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Carreira acadêmica. Mestre e doutor em Arquitetura – o que você precisa saber!

Publicado em 02 agosto 2017

Você como estudante ou profissional em algum momento já ouviu aquela expressão: “doutor é quem faz doutorado”. E realmente ela está correta. Acontece que, em muitas vezes, o estudante não cogita a possibilidade de seguir pela carreira e docência acadêmica. Caso ainda não tenha parado para pensar nisso, a carreira acadêmica pode ser mais uma opção de atuação como arquiteto e urbanista.

A pós-graduação é dividida em duas modalidades. Os cursos lato sensu, são as especializações e geralmente de curta duração. Nesta matéria você conhecerá mais a respeito da formação continuada stricto sensu, ou seja, os mestrados e doutorados.

À parte do debate sobre o melhor direcionamento a ser tomado, um consenso é que o profissional não pode parar. Atualizar-se é hoje um imperativo diante as tantas demandas da carreira.

ENTENDA MELHOR

A carreira acadêmica tem como foco principal a pesquisa e a docência universitária. O aluno irá defender uma dissertação de Mestrado ou a tese para o Doutoramento com a finalidade da obtenção dos títulos. Para a professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie, Ruth Verde Zein, a carreira acadêmica não pode ser encarada como um refúgio, para aqueles os quais não queiram trabalhar diretamente na área como arquitetos e urbanistas. “Precisa gostar da profissão e da carreira, gostar de projetos”. Além disso, se o arquiteto tem a intenção de seguir para a área da docência, Ruth explica ser atualmente obrigatória a formação continuada. “No século XXI as coisas se organizam de outro modo, se quiser dar aulas, não pode estacionar apenas na graduação”, avalia.

VIDA PROFISSIONAL

Quando se fala em carreira acadêmica, a primeira coisa que vem à cabeça é justamente a docência como atividade profissional quase exclusiva. Entretanto, além do privilégio de ser um professor do ensino superior na área de Arquitetura e Urbanismo, o acadêmico também poderá atuar diretamente no mercado. Foi o que aconteceu com Daniel Corsi , o qual mesmo com a abertura do escritório Corsi Hirano Arquitetos, em 2007, ingressou no programa de Mestrado da FAU-USP no ano de 2009 e um ano depois começou a lecionar na FAU-Mackenzie.

A docência é mais uma possibilidade de atuação na carreira acadêmica. Crédito || MSU

Marta Bogéa, professora na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP (FAU-USP) prefere não distinguir de modo tão abrupto docência e mercado. “Uma boa formação ensina a aprender de modo contínuo e autônomo quando necessário e assim contribuir para que um profissional experimente diferentes modos de atuar em sua área quando desejado”.

Daniel Corsi fala um pouco mais a respeito da relação entre sua vida profissional no escritório e a carreira acadêmica. “O desejo de me dedicar às duas atividades sempre se deu pela estreita relação que acredito ser fundamental para ambas”. E diz ainda ter havido implicações bastante positivas. “As reflexões possibilitadas pelo ambiente acadêmico passaram a marcar substancialmente o modo como conduzir as ideias no campo profissional”, destaca.

CONTRIBUIÇÕES PARA A ARQUITETURA

Marta Bogéa nos explica que não devemos entender uma pesquisa em arquitetura e urbanismo meramente como textos escritos e verbais. “Projeto é, quando consistente, necessariamente resultado e evidência de pesquisa na área”.

É por meio de pesquisas que novas tecnologias, elementos, materiais, maneiras de construir e de pensar a cidade e a sociedade vão se criando. Ruth Zein é enfática ao relacionar as pesquisas também ao seu espírito crítico. “Pesquisar ajuda a compreender as questões que estão nos incomodando”. A atividade acadêmica também gera maior preocupação em bons quadros de formação para o ensino no país. “O ensino (ou a carreira acadêmica) infelizmente tem sido pouco valorizada para o que contribui na formação do país e isso evidentemente não se restringe à arquitetura e urbanismo”, ressalta Marta Bogéa da FAU-USP.

Daniel Corsi enxerga a pós-graduação como um campo aberto para aqueles inclinados à transformação de nossas condições contemporâneas. Para o arquiteto do escritório Corsi Hirano Arquitetos, a formação continuada contribui para a qualificação profissional, mas deve ir além. “O conhecimento não deve ser apenas absorvido ou realizado de modo burocrático, para mera obtenção de título. Independente de seu prosseguimento na docência, ou não, acredito esses programas acadêmicos devem ter por objetivo a produção [e não mera absorção] de conhecimento”.

