo que o Primeiro Mundo não quer produzir, pelo custo ambiental e pelo balanço energético negativo. Nos seus milhões de quilômetros quadrados afirma-se estar um terço da biodiversidade vegetal e animal do planeta - e é daí que virão os futuros medicamentos, os novos materiais, novos alimentos. Mas também não sabemos quase nada dessa riqueza, embora Thomas Lovejoy, da Smithsonian Institution, nos lembre que o valor dos produtos que a indústria química e a farmacêutica obtêm a partir dos vegetais e microorganismos dos trópicos chega a US$ 200 bilhões por ano. Estamos deixando até que se extinga o bioma do cerrado, tão importante quanto o amazônico e ainda essencial para manter a biodiversidade do seu vizinho do Norte. Só o potencial madeireiro do Estado do Amazonas foi avaliado' pelo economista Eduardo Bonfim (Gazeta Mercantil, 14/4/96) entre VS$ 225 bilhões e US$ 315 bilhões — mas, segundo a Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, 80% da madeira extraída na região tem origem ilegal e ainda se desperdiçam 60 a 70% do que é extraído. Mais grave ainda, a extração de madeira só responde por 10% da devastação florestal; os outros 90% cabem ao avanço da fronteira agrícola (que continua a ser estimulado por políticas oficiais). Com certeza estamos comprometendo em algum nível a possibilidade que Ignacy Sachs chama de uma "civilização da biomassa": entre 1991 e 1994, o avanço do desmatamento foi superior a 30% da média que prevalecia até ali (uns 11 mil km2/ano), obrigando o governo federal a aumentar a área de reserva legal em cada propriedade para 80% e a rever as autorizações para extrair mogno e virola. Continuamos a guerrear os índios, sem nos lembrarmos de que é nas suas extensas áreas preservadas que se mantém a biodiversidade única na Terra - pois para preservá-la é preciso manter intactas extensas e complexas cadeias reprodutivas e alimentares. E como não há políticas de correção de desequilíbrios regionais capazes de evitar ou limitar a migração destrambelhada, incham-se as periferias das cidades amazônicas e espalham-se os garimpos, os sem-terra, as epidemias e muito mais. Mas nem tudo é desesperança. Começam a implantar-se, no Ministério do Meio Ambiente, programas de preservação e conhecimento da biodiversidade. Articula-se o programa dos corredores ecológicos - cinco na Amazônia, dois na mata atlântica, pena que não se lembrem do cerrado-, longas extensões de subsistemas confinantes (reservas biológicas, áreas indígenas, santuários ecológicos, etc.), capazes de preservar na sua integridade as cadeias da biodiversidade. Já há dinheiro para começar, pelo menos. Se conseguirmos implantar todos, serão quase 700 mil quilômetros preservados (fora os da mata atlântica). Há uma Agenda 21 da Amazônia em discussão, coordenada pelo secretário José Seixas Lourenço, com a participação de especialistas em algumas áreas (inclusive Ignacy Sachs), governos estaduais, empresários, cientistas, universidades e representantes de setores sociais. Até mesmo representantes de governos de outros países amazônicos. O Sivam poderá ajudar no conhecimento e na fiscalização da área! E a nova Política Nacional de Recursos Hídricos, se conseguir sair do papel, poderá trazer contribuições importantes. Mas é decisivo que se conclua o diagnóstico econômico-ecológico da área, que se arrasta há anos, para que se possa saber - e regulamentar - o que é possível fazer em cada espaço e o que não se deve e não se permitirá fazer. Mas sem cair em generalizações, grandes escalas, que mais ocultam que desvendam a realidade. Cada subsistema tem suas peculiaridades, minúcias que podem ser decisivas. Maior que qualquer outro, na Amazônia, é o drama da informação. Embora tenhamos os olhos e ouvidos e trabalhamos durante as iluminadas pelo Sol, comportamo-nos ainda como se estivéssemos na floresta escura, desequipados para ver e entender o que se passa à nossa volta. E agindo como estabanados.