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Carecas poderiam produzir cabelo novo?

Publicado em 17 maio 2007

Estudiosos ativaram a formação de folículos capilares em camundongos adultos 

Agência FAPESP — Aqueles que há tempos sentem saudades dos fios perdidos sobre a cabeça sabem que folículos capilares simplesmente não nascem mais. Ou nascem? Pois um novo estudo, publicado na edição de 17 de maio da revista Nature, acaba de derrubar a noção de que os mamíferos não têm capacidade de regeneração.

Diferente de certos animais — como a lagartixa, que pode perder certas partes do corpo sem o menor problema, certa de que ganhará novos órgãos —, achava-se que os mamíferos não apresentassem regeneração. A exceção estaria no fígado, mas, para isso, parte do órgão original deve permanecer, ou seja, não se trata efetivamente de uma regeneração.

Agora, um grupo da Faculdade de Medicina da Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos, liderado por George Cotsarelis, conseguiu ativar a formação de folículos capilares em camundongos adultos.

 

Segundo a instituição norte-americana, o estudo oferece a primeira evidência inequívoca de que os mamíferos têm o poder de se regenerar. Os resultados podem ajudar no desenvolvimento de novos tratamentos não apenas para a calvície, mas também para ferimentos e doenças degenerativas da pele.

 

Os cientistas descobriram que a epiderme — camada mais externa da pele — de camundongos com ferimentos produziu novos folículos durante o processo de cura. A maior ou menor capacidade dependeu do tipo de machucado.

Foram abertas grandes lesões nas costas dos animais, com de 1 a 2,5 centímetros quadrados de área, e por toda a profundidade da pele. A surpresa ocorreu em seguida, quando os cientistas observaram que, se a área da ferida após curada tinha mais de 0,5 centímetro de diâmetro, novos fios se formaram no centro da região lesionada.

"Exames nas seções da pele curada revelaram mudanças semelhantes ao de vários estágios do desenvolvimento embrionário do folículo capilar. Os novos folículos cresceram, passaram pelo ciclo capilar e eventualmente se tornaram indistinguíveis dos fios ao redor", disse Cheng-Ming Chuong, da Escola de Medicina Keck da Universidade do Sul da Califórnia, em comentário sobre a descoberta na mesma edição da Nature.

A descoberta reacende um debate aberto há meio século, quando cientistas observaram indicações de regeneração capilar em humanos, camundongos e coelhos. Por falta de evidência conclusiva, a questão foi ignorada pela maior parte da comunidade científica.

O grupo da Pensilvânia descobriu que a exposição dos animais à sinalização com wnt — uma rede de proteínas envolvida no desenvolvimento e no ciclo dos folículos capilares —, em seguida à abertura do ferimento, aumentou a formação de folículos. De outro lado, a inibição da wnt após o início do crescimento do epitélio evitou o nascimento de novos folículos.

Os resultados indicam que a pele dos mamíferos pode responder a ferimentos com plasticidade e com capacidade regenerativa muito maior do que se imaginava. Segundo os autores do estudo, as lesões disparariam um estado quase embrionário na pele, que abriria uma "janela" para a regeneração dos folículos capilares por meio do caminho de sinalização da wnt.

"Descobrimos que podemos influenciar o processo de cura de ferimentos com wnts ou outras proteínas. Elas permitem que a pele se recupere de modo a produzir menos cicatrizes e que inclua todas as estruturas normais da pele, como folículos capilares e glândulas produtoras de óleo", disse Cotsarelis.

O artigo Wnt-dependent de novo hair follicle regeneration in adult mouse skin after wounding, de Mayumi Ito, George Cotsarelis e outros, pode ser lido por assinantes da Nature em www.nature.com.