PERFIL DO ALUNO PARA CARREIRA ACADÊMICA

Muitas universidades e faculdades de Arquitetura e Urbanismo, possibilitam já na graduação um direcionamento do aluno à pesquisa e atividades acadêmicas. Os mais comuns são os projetos de iniciação científica, mas o próprio trabalho de conclusão de curso (TCC), quando bem elaborado e orientado pode ser uma porta de entrada a um programa de Mestrado.

Por meio da pesquisa novas tecnologias, elementos, materiais, maneiras de construir e de pensar a cidade e a sociedade vão se criando.

A professora Ruth Verde Zein da FAU-Mackenzie nos dá algumas orientações. “O aluno deve se interessar por temas, no jargão popular “procurar sua turma” e com isso conhecer mais sobre grupos de pesquisa, analisar o Currículo Lattes dos professores [ plataforma de acesso ao histórico de produção científica dos pesquisadores] e durante a graduação tirar dúvidas e pedir aconselhamentos aos docentes das matérias que tenha maior afinidade”. Para a professora, seguir para a Academia e a pesquisa, em geral, acontece após uma inquietação do aluno.

Nessa mesma linha raciocínio segue Corsi. “Mais do que um perfil ideal, acredito numa postura inquieta e disposta a se dedicar à construção de uma reflexão de interesse coletivo”, enfatiza.

QUANDO INICIAR A CARREIRA ACADÊMICA?

Existe certa indução a que ao aluno siga para a carreira acadêmica logo após o término da graduação. Mas não necessariamente precisa ser assim. O arquiteto Daniel Corsi terminou sua graduação em 2003 pela Universidade Mackenzie. Após isso houve um intervalo dedicado à atividade profissional até que retornasse ao ambiente acadêmico. “Em 2004 fui convidado pelo arquiteto Julio Gaeta (Gaeta Springall Arquitectos) para trabalhar no México. Posteriormente fui viver na Espanha onde trabalhei com Enric Ruiz-Geli (Cloud 9) até retornar ao Brasil em 2007”. Nesse mesmo ano, após vencer o Concurso Nacional de Arquitetura para o Complexo Trabalhista (TRT) de Goiânia, em parceria com Dani Hirano abriram o escritório. “Apenas em 2009 ingressei no programa de Mestrado da FAU-USP”, informa.

Zein é veemente ao afirmar para o aluno ir viver um pouco ao invés de ingressar de imediato na atividade acadêmica. “É preciso ter vivência da arquitetura, de vida profissional, obras, cidades, escalas, para sair do ambiente protegido da universidade.”, afirma. “A partir daí, ao compreender melhor questões que o estão incomodando, poderá melhor voltar sua atenção à pesquisa e carreira acadêmica”.

“O aluno deve se interessar por temas, no jargão popular ‘procurar sua turma’ e com isso conhecer mais sobre grupos de pesquisa, analisar o Currículo Lattes dos professores e durante a graduação tirar dúvidas e pedir aconselhamentos aos docentes das matérias que tenha maior afinidade” – Ruth Verde Zein, professora da FAU-Mackenzie

BOLSAS DE PESQUISA

Em geral, os pesquisadores são financiados por instituições de fomento à pesquisa. Em nível nacional está o CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico). E também por instituições estaduais. A FAPESP e a FAPEMIG (Fundações de Amparo à Pesquisa de São Paulo e Minas Gerais, respectivamente) são alguns exemplos.

O valor da bolsa varia conforme o estágio da pesquisa o qual o estudante desenvolve. Nos projetos de iniciação científica durante da graduação, é em média R$ 500,00. No pós-doutorado pode ultrapassar os R$ 4.000,00.

LINHAS DE PESQUISA

O estudante que tiver interesse em seguir pela carreira acadêmica deverá se inteirar às principais linhas de pesquisas. E isso pode ser tanto na universidade a qual estuda como em outras.

A professora Marta Bogéa da FAU-USP diz que nessa universidade há um território rico e variado que sabe acolher diferentes abordagens. “Essa é a meu ver uma de suas grandes qualidades como instituição”, explica.

MELHOR VISÃO DE MUNDO

A vivência na Academia pode despertar nos estudantes de Arquitetura e Urbanismo a consciência sobre um meio social. E que demanda como nunca por uma atitude coletiva. Por aquilo que fazemos e um entendimento melhor para contribuir para as transformações da sociedade.

Desse modo, Corsi finaliza ao enfatizar a necessidade ética das atividades. “Aliado a isso, está a importância de buscarmos um conhecimento amplo sobre aquilo que os rodeia”, destaca. E reitera a necessidade na busca pela construção de uma visão mais humanista e precisa do mundo. “Um conhecimento que poderá trazer profundidade e pertinência para suas futuras contribuições”.