Notícia

Diário do Comércio (SP)

Carmem Miranda, 50 anos de vanguarda

Publicado em 07 agosto 2005

Por André Domingues

O mito tem vida própria, a despeito do tempo. Hoje, 5 de agosto de 2005, faz 50 anos da morte de Carmen Miranda. Nesse tempo, contudo, a Pequena Notável não envelheceu nada, não ganhou uma ruga, nem um cabelo branco, sequer. Ela está lá, bela e jovem, sempre pronta para voltar às telas, como no belo Radio Days ( A Era do Rádio , 1987), de Woody Allen, em que foi revivida por Denise Dumont, ou aos palcos, como no show A Fabulosa Vida de Carmen Miranda , estrelado por Marília Pêra em 1972.

Falando dessa maneira, parece que a Carmen de verdade, a Maria do Carmo Miranda, nascida em Portugal, em 1909, e trazida para o Rio de Janeiro ainda bebê, não é tão importante. Mas não é bem assim. O que se desprende dos estudos mais sérios de sua trajetória é que a sua vida pessoal e a sua personagem artística estavam absolutamente enlaçadas. Mesmo sem sair na rua de chapéu de frutas, Carmen mergulhou na função de estrela até as últimas conseqüências. E bem cedo, muito antes de se tornar o maior ícone da cultura pop nacional, como argumenta a historiadora Tânia Costa Garcia, professora do curso de História da Unesp-Franca e do curso de Comunicação da Faap: "A Carmen dizia que, se não fosse cantora, seria artista de qualquer outra maneira. Ela tinha uma necessidade de expressão pessoal muito grande, então fazia de tudo para atingir seu objetivo", diz ela. Tânia, que acabou de publicar sua tese de doutorado, O "It Verde e Amarelo" de Carmen Miranda (Editora Anna Blume/Fapesp), atribui até a própria morte de Carmen ao seu impulso por satisfazer a todas as exigências vampirescas da estrutura comercial que a cercava.

Mas só a vontade de ser artista não seria suficiente para fazer de Carmen uma diva. A competência do seu canto, tantas vezes subestimada pelos que a tratam como um mero produto da indústria de entretenimento, é assunto das pesquisas da renomada professora de canto Regina Machado, do Instituto de Artes da Unicamp. "Além de uma capacidade extraordinária para expressar o fraseado rítmico, a Carmen Miranda trouxe para o canto um pouquinho da fala, deixando de lado aquele registro agudíssimo das cantoras de seresta e apostando numa comunicação mais direta", explica.

Algo que ambas pesquisadoras concordam quanto aos motivos do sucesso de Carmen é a qualidade e o ineditismo de suas performances. "Naquele momento, em que o principal veículo de difusão musical era o rádio, não havia uma preocupação muito grande com a questão da performance. Ela que começou a cuidar de tudo, desde o figurino até o que ficou mais marcado: o seu sorriso e o seu olhar", afirma Regina. Tânia complementa: "Não dá pra separar o canto da Carmen do seu gestual e da sua dança. Tudo traz aquela brejeirice cheia de duplos sentidos que a fazia diferentes dos outros intérpretes da época".

Aliás, na sua opinião, a conjunção de canto, dança e gestual de Carmen Miranda fez dela uma verdadeira vanguardista: "Ela usou o corpo pra cantar, expondo partes e requebrando com muita sensualidade, o que antecipou em décadas o segredo do sucesso da Madonna ou do Michael Jackson. Só não se fala mais na Carmen porque ela era brasileira", assegura.

Regina Machado vê o mesmo pioneirismo nas performances de Carmen Miranda, citando Ney Matogrosso como um dos mais importantes de seus seguidores no Brasil, mas também faz questão de ressaltar outras contribuições da Pequena Notável: "O uso da fala no canto é fundamental na evolução da música popular brasileira. Além disso, quando se falou em carnavalização da cultura, seja na Tropicália, seja na Vanguarda Paulista, a Carmen sempre esteve presente."