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Ceará aposta em pesquisas e contrata cientistas para atuar no governo

Publicado em 16 julho 2019

Por Thais Reis Oliveira

Cabe a esses acadêmicos descobrir problemas, montar equipes e apresentar soluções para melhorar os serviços públicos

“Pode parecer meio pedante, mas eu sou o cientista-chefe da Educação”, diz o matemático Jorge Lira, detentor de dois pós-doutorados e ganhador de prêmio internacional. Há cerca de um ano, ele divide o dia a dia entre a Universidade Federal do Ceará e as demandas da Secretaria de Educação do estado. E, apesar da modéstia, carrega uma missão grandiosa: usar big data, inteligência artificial e ciência para transformar o ensino de matemática nas escolas públicas da região.

Na contramão da melancolia econômica, da crise fiscal dos estados e do obscurantismo dos novos donos do poder em Brasília, o Ceará vem aumentando o investimento em pesquisa e tecnologia. O exemplo mais frutífero é o programa Cientista Chefe, que há dois anos traz os melhores pesquisadores do estado para dentro dos gabinetes da gestão pública estadual. Seis foram contempladas até agora: Segurança Pública, Recursos Hídricos, Saúde, Infraestrutura, Agricultura, Pesca e Aquicultura, além da Educação.

Lira coordena um time de 50 pessoas, entre estatísticos, físicos, educadores e programadores dedicados a ajudar o estado a recompor os mecanismos das avaliações de desempenho educacional. Esses profissionais trabalham em quatro grandes frentes: minerar dados, formar professores, redigir materiais didáticos e digitalizar todo o processo. Munidos dessas informações, os cientistas descobriram, por exemplo, que entre alunos do quinto e do sexto ano prevalece uma dificuldade de calcular frações. E que, nas mesmas regiões que pontuavam mal nas avaliações tradicionais de desempenho, como as do Programa Internacional de Avaliação Básica (Pisa) e do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), choviam menções honrosas na Olimpíada de Matemática das Escolas Públicas. “A criança”, diz Lira, “não reconhece na escola aquela matemática prazerosa e divertida que ele vê na Olimpíada.”

Segundo os critérios do Pisa, apenas 4% dos estudantes brasileiros sabem o mínimo para seguir carreira no ramo das ciências exatas. As dificuldades com a matemática, afirma Lira, passam principalmente pela maneira como o conteúdo didático é repassado aos alunos em sala de aula. “O livro-texto é medíocre e apresenta a matemática de forma que nada tem a ver com a pesquisa e com as suas aplicações.” Como o professor da matéria não é um matemático, mas tampouco é estritamente pedagogo, esses livros se tornam a pedra angular do ensino nas salas de aula. “Já que o professor está desaparelhado, o que a gente faz é tentar interferir na prática dele em serviço.”

Recentemente, a equipe de Lira colocou em prática uma experiência até então inédita no estado: definir as competências de um professor de matemática do Ensino Médio. Implementou-se, então, um teste que não objetivava mensurar se o professor sabia matemática – mas se conseguia reagir a situações comuns em sala de aula, como tirar dúvidas, reforçar o conteúdo e corrigir provas. “A maioria não foi bem”, avalia. “A gente olha muito para a base dos alunos, mas é necessário ter uma ação urgente em relação aos professores.”

Está em fase inicial uma solução para o problema. Na cidade de Sobral, foi oferecida aos professores da rede municipal uma pós-graduação, com métodos e conteúdos montados especialmente para aplicação na sala de aula. A iniciativa chefiada pelo matemático agora caminha para se transformar em um plano de gestão dentro da Secretaria da Educação. O grande objetivo para o próximo ano é transformar as avaliações gerais em testes personalizados. No futuro, cada prova devolverá aos professores e técnicos da Educação um histórico detalhado do desempenho acadêmico de cada estudante. “Assim, conseguimos aplicar o remédio certo para cada doença.”

Para que serve a tecnologia em um estado que tem tantas questões óbvias e urgentes para resolver? Muitos políticos e uma parcela da população sustentam que os grandes problemas nada têm a ver com ciência. “Mas alguns problemas têm a ver, sim, e nos interessa atuar neles”, rebate Tarcísio Pequeno, presidente da Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Funcap), a grande fiadora do programa. “Não podemos dormir quietos, se há uma comunidade científica local capaz de ajudar nas soluções.”

