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JC e-mail

Carta aberta a meu caro colega e amigo de lamentações cientificas, artigo de Sérgio Ferreira

Publicado em 22 julho 2002

'Falo da nossa Fapesp, pois a comunidade cientifica, no seu conjunto, sente-se impotente em participar na construção de sua política cientifica. 'Ou falamos baixo demais ou eles são surdos.' Sérgio Henrique Ferreira é ex-presidente e presidente de honra da SBPC. Texto escrito para o JC e-mail: Resolvi botar a cabeça para fora pois não agüento mais, como diria Sérgio Porto, este Festival de Besteira que Assola o País, o famoso Febeapa. Porto, por sua picardia, possivelmente foi assassinado na era dos Generais (mercúrio no cafezinho). Aparentemente, não corro este perigo, mas tenho quase certeza que um dia serei pego por um burocrata esperto que glosará algum recibo meu por estar colado de cabeça para baixo. Por hora, eles altivamente recusam-se a nos dar informações telefônicas, pois elas se encontram na Rede! Cartas não são respondidas e o julgamento dos projetos e pedidos sofrem atrasos incompreensíveis. Decisões importantes são tomadas sem explicações claras para a comunidade. Será que estou falando do CNPq ou da Fapesp? A administração do CNPq tem melhorado, mas o dinheiro sumiu... Falo da nossa Fapesp, pois a comunidade cientifica, no seu conjunto, sente-se impotente em participar na construção de sua política cientifica. 'Ou falamos baixo demais ou eles são surdos.' Você me escreveu apoiando minhas opiniões. Para ser honesto a opinião não é só minha, tem sido elaborada, modificada e estruturada por vários colegas, inclusive por alguns ex-diretores científicos da Fapesp. Um ponto interessante da resposta do diretor cientifico da Fapesp (DC), à minha entrevista à 'Folha de SP' foi quando afirmou que minha ótica em analisar o projeto do genoma do 'amarelinho' como projeto de desenvolvimento até agora falido ou pelo menos obsoleto, ele disse que o projeto visava formação de pessoal. Você que pertence a um dos grupos mais conceituados e produtivos de SP contou-me que "quando este projeto estava sendo organizado escrevi uma carta ao diretor científico da Fapesp onde mencionava que se desejássemos estabelecer a técnica de seqüenciamento em escala no Brasil, isto poderia ser feito a um custo de aproximadamente um milésimo do que seria gasto seqüenciando-se a Xyllela. Infelizmente fui o único crítico e o Perez já estava vidrado em sua política de conseguir um bom ibope para suas ações. Acho deplorável este estado de espírito que teve seu ponto alto com a clonagen do famoso bezerro, macho a partir de um célula somática de uma fêmea. Os autores desta impossível façanha só deram conta do absurdo depois de uma entrevista coletiva da imprensa. Pior, quando foram explicar ao público, em uma segunda coletiva lá estava a o DC da Fapesp sentado na primeira fila! ' O auto aplauso é uma das coisas que denigre e ofende o bom senso criando um ambiente acientífico, pois não permite criticas objetivas, pois tudo, acaba ao final sendo transferido para plano pessoal. Meu caro colega, pelas cartas que recebi, você não foi o único cientista que tentou alertar sobre os problemas. Felizmente como você disse e eu também acho, que o projeto teve alguns pontos bastante positivos. Um deles foi o da de grupos de a analise computacional de genoma. Agora veremos o que vai acontecer. Será que eles terão vida própria ou viverão eternamente de um projeto institucional? Consta que semelhante grupo formado no RJ, num projeto Genolbopiano do CNPq, já se encontra a deriva... Um marketing descabido foi o excessivo aplauso da formação de uma 'rede' científica de cientistas que estavam perdidos no mundo, isolados em suas torres de marfim. O problema é que uma rede horizontal (samba de uma nota só: seqüenciamento genético) não constitui um passo definitivo e irreversível para a ciência paulista e brasileira. Uma rede desse tipo, para continuar existente, tem que ser alimentada eternamente, criando uma bola de neve, acabando por selecionar técnicos de baixo nível e deseducar cientificamente a novas gerações. Os jovens obviamente são atraídos para onde corre o dinheiro e o emprego. Agora começamos uma nova rede paralela: o proteoma. Outra meia ciência. Querer fazer descobertas sem hipóteses é pior do que fazer uma hemorroidectomia por via oral. O paciente facilmente abre a boca mas não sabe que há processos muito mais adequados para resolver problemas. Mais um Fabeapa: o assim chamado genoma funcional. Já tem gente que ganhou aparelhos maravilhosos e anda por ai pedindo sugestões de proteínas para seqüenciar (caso verídico). E por favor não me digam que fazer estrutura de proteína é desenvolver tecnologia de ponta... O que precisamos é de uma política cientifica que permitam aos pesquisadores criarem suas próprias redes verticais. Com objetivos bem definidos, autoorganizdas por pesquisadores de vários naipes, com fluxo de caixa adequado, possibilidade de contratação de técnicos, importação facilitada (tecnicamente como a Fapesp montou como Instituto Ludwick), daí eu acredito que o genoma vire funcional. A Floresta Atlântica está esperando um projeto estratégico que acabe com a bioestupidez protecionista e ocorra uma investigação profissional de seu potencial de desenvolvimento de novos medicamentos. Eu esperava que o novo presidente do Conselho da Fapesp, nosso colega da SBPC, discutisse com os cientistas uma nova política cientifica para a Fapesp. Mas, pelo que saiu no 'Estadão', ele tirou do bolsinho do colete um elaborado plano para de rede de estações metereológicas para o Estado de SP. Infelizmente isso nem meia ciência é... Pois é meu caro colega de lamentações cientificas, temos de encontrar um jeito criterioso de criar formas de tirar a Fapesp do descaminho que um pequeno grupo de colegas a induziu. Deveríamos abrir um fórum permanente (virtual? administrado por quem ?) dos pesquisadores paulistas para discussão da política científica dos nosso órgãos de fomento, de nossas pós-graduações e pró-reitorias científicas. Especificamente deveríamos procurar instituir um ombudsman em cada área da Fapesp, para facilitar a comunicação perdida entre a comunidade e a burocracia Fapespiana. Hoje a Fapesp cresceu tanto que não se pode esperar que possa ocorrer um dialogo criativo e conseqüente entre um pesquisador isolado e um diretor científico. Já lá se vão 40 anos e é tempo de pensar novas estruturas administrativas... São idéias de quem ainda acredita que é possível fazer C&T séria no Brasil. Abraços do amigo e admirador