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Carrapato encontra seu inimigo biológico

Publicado em 01 dezembro 2019

Por Tatiana Souto

Um produto inovador no controle do carrapato de bovinos da espécie Rhi pice phal us micro plus está sendo testado com sucesso em pelo menos 50 criatórios de gado do País, tanto de corte quanto de leite. Trata-se de um carrapaticida desenvolvido pelos biológos Túlio Nunes e Lucas Von Zun ben, proprietários da empresa Decoy Smart, em sociedade com o economista Felipe Dal'' bo. “ Fazemos controle biológico da praga usando um fungo encontrado no meio ambiente e que, naturalmente, ataca o carrapato ”, explica Nunes.

O biólogo não revela a espécie de fungo utilizado, pois a tecnologia está em fase de patenteamento e o produto, denominado Bio valente (para aplicação em bovinos) e Bio pasto (para aplicação no pasto), encontra-se em processo de obtenção de registro junto ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). “ Os produtores já estão entrando em contato conosco por meio do site da empresa, informando seus sistemas de produção e o nível de infestação do rebanho. Com base nessas informações, preconizamos o tratamento, seja apenas nos animais, seja nestes e no pasto ao mesmo tempo ”, explica Nunes.

O projeto começou em 2015, com financiamento da Fapesp. Recentemente, os criadores do bioinseticida conseguiram um aporte de R$ 1,8 milhão junto a investidores, o que permitirá a ampliação do laboratório da empresa, sediado em Ribeirão Preto, SP, e o tratamento de um rebanho de pelo menos 1,7 milhão de bovinos de corte e de leite. Segundo Nunes, a forma de atuação do produto biológico é simples. O controle do carrapato se dá por meio da aplicação dos esporos do fungo nos animais ou na pastagem.“ A partir daí, esses esporos conseguem penetrar no carrapato, por meio de cavidades entre suas articulações. Dentro do parasita, eles começam a “ digerir ” seu corpo, liberando enzimas e levando-o à morte em cerca de três dias ”, explica.

O biólogo comenta que o carrapaticida provoca uma reação em cadeia no corpo do bovino. “ Os fungos liberam mais esporos, que vão se espalhando pelo animal ou pelo pasto, mantendo o efeito de controle por pelo menos 15 dias ”, assegura Nunes.

Ganhos comparativos A vantagem do processo, segundo ele, é que, por tratar-se de controle biológico, pois o fungo é um inimigo natural da praga, não há possibilidade de o parasita criar resistência ao produto, como acontece com carrapaticidas químicos. “ Além disso, não há período de carência e tanto o leite quanto a cane podem ser aproveitados no mesmo dia da aplicação ”, garante ele, acrescentando, ainda, que todas as categorias de animais, desde bezerros, passando por vacas prenhes ou em lactação e até bovinos debilitados podem ser tratados com o Bio valente. “ É possível até deixar, por exemplo, na sala de ordenha um pulverizador manual com o fungo, caso se detecte algum carrapato na vaca ”, diz.

Outra vantagem do produto é que ele pode ser utilizado na pecuária orgânica, tanto de leite quanto de corte. O carrapaticida é vendido em frascos de 200 mililitros (onde se concentram 9 bilhões de esporos do fungo) para ser diluído em 20 litros de água e pulverizado, com bomba costal, em até 25 animais. Já o Bio pasto, com 500 ml, cobre até 10 ha de pasto. “ Se a área de pasto for muito extensa, pode ser aplicado com pulverizador tracionado por trator, sem problemas ”, diz Nunes. Ele recomenda que a aplicação seja feita inicialmente uma vez por mês no pasto e a cada 20 dias nos animais. “ À medida que a população de carrapato for diminuindo, pode-se espaçar as aplicações ”, ressalta o biólogo.

Como os produtos Bio valente e Bio pasto ainda não obtiveram o registro no Mapa, não estão sendo vendidos por “ valores de mercado ”. Nunes acredita que esse preço será intermediário entre um carrapaticida químico básico e um mais sofisticado, tipo “ pour on ”. Ele acrescenta que, no gado de corte, a tecnologia tem passado por testes principalmente em rebanhos do Sul do País, onde se concentram as raças de origem europeia, mais suscetíveis ao carrapato.

Em São Paulo, os testes têm sido realizados também por produtores de leite orgânico. “ Temos obtido um retorno bastante positivo. Acima de 90% dos nossos parceiros estão satisfeitos com o produto. ” Ele ressalta que o carrapaticida não é tóxico nem para os seres humanos, nem para o meio ambiente e os animais. “ E completamente seguro ”, garante.