O programa também deu um novo sentido às atividades da Funcap. Como as várias outras agências públicas de incentivo à pesquisa, a entidade fundada em 1990 tentava manter as contas em dia sob um orçamento minguado e o pouco interesse da sociedade e do governo. Mesmo antes da ascensão do governo Bolsonaro, virou lugar-comum a crítica às universidades públicas. “Lá não se produz nada de útil”, arremeda Pequeno. “Um bando de desocupados que deu as costas à sociedade e só faz o que gosta.”

Para ele, o desejo de aliar a produção científica acadêmica com as necessidades das empresas e do setor público sempre existiu. O que faltavam eram mecanismos inteligentes que trouxessem uma parceria ganha-ganha. Há três anos, uma iniciativa parecida chegou a ser aventada pelo governo de São Paulo, mas acabou não indo adiante.

Manter o professor na universidade foi essencial para que o projeto prosperasse. “É como faz o Google quando quer uma equipe, monta o instituto de pesquisa ao lado da universidade e contrata todo mundo, mas exige que o cara continue na academia”, compara Pequeno. Em paralelo ao cargo na universidade, o cientista-chefe recebe uma bolsa de 8 mil reais pelo trabalho extra, pagos em parte pela Funcap. E pode trazer para o projeto seus colaboradores, orientandos, recém-doutores. Para o estado, a vantagem é atrair para a sua esfera inovação de ponta gastando muito menos do que custariam consultorias badaladas e softwares projetados por grandes empresas. E ao pesquisador, a chance de aproximar suas pesquisas da sociedade e aumentar o alcance e a relevância do próprio trabalho.

Depois de costurar um acordo com o Tribunal de Contas do Estado, o governador Camilo Santana (PT) sugeriu garantir à Funcap um aumento gradativo no orçamento para que, em 2027, o repasse finalmente alcance os 2% garantidos pela Constituição estadual. Entre 2015 e 2018, o orçamento mais que duplicou – saltou de 33,7 milhões de reais para 87 milhões. Para este ano, a verba prevista é de 109 milhões. Ainda é pouco, menos de 10% do orçamento da prima rica paulista, a Fapesp (1,5 bilhão em 2019), mas trata-se de um passo importantíssimo em direção à excelência em pesquisa científica na região. O investimento estadual na Funcap tem compensado os cortes nas federais Capes e CNPq.

Há dez anos, o Ceará não tinha nenhum curso de pós-graduação e apenas uma universidade federal. Agora tem oito: três federais e cinco estaduais. São 182 cursos de pós-graduação, mestrado e doutorado stricto sensu, além do mestrado profissional, em todas as áreas do conhecimento definidas pela Capes, sendo 12 programas de doutorado com notas 6 e 7. A longo prazo, a missão é impedir que o talento científico se perca. “Nosso maior recurso natural são os cérebros”, diz Pequeno. “A universidade fez um investimento enorme nesses cientistas. Formou, pagou salários, deu condições de trabalho. Nós estamos colhendo o pessoal pronto, é praticamente um assalto”, brinca. Agora, diz ele, há planos de exportar o modelo para outros estados e incluir a iniciativa privada. Já houve conversas com o Insper, prestigiada universidade paulista, e com o governo de Alagoas.

Todos os núcleos do programa Cientista Chefe estão vinculados a outro grande projeto dentro do Instituto de Pesquisa e Estratégia Econômica do Ceará (Ipece). No futuro, o Centro de Análise de Dados e avaliação de Políticas Públicas (apelidado de ‘Big Data do Ceará’) deve integrar informações de todas as secretarias da administração estadual. O primeiro conjunto de dados compreende as notas fiscais emitidas no estado nos últimos nove anos. A análise desses mais de 5 bilhões de documentos permitiu detalhar, por exemplo, os fluxos de compra e venda entre setores econômicos e a oscilação no preço de itens básicos. Também deu origem ao mapa econômico das rodovias: a partir do volume de transações entre uma cidade e outra, é possível descobrir em qual estrada vale mais a pena investir. Se a estatística é útil para montar o plano de voo, os dados abrem caminho para que as eventuais correções de rota ocorram em tempo real.

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