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Casa em troca de comida

Publicado em 05 fevereiro 2007

Por Thiago Romero, Agência FAPESP

(Agência Fapesp, 5/2)

Estudo feito no interior paulista e publicado na "Ecology" mostra que, ao se hospedarem em folhas de bromélias, as aranhas fornecem, por meio de suas fezes, nutrientes responsáveis pelo crescimento da planta

Muitas pessoas devem ter visto a cena em jardins: as folhas das bromélias formam uma arquitetura ideal para fornecer um hábitat para as aranhas, que as utilizam como abrigo contra predadores ou condições climáticas severas. Mas o que até agora não se conhecia eram os benefícios que a planta recebia em troca.
Em sua tese de doutorado, o biólogo Gustavo Quevedo Romero concluiu que as aranhas da família Salticidae fornecem por meio das fezes nutrientes para as bromélias.
O estudo do professor do Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas (Ibilce) da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em São José do Rio Preto (SP), que teve seus resultados publicados na "Ecology", revista da Sociedade Ecológica dos EUA, indica que as fezes dos aracnídeos são ricas em guanina, uma base nitrogenada orgânica, e que o acúmulo desse material nas folhas fornece à planta nitrogênio, nutriente primário dos vegetais.
O trabalho Associação entre aranhas Salticidae e Bromeliacea: história natural, distribuição espacial e mutualismo, defendido no Programa de Pós-Graduação em Ecologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), com orientação do professor João Vasconcellos-Neto, ganhou o Prêmio Capes de Tese em Ecologia em 2006.
"Desconfiava-se que alguns animais eram capazes de fornecer nutrientes às bromélias. Mas não se sabia quais eram esses nutrientes ou se esse enriquecimento natural de fato ocorria", disse o pesquisador à Agência Fapesp.
Em linhas gerais, o estudo teve como base a quantificação do nitrogênio-15 presente nas plantas.
"Os isótopos de nitrogênio-15, formados por átomos de nitrogênio que possuem um nêutron a mais em seu núcleo, são excelentes marcadores de análise do fluxo do elemento químico das fezes da aranha para as bromélias", explica Romero.
As aranhas foram alimentadas com moscas Drosophila melanogaster enriquecidas com isótopos de nitrogênio-15. O objetivo foi enriquecer as fezes dos artrópodes para aplicá-las nas plantas.
Em seguida, plantas que receberam fezes foram comparadas com plantas controle que não receberam.
"Depois de 48 dias, as folhas das bromélias foram coletadas e processadas até virar pó. Com auxílio de um espectrômetro de massas de razão isotópica, verificamos que as aranhas foram responsáveis por 15% do nitrogênio presente nas bromélias que receberam fezes enriquecidas", aponta.
As espécies de aranha e bromélia analisadas durante o estudo foram a Psecas chapoda e a Bromelia balansae, respectivamente.

Relação estreita
A segunda etapa da pesquisa, realizada em campo, incluiu a observação do crescimento das plantas com e sem aranhas durante um ano. Ao final do período, as plantas com aranhas cresceram 15% a mais.
"Nesse caso, bastou medir o comprimento foliar das plantas dos dois tratamentos para verificar as diferenças. Apesar de as porcentagens dos dois experimentos serem exatamente iguais, ainda não sabemos se existe uma relação entre esses números", conta.
Durante o trabalho, financiado com recursos da Fapesp na modalidade Auxílio a Pesquisa, Romero constatou que nove espécies de aranhas da família Salticidae têm associações estreitas com 23 espécies de bromélias, disponíveis em ecossistemas sul-americanos como Cerrado, Mata Atlântica, restingas e vegetação de dunas costeiras.
O artigo Bromeliad-living spiders improve host plant nutrition and growth, de Gustavo Romero, Paulo Mazzafera, João Vasconcellos-Neto e Paulo Trivelin, publicado na "Ecology" (vol. 87, nº4, 2006), pode ser lido por assinantes da revista em esapubs.org/esapubs/journals/ecology.htm.