Notícia

FAPERJ - Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro

Carioca ganha prêmio Nobel de Matemática*

Publicado em 14 agosto 2014

Agraciado recentemente com a medalha Fields, considerada o Nobel de Matemática, concedida, a cada quatro anos, a um número de dois a quatro matemáticos com idade inferior a 40 anos, o carioca e pesquisador do Instituto de matemática Pura e Aplicada (Impa) Arthur Avila Cordeiro de Melo, 35 anos, é um exemplo de gênio, com disciplina, dedicação e equilíbrio emocional. Além disso, ele se cercou de pessoas que acreditavam nele e teve um ambiente acolhedor para que pudesse se desenvolver. Ele é o primeiro pesquisador da América Latina a receber a tal premiação. Seus principais trabalhos científicos estão relacionados à teoria de renormalização, introduzida na matemática, especialmente em sistemas dinâmicos, em 1978, pelos físicos Feigenbaum e Coulle-Tresser. Avila tem contribuições fundamentais em várias subáreas de sistemas dinâmicos, bem como em análise matemática, principalmente na teoria espectral dos operadores de Schrödinger, assunto de grande interesse na física.

Dentre as qualidades essenciais de Avila, uma é bastante comentada por seus colegas do Impa: a capacidade de sentir a importância de determinados problemas e assumir o desafio de resolvê-los. Além disso, ele também é distinguido por sua habilidade de ser, ao mesmo tempo, um matemático versátil e profundo. Apesar de sua associação direta com a área da matemática conhecida como Sistemas Dinâmicos, Avila tem enorme talento para ultrapassar fronteiras e estabelecer conexões entre áreas distintas. No Impa, instituição hoje reconhecida internacionalmente pela excelência de seu corpo docente e por sua produção científica de alto nível, ele é visto como um jovem matemático extremamente talentoso, original e bastante produtivo. Um pesquisador que esbanja farobom gosto na escolha de problemas, cuja resolução terá grande impacto no desenvolvimento da matemática. Não à toa, sua notoriedade internacional é atribuída, principalmente, à resolução de problemas que há décadas perturbavam os matemáticos de todo o mundo.

Ex-aluno dos tradicionais colégios Santo Agostinho e São Bento, aos 16 anos ganhou a medalha de ouro na Olimpíada Internacional de Matemática no Canadá, vencendo 411 oponentes de 72 países. Desde então, ainda cursando o ensino básico, passou a frequentar as disciplinas da pós-graduação do Impa, onde concluiu seu mestrado junto com o ensino médio. Assim, Avila não cursou graduação e foi direto para o doutorado no Instituto. Mas por exigência do Ministério da Educação (MEC) para lhe conceder o grau de Mestre e posteriormente de Doutor, resolveu cursar a graduação na área, na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), aos 19 anos, ao mesmo tempo em que desenvolvia sua tese de doutorado na teoria de sistemas dinâmicos, concluída em 2001, quando partiu para um pós-doutorado na França. Entre 2000 e 2001, suas pesquisas para a conclusão da tese tiveram apoio da FAPERJ, por meio de uma bolsa de Doutorado Nota 10.

”Se não tivesse entrado em contato cedo com o Impa, sinceramente não sei se teria feito Matemática. O contato que tive com pessoas do Instituto, na época em que ainda fazia olimpíadas, alimentou minha vontade de começar um mestrado na área. Também fui muito bem acolhido, recebendo uma atenção especial dos professores, e creio que isso permitiu que eu me desenvolvesse com tranquilidade”, recorda Ávila. “Muitas vezes vejo jovens que estão no sistema americano preocupados com os rankings das universidades, tentando otimizar suas chances de conseguir um bom doutorado para sair para um bom pós-doc e daí para um bom tenure-track. No Impa, felizmente fiquei alheio a tudo isso e pude me dedicar inteiramente à pesquisa”, complementa.

Mas a trajetória do matemático até, tão jovem, atingir o topo da carreira, não para por ai. Entre os anos de 2003 a 2008, o matemático foi eleito como membro permanente no Centro Nacional de Pesquisa Científica (CNRS, na sigla em francês), em Paris, e em 2008 tornou-se o mais jovem matemático promovido a diretor de pesquisa daquela instituição. Desde 2009, ocupa simultaneamente uma posição de pesquisador no Impa, dividindo seu ano entre as duas instituições. Segundo o pesquisador do Impa Welington Melo, que foi orientador de mestrado de Avila, os estudos desenvolvidos por ele já o credenciavam à medalha no Congresso Internacional de Matemáticos (ICM, da sigla em inglês) em 2010, na cidade indiana de Hyderabad. “Ele só não ganhou porque tinha outra chance. Os trabalhos que tinha feito já eram mais do que suficientes”, avalia Melo, que por sua vez foi orientando do professor Jacob Palis. “O Brasil nunca teve um Nobel antes, e a Fields é algo até mais difícil. Espero que este prêmio sirva de estimulo para outros jovens no país se esforçarem para serem grandes matemáticos e continuarem a levar a matemática brasileira e mundial a um nível altíssimo”, destaca

