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Castanhais podem ter sido semeados por populações nativas no passado e novos plantios garantirão futuro da espécie

Publicado em 24 fevereiro 2016

Estudos desenvolvidos por pesquisadores brasileiros trazem importantes informações acerca da contribuição humana para a formação da vegetação da região amazônica, em especial no surgimento dos castanhais. Este tema tem sido debatido por especialistas que questionam como essa espécie se espalhou por toda a região amazônica, já que o fruto que contém a semente é duro e de difícil dispersão e em alguns locais da Amazônia existe um grande número de árvores concentradas. Como parte destes castanhais tem hoje mais de 500 anos, se comprovada a teoria, existirá a necessidade de se pensar que, somente a ação de agentes naturais não garantirá a renovação da espécie para o futuro.

Uma das explicações mais antigas para o nascimento das castanheiras dizia que roedores e aves eram responsáveis pelo transporte das sementes por toda a região.  Porém na reportagem da publicação Pesquisa FAPESP n. 198, de 2012, os pesquisadores Ricardo Scoles, da Universidade Federal do Oeste do Pará, e Rogério Gribel, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), informam que grande parte das árvores da castanha-do-Brasil teriam sido cultivadas e mantidas por indígenas antes da ocupação europeia no continente.

Outros pesquisadores como Glenn Shepard Jr., do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), e Henri Ramirez, da Universidade Federal de Rondônia (UFRO) acreditam que no período do surgimento da agricultura familiar entre determinados grupos indígenas, houve também o consumo da castanha. De acordo com Ricardo Scoles, pode-se pensar em duas linhas de pesquisa: a que correlaciona dados de distribuição geográfica da castanheira com a presença de sítios arqueológicos e a chamada “terra preta de índio”, que são  indícios de agricultura realizada por esses povos em tempos passados, onde pode-se demonstrar que, onde havia ocupação também havia a formação de castanhais. A segunda trata de estudos genéticos das variedades da espécie, que permitam determinar de forma mais precisa como e quando se deu o espalhamento da árvore no território amazônico.

E o futuro?

Todos os esforços para compreender a intervenção do homem na formação da vegetação amazônica culminam na compreensão do futuro de algumas espécies, pois, se confirmada a participação dos povos nativos no plantio dos exemplares de castanhas existentes hoje no Brasil, faz se necessário pensar no futuro dos castanhais para os próximos 500 anos, período de vida que geralmente a árvore alcança.

Paulo Nunes, coordenador do Projeto Sentinelas da Floresta, que é patrocinado pelo Fundo Amazônia, se dedica ao manejo da Castanha em Mato Grosso e faz uma observação acerca do tema: "Se os resultados desta pesquisa sobre a regeneração natural da castanheira forem confirmados, realmente estamos caminhando para a extinção da espécie, pois os plantios atuais promovidos pelos seres humanos são muito raros e em pequenas áreas, e se a natureza não consegue regenerar a espécie por si só, o que iremos fazer, vai ser assistir ao envelhecimento e a morte dos últimos castanhais plantados, há 500 anos pelos indígenas".

Questionado sobre a atuação do Projeto Sentinelas das Florestas, que envolve os Povos indígenas Munduruku, Apiaká, Caiaby e Cinta Larga, na prevenção do desaparecimento desta espécie, Nunes explica que o manejo exigido pela certificação orgânica dos castanhais das terras Apiacá-Caiaby e Cinta larga, bem como do Vale do Amanhecer, por exemplo, exige que os extrativistas adotem a prática de deixar pelo menos 20 % dos frutos de cada safra no chão, para manutenção da fauna e da regeneração natural da castanheira. Além disso, segundo ele, pela cultura tradicional dos indígenas envolvidos no Projeto, a castanheira já é uma das espécies cultivadas nas roças destes povos indígenas.

Mesmo cumprindo tais exigências e os povos indígenas mantendo a relação de cultivo que já vem realizando, ainda são necessários esforços de plantios de novos castanhais para conservar esta espécie na floresta amazônica. Plantios realizados em Rondônia, Mato Grosso e Pará, com idades superiores a 40 anos, mostraram que esta espécie é uma das nativas que possui mais rápido incremento em altura e biomassa e que ela continua crescendo mesmo após 40 anos do plantio.

A produção de frutos pode se iniciar aos sete anos de idade da planta, mas o plantio precisa estar próximo a uma área de floresta para que as espécies de mamangavas, únicos agentes polinizadores da castanheira, possam sobreviver e garantir uma produção de frutos satisfatória. Castanheiras isoladas e distantes de áreas de floresta produzem pouco e geralmente morrem em poucos anos, por ação do vento e de raios que podem atingi-las.