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Jornal GGN

Casos assintomáticos de Alzheimer podem mudar rumos de pesquisas

Publicado em 23 janeiro 2014

Jornal GGN – Quatro casos de doentes assintomáticos de Alzheimer, cujas doenças foram confirmadas apenas após a morte das pacientes, estão gerando discussões e até abrindo caminhos par novas abordagens sobre o estudo da doença. O termo faz referência a situações em que, apesar de todos os fatores no cérebro apontarem a presença da demência, os pacientes permaneceram lúcidos até o fim da vida. Foi o caso de quatro senhoras com idades entre 80 e 82 anos que morreram recentemente em São Paulo.

 

Doados ao banco de encéfalos da Universidade de São Paulo (USP), amostras dos cérebros das quatro idosas foram analisadas ao microscópio e revelaram o amontoado de placas e emaranhados de proteínas que são a marca típica dos estágios avançados do Alzheimer. Mas, ao contrário do que se poderia esperar, as senhoras não passaram pelos típicos problemas de pacientes com o mal: última década de vida com sérios problemas de perda de memória e de cognição, como dificuldade de se expressar e de perceber o espaço a sua volta.

 

Familiares de todas as pacientes garantem que elas viveram lúcidas até o fim. O caso reabriu antigas posições e teorias sobre a demência, ao mesmo tempo em que abre novas possibilidade de abordagens e tratamento. De acordo com os pesquisadores, a demência senil pode ter várias causas, como problemas vasculares e até doenças degenerativas.

 

Por conta disso, o diagnóstico definitivo do Alzheimer só é confirmado geralmente após a morte. Quando a doença está presente, a autópsia do tecido cerebral mostra um excesso das chamadas placas neuríticas, ancoradas em ramificações dos neurônios, e dos emaranhados neurofibrilares, no interior dos neurônios atrofiados – geralmente encontrados no hipocampo e no córtex cerebral.

 

Até alguns anos atrás, boa parte da comunidade científica internacional acreditava que as placas neuríticas eram as responsáveis pelas disfunções sinápticas. Mas estudos recentes feitos pela equipe da neurocientista Fernanda De Felice e do bioquímico Sergio Teixeira Ferreira, ambos da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), demonstraram que as placas, apesar de tóxicas, não são a causa principal da eliminação das sinapses e da morte dos neurônios.

 

As placas são formadas pelo acúmulo de pequenas moléculas de beta-amiloide, que normalmente são produzidas pelo cérebro, mas a proteína sofre deformações no Alzheimer. Mas parte da comunidade científica, atualmente, acredita que que são amontoados bem menores de beta-amiloide – os oligômeros, capazes de se difundir para dentro e para fora dos neurônios – os responsáveis por interferir nas sinapses.

 

Também há pesquisas que apontam que tais oligômeros formam, ainda, os emaranhados neurofibrilares, que impedem o transporte de substâncias dentro dos neurônios e contribuem para a sua morte. Assim, a formação das placas seria, na verdade, um mecanismo de defesa do organismo, que tenta expulsar os oligômeros das células e longe das sinapses.

 

A descoberta de novos doentes de Alzheimer que não apresentaram os sintomas, como as quatro senhoras de São Paulo, reforçam a hipótese. Já houve casos similares catalogados nos Estados Unidos, quando centenas de idosos foram acompanhados. O resultado foi que de 25% a 40% dos casos diagnosticados histologicamente como sendo Alzheimer não haviam desenvolvido demência.

 

“Ninguém entende exatamente por que essas pessoas não desenvolveram demência”, admite o neuroanatomista Carlos Humberto Andrade-Moraes, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A pesquisa do cientista é a primeira no mundo a analisar o número total de células do cérebro de idosos conhecidos como doentes de Alzheimer assintomáticos. O estudo concluiu que o número de neurônios dos assintomáticos é praticamente igual ao de idosos saudáveis, diferentemente do que se vê no cérebro de pessoas com Alzheimer que desenvolvem demência, a perda de memória e da capacidade cognitiva.

 

Com informações da Revista Pesquisa Fapesp.