Em dezembro de 2013, Avila foi eleito como membro titular da Academia Brasileira de Ciências, tendo tomado posse em maio de 2014. “O prêmio representa uma maravilhosa contribuição à matemática e a ciência do Brasil", afirma o presidente da ABC, Jacob Palis.

Avila destaca os impactos de sua conquista para a ciência e, em especial, para a matemática brasileira. “As pessoas ouvem falar de Prêmio Nobel, de Medalha Fields, e são lembradas de que as diversas áreas do conhecimento continuam progredindo. No caso do Brasil, ela demonstra, de maneira clara, que temos condições de fazer ciência do mais alto nível. É obviamente importante termos noção de que as coisas podem, e devem, ainda melhorar muito, mas uma visão exageradamente negativa das reais condições também é nociva, porque pode desmotivar os jovens a seguirem uma carreira científica”, salienta o matemático. “Porém, o efeito mais positivo, em minha opinião, é tornar o Impa conhecido de uma parcela maior da população brasileira. Na minha adolescência, fiquei sabendo da existência do instituto por acidente, porque era o lugar onde aconteciam as premiações das Olimpíadas de Matemática, e considero isso um grande lance de sorte no meu percurso. Mas é sempre melhor não dependermos da sorte”, conclui.

O significado da medalha

Concedida de quatro em quatro anos pela União Internacional de Matemática (IMU, na sigla em inglês) a no máximo quatro matemáticos, a Medalha Fields é considerada o Nobel da matemática. Diferentemente do Nobel, porém, ela é concedida a pesquisadores com, no máximo, 40 anos de idade.

A condecoração foi criada com o legado do matemático canadense John Charles Fields, em 1936, e até então nunca havia sido atribuída a matemáticos do Hemisfério Sul. Mas no dia 12 de agosto de 2014, a história mudou: aos 35 anos, o carioca Artur Avila, pesquisador do Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada (IMPA), recebeu a Medalha Fields em Seul, no Congresso Internacional de Matemáticos (ICM 2014), junto com Manjul Bhargava, da Universidade de Princeton e Maryam Mirzakhani, da Universidade de Stanford, ambos dos Estados Unidos; e Martin Hairer, da Universidade de Warwick, do Reino Unido.

Brasil sediará o ICM 2018

Além da conquista de sua primeira medalha Fields, o Brasil também pode comemorar outras duas grandes vitórias, seja pela participação, pela primeira vez, de quatro conferencistas de uma instituição do país (Impa) no maior e mais importante evento da matemática mundial, seja pelo anúncio do Rio de Janeiro como sede do ICM em 2018. O Congresso é realizado desde 1897, mas só chegará a um país do Hemisfério Sul daqui a quatro anos.

O 27º ICM, em Seul, acontece entre os dias 13 e 21 de agosto, com a participação de mais de 5.000 matemáticos de todo o mundo. Os pesquisadores do Impa que vão proferir palestras no evento são Carlos Gustavo Moreira, Fernando Codá, Mikhail Belolipetsky e Vladas Sidoravicius. Até 2010, o Brasil teve 14 pesquisadores convidados a proferir palestras no ICM, sendo 13 do IMPA e um da PUC-RJ. No ICM, são apresentadas as novidades produzidas nos últimos anos em todas as áreas da matemática. “Para o Impa é motivo de muita honra e satisfação ter quatro pesquisadores convidados para palestrar no Congresso Internacional de Matemáticos de 2014. Trata-se de um feito inédito no país e conseguido por pouquíssimas instituições de ensino e pesquisa, mesmo as de países desenvolvidos e com muita tradição em matemática”, destaca o diretor geral do Instituto, César Camacho. "A conquista do Artur é um fato exemplar, que certamente estimulará ainda mais o estudo da matemática no Brasil, especialmente entre nossos jovens. Esse prêmio chega em um momento muito oportuno, quando novos programas de busca de talentos para a matemática e ciências afins estão sendo implementados com bastante sucesso no país. Sem dúvida, isso trará benefícios para toda a ciência brasileira”, destaca o diretor.

*com informações das Assessorias de Imprensa do Impa, ABC e Fapesp