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ABRACAF - Associação Brasileira dos Concessionários de Automóveis Fiat

Carro flex será uma barreira para eletrificação no Brasil

Publicado em 31 março 2021

Parece que uma solução adotada por outro motivo no passado agora pode ser uma barreira para o futuro no Brasil. De acordo com um estudo do Fapesp Shell Research Centre for Gas Innovation (RCGI), que é um centro de pesquisa da escola politécnica da Universidade de São Paulo (USP), o carro flex é esse empecilho.

Com mais de 90% de participação no mercado nacional, o carro flex é uma primazia do Brasil, uma vez que EUA, Canadá e outros países só utilizam o E85, não abastecendo seus automóveis com 100% de gasolina ou 100% de etanol.

Fortemente apoiado pelo governo federal e pela indústria do açúcar, o agora etanol se tornou uma matriz energética com foco ecológico, mas no passado, foi a solução que o Brasil encontrou para sobreviver à Crise do Petróleo.

O estudo aponta que esse combustível no panorama brasileiro cria uma barreira para a entrada de tecnologias mais sofisticadas, como carros elétricos e híbridos com células de combustível usando hidrogênio.

O motivo destas é que a indústria automotiva global se move em direção à eletrificação em todos os principais mercados, incluindo até o Japão, onde a preferência pelo hidrogênio ainda faz parte da agenda de Tóquio.

Com a globalização, o Brasil pode ficar isolado no mundo. No estudo, publicado pelo pesquisador Thiago Luís Felipe Brito, doutor em Energia pelo Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo (IEE/USP), uma das conclusões é que o carro híbrido movido por etanol é a tecnologia com mais chances de suplantar os atuais carros flex no país.

Brito disse: “Acredito que algumas tecnologias, eletricidade e hidrogênio, por exemplo, devem virar nicho de mercado, assim como ocorreu com o gás natural nos carros de passageiros”.

O estudo aponta que o peso político – com incentivos pesados – ainda é um fator que impede uma concorrência direta ao etanol, especialmente após 2005, quando a tecnologia flex tornou um padrão no mercado nacional e uma forte resistência à qualquer outra coisa.

Com o etanol, o consumidor de certa maneira é protegido da volatilidade dos preços da gasolina e do diesel (uma vez que ainda existem picapes flex). Brito explica: “Obviamente, que o preço dos combustíveis não é a única variável que afeta as vendas de carros, mas fica clara a necessidade de assegurar a competitividade de tecnologias que usam combustíveis alternativos, caso se queira abrir mercado para elas”.

Desde os anos 80, o Brasil se apoia fortemente no álcool, desde a quase inexistência da gasolina até a chegada do carro flex, sempre apoiada por políticas energéticas do governo, mais precisamente em quatro fases.

O país viu um aumento de 40% na eficiência com o flex neste século e, a partir daí, as vendas decolaram, estabelecendo o bicombustível quase como uma norma a ser seguida por qualquer marca que queira vender no Brasil.

Brito conclui: “A proposta desse estudo foi dar alguns parâmetros confiáveis de elasticidade para os formuladores de políticas públicas, pelo menos no que se refere à relação mercado de vendas de carros e preços de combustíveis”.