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Brasil Econômico

Cearense Inace fornece barco de pesquisa à USP

Publicado em 15 agosto 2011

Por Martha San Juan França

Quando o professor Rolf Weber decidiu procurar um estaleiro nacional, para fazer o novo barco de pesquisa do Instituto Oceanográfico da USP, enfrentou um problema. As empresas dedicadas à construção naval não queriam se arriscar a entrar em um empreendimento que escapava da rotina, voltada para iates de luxo ou embarcações offshore para a indústria de petróleo. Entre o desinteresse, as propostas equivocadas e o preço desproporcional à encomenda, Weber recebeu uma resposta do estaleiro Indústria Naval do Ceará (Inace) que correspondia às suas necessidades.

Foi assim que o Inace começou a construir a embarcação de 25 metros, ainda sem nome, que resolverá o problema do instituto. "O barco poderá operar na faixa de 200 milhas marítimas da costa brasileira", disse Weber. "Com essa capacidade, será possível estudar toda a plataforma continental de São Paulo, incluindo a área do pré-sal."

O projeto de R$ 4 milhões do Inace será custeado em sua maior parte pela Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), e, com exceção dos equipamentos eletrônicos, o resto, como guinchos e reversores, será totalmente fabricado no país. Para o Inace, no entanto, não foi o valor que motivou a aceitação do desafio, mas a abertura do mercado.

Pioneiros

"Temos R$ 100 milhões de encomendas de 20 barcos de 50 a 60 metros de alumínio", diz o presidente da Inace, Gil Bezerra. "Mas decidimos investir para sermos pioneiros nesse projeto que pode abrir as portas para outros." Ele diz que poderia fazer até a embarcação maior, como o Alpha Crucis, de 64 metros, comprado no exterior para substituir o Professor Besnard.

Para o engenheiro naval Arthur Doering, gerente de contratos da Inace, o mercado de barcos de pesquisa pode e deve ser ampliado. Além da USP, outras universidades no Rio Grande do Sul, Pernambuco e Ceará, têm necessidade de embarcações para atender seus alunos. O Inace também recebeu contratos de quatro barcos da Marinha para pesquisas na Bacia Amazônica.

"O Brasil parece ter percebido a necessidade de investir no conhecimento dos seus recursos naturais que tende a crescer com o pré-sal", afirma. "Quanto mais o Inace participar desse mercado, mais se qualificará para outras construções."

Não foi a primeira vez que o estaleiro aceitou um desafio visando o futuro. Criado há quase meio século para atender o mercado de barcos de pesca de madeira em Fortaleza, o Inace expandiu suas instalações na década de 1980, beneficiando-se do Segundo Plano de Construção Naval, que apostava no desempenho da indústria náutica.

Com as dificuldades do setor pesqueiro, na década seguinte, seu proprietário começou a enxergar o mercado de iates de alto luxo para milionários americanos e europeus. Seguiram-se encomendas para uma gama diversificada de embarcações de pequeno e médio porte, incluindo rebocadores, barcos de apoio à exploração de petróleo, embarcações de combate à poluição, empurradores e balsas.

O estaleiro foi o único privado a construir navios de patrulhamento do litoral para a Marinha. A experiência possibilitou que o Inace ainda ganhasse a encomenda da Marinha da Namíbia de um navio semelhante, de 46,5 metros de comprimento, armado com canhões e metralhadoras, e empregado na vigilância e defesa da costa africana contra a pirataria. A encomenda no valor de US$ 24 milhões, prevê o fornecimento de mais quatro lanchas-patrulha. ¦

Empresário é conhecido pelas iniciativas pioneiras

Um empresário vitorioso em uma área de difícil sobrevivência e altamente controvertido. É essa a fama de Gil Bezerra, o fundador do estaleiro Inace, pioneiro na área dos iates de luxo e hoje dono do maior estaleiro do seu porte no hemisfério sul, com 1.400 funcionários e contratos da ordem de US$ 100 milhões por ano para navios de até 5 mil toneladas.

Quando a indústria da pesca estava no auge, Bezerra construiu o estaleiro em Fortaleza, capaz de fabricar dezenas de embarcações ao mesmo tempo. Ao perceber que os ventos sopravam em outra direção, passou a construir iates de luxo, que chegam a custar mais de US$ 5 milhões. "É um mercado de grande oportunidade, onde estão as pessoas de destaque no mundo", justifica o proprietário da Inace.

Bezerra construiu mais de quarenta iates, conquistando clientes no Brasil, Estados Unidos, Canadá e Itália e sendo disputado pelo interior luxuoso de suas embarcações. Ao mesmo tempo, cresceram os contratos de navios de suporte offshore, outro segmento que começou a ganhar destaque no país. Aproveitando o sucesso de seus empreendimento, Bezerra construiu uma marina e um hotel de luxo e centro de convenções para dar suporte aos negócios do estaleiro.

Depois de conseguir contratos com a Marinha, Bezerra foi acusado de fazer parte de um esquema de importação ilegal de artigos subfaturados com a participação de um almirante ao qual teria presenteado com um iate. "Fui envolvido por inveja porque precisava fomentar o mercado de iates de pequeno porte e resolvi fazer uma embarcação para substituir a do almirante, que era comodoro do Iate Clube do Rio", defende-se.

Hoje, Bezerra diz que o mercado de iates está em queda e já pensa em outros horizontes. "As encomendas de até dois anos atrás foram feitas com o dólar em outro patamar e atualmente a crise tem afastado os clientes americanos e europeus", diz. Ele conta ainda com as encomendas esperadas para o pré-sal, enquanto pensa na construção de barcos ainda maiores. "Nós temos know-how e tecnologia, mas não dá para começar com verba própria", diz. E dá um recado: "Será preciso nos associarmos a um grupo grande que possa financiar a infraes-trutura necessária para entrar nesse mercado".

A única coisa que não está nos planos do empresário de 71 anos é a retirada do negócio ou a venda do estaleiro. Ele admite que já recebeu alguns convites para aquisição, mas afirma que não foram suficientes para tentá-lo. Por enquanto, o Inace deve continuar nas mãos dos três filhos, que já estão participando do empreendimento. ¦ M.F.