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Carta aberta ao presidente do CNPq: Descentralização da Pesquisa no Brasil

Publicado em 23 julho 2003

Carta de Giovani Lopes Vasconcelos, professor do Depto. de Física da UFPE Eis a íntegra da mensagem: 'Prezado Prof. Erney Plessman Camargo, Foi com grande satisfação que recebi notícia divulgada em recente entrevista de V.S.ª à Agência Fapesp, informando sobre o projeto de criação do Instituto do Mel no Piauí, parceria do CNPq com o Governo do Estado, através da Fundação de Amparo à Pesquisa do Piauí. Segundo informação recentemente publicada na 'Gazeta Mercantil', o Piauí já é o maior produtor de mel do país, embora ainda não utilize, em larga escala, os recursos da moderna apicultura, o que justifica plenamente o projeto em questão. O apoio do CNPq a essa importante iniciativa, em um estado reconhecidamente carente de ações indutoras do desenvolvimento científico e tecnológico, merece ser aplaudido e nos deixa a todos otimistas quanto às reais possibilidades da descentralização da pesquisa no Brasil. Gostaria, entretanto, de expressar a minha preocupação em relação a uma declaração de V.S.ª na referida entrevista em que afirma: "é necessário preservar as características locais, não vou exigir que o Piauí faça física teórica ou biologia molecular. Tem que ver qual é a vocação ou qual é a necessidade do Estado, para que a parceria seja real, não artificial." Considero que a implementação de uma política científica baseada nos pressupostos (explícitos e implícitos) contidos nessa afirmação não traria benefícios reais para o país, uma vez que tenderia, inevitavelmente, a cristalizar cada vez mais as atuais desigualdades regionais, sob o questionável argumento de que cada Estado deve buscar a sua 'vocação'. A inexistência de um ambiente econômico favorável ao desenvolvimento científico em determinadas regiões do nosso país tem origens complexas e deve ser vista, sobretudo, como conseqüência de um modelo sócio-econômico-político historicamente injusto, que a própria sociedade brasileira anseia mudar, como atesta o resultado da recente eleição presidencial, não podendo, portanto, servir de justificativa para a manutenção do status quo científico nacional, em troca de ações compensatórias. Receio também que a declaração transcrita acima possa, mesmo de forma involutária, servir como desestímulo à pequena mas ativa comunidade de físicos (teóricos e experimentais) do Estado do Piauí, que nos últimos anos tem feito um esforço considerável visando a uma melhor qualificação de seus quadros, ao incremento da sua produção científica e à atração de jovens pesquisadores para fortalecer os grupos de pesquisa existentes e implantar novos grupos. Como resultado desse esforço, vale destacar que está em fase de elaboração projeto de implantação do mestrado em Física na UFPI, que esperamos venha a receber o devido apoio não só da CAPES, como também do CNPq. De um ponto de vista mais pessoal, gostaria de dizer ainda que para um físico teórico como eu, piauiense e radicado em Pernambuco, causa inquietação a possibilidade de que a declaração acima possa ser (mal) interpretada como evidência de que o presidente do nosso principal órgão de apoio ao desenvolvimento científico não reconheceria a necessidade e a importância de desenvolvermos a ciência básica em todas as regiões do país. Tenho certeza de que essa não é a visão de V. S.ª e da competente diretoria que o assessora no CNPq. Nesse contexto, talvez seja, pois, oportuno concluir mencionando que o Departamento de Física da UFPE, um centro de reconhecida excelência no ensino e na pesquisa em Física, ao qual eu pertenço, é um exemplo vivo de que, às vezes, é necessário, sim, desrespeitar as 'características locais'.'