Notícia

Adital - Agência de Informação Frei Tito para América Latina

Capitalismo sem capitalistas

Publicado em 20 março 2012

Por Roberto Amaral- Mundo

Não sei se o mais adequado é falar de ‘desindustrialização’ ou emretorno ao primarismo’. O fato é que somos cada vez mais produtores dematérias-primas e de suas exportações dependentes para salvar a balançacomercial. Dependência perigosa do ponto de vista estratégico, se pensarmos nofuturo do país. E ainda mais perigosa se pensarmos no curto prazo, pois atendência mundial, alimentada pela crise global do capitalismo é, com a quedageral da demanda, a inevitável queda dos preços dascommodities(consultores de mercado internacional estimam em 10% a queda dos preços dasoja, da carne, do açúcar e do café nas bolsas de mercadorias). Quando um paísreconhece que está em recessão (Itália e Espanha), ou, como a China de nossosdias, anuncia que vai controlar (leia-se reduzir) seu nível de crescimento (quedos fogosos 10% de tantos anos agora é projetado em 7,5%), ele está dizendo quevai comprar menos insumos. O outro lado da moeda é o que nos diz respeito, poissua tradução é que venderemos menos, e se venderemos menos, teremos menosreceita.

Tudo isso ocorre quando as chamadas grandes economias (EUA, China eAlemanha à frente) aumentam o cardápio de suas medidas protecionistas, adotampolíticas comerciais agressivas (de que são alvo os ‘emergentes’, isto é, nós)e o grande irmão do Norte inunda o mercado com dólares impressos sem lastro quedeságuam nos países emergentes (de novo eles), agravando a crise cambial, casoespecífico brasileiro. Aqui, um real artificialmente sobrevalorizado estreitaas margens de nossas exportações (de manufaturados, principalmente, mas tambémdecommodities) e arromba as portas de nosso mercado interno para asimportações de produtos industrializados, numa concorrência desleal com aprodução nacional. Esta sofre com os juros altos, altíssimos (os maiores domundo) ainda embora em queda, e com problemas estruturais que deitam raiz naorigem no ciclo de desenvolvimento dos anos 1950, e do modelo deindustrialização tardia adotado, apoiado na import ação de fábricas de baixoemprego de tecnologia ou de tecnologia ultrapassada (o bom exemplo são sempreas montadoras e suas ‘carroças’). Em outras palavras: o futuro imediato apontapara a associação dos preços mais baixos dascommodities com asimportações em patamar elevado, donde um saldo comercial crescentementeestreito.

E não poderia ser diferente, pois nossas exportações de produtosprimários superam as de manufaturados. No ano passado, informa Luiz GuilhermeGerbelli (OESP, 11/3/2012), "apenas seis grupos de produtos – minério deferro, petróleo bruto, complexo de soja e carne, açúcar e café – representaram47,1% do valor exportado. Em 2006, essa participação era de 28,4%”.

Mas, infelizmente, esta ainda não é a verdade toda. O Brasil é o maiorexportador mundial de café em grão, e a Alemanha, que não produz um só grama, éo maior exportador mundial de café solúvel; a Itália, o maior exportador demáquinas de fabricação da bebida e criador de variadas formas de seu preparo. OBrasil exporta pedras preciosas para importá-las lapidadas. Paro nesses doisexemplos escolhidos ao acaso, pois a listagem seria interminável.

Na listagem de Gerbelli está o petróleo, mas o petróleo bruto! Essa essedespautério é uma das heranças do neoliberalismo e do fim de investimentos pelaPetrobras no refino, política de lesa-pátria dos Fernandos só corrigida nogoverno Lula, com o atual programa de ampliação e construção de novasrefinarias. Mas, qual a política para a era do Pré-sal? Ao contrário do quemais preocupa a imprensa ligeira e alguns governadores, a questão menosrelevante é a distribuição dosroyalties, em torno do qual tanto brigam.O essencial é saber se nos conformaremos em ser grandes exportadores de óleobruto, como um Iraque, um Irã, uma ArábiaSaudita, uns Emirados Árabes. Qualserá nossa política? Eis o que precisamos discutir já e com atraso.

A questão que aflige a produção brasileira de manufaturados,especialmente de bens de consumo, é menos de sobrecarga fiscal e mais depolítica industrial, que precisa ser concebida dentro de um projeto de retomadado planejamento público. Mais Ministério do Planejamento e menos Tesouro Nacional.Não conheceremos o crescimento (com bem-estar social) de que carecemos, nem eleserá sustentável se, puxada a economia pelo Estado, não investirmos pelo menos25% do PIB.

Queiram ou não os oráculos do neoliberalismo.

O industrial brasileiro, que jamais conheceu o pioneirismo (Mauá, ogrande símbolo de empreendedorismo, era um dependente de concessões de serviçospúblicos e por isso mesmo atrelado à banca do Império), ora é um associado demultinacionais, ora um rentista do BNDES, o sócio capitalista de nossoscapitalistas. A regra é esta, quando se trata de empreendimento que exija altoemprego de capital, algum nível de risco ou lenta maturação, o erário entre como capital e o empresário privado – isto é, o grande empresário – com o lucro. Oorgulhoso agronegócio deve ao Banco nada menos de 13 bilhões de reais e muitomais de cem bilhões à carteira agrícola do Banco do Brasil. Mantém uma custosabancada de ‘deputados ruralistas’ para, além dolobby legítimo, impor àUnião, periodicamente, a anistia de suas dívidas. Como sempre: prejuízosocializado, lucro privatizado.

O grande problema do capitalismo brasileiro é exatamente este, aausência de capitalistas, e o que nos salva é exatamente a existência de umEstado ainda indutor do desenvolvimento (em que pese a insistente cantilena dasgrandes empresas de comunicação de massa). No plano industrial, o pouco oumuito que tems inexistiria se não houvesse o BNDES; no plano agrícola, nossosempresários dependem da Embrapa(investimento do Estado em pesquisa) e dacarteira agrícola do BB, que vive levando beiço de seus rentistas. No plano datecnologia e da inovação nada teríamos logrado sem o MCT, o CNPq, a Finep e asagências estaduais de fomento, como a Fapesp.

Enquanto a necessidade não cria nossos capitalistas, cabe ao Estado,retomar com força seu papel desenvolvimentista controlar o câmbio, aumentar osmecanismos de proteção de nosso mercado, cujo bom sinal é a renegociação com oMéxico do acordo de importação de veículos, aumentar os custos das importações(e para elas adotar critérios seletivos) e conservar a atual política de quedade juros. E, para maior irritação da direita impressa, acelerar o processo dedistribuição de renda, que compreende o contínuo aumento dos salários em gerale do salário-mínimo de forma especial. País rico é aquele que exporta osexcedentes não absorvidos pelo consumo interno, que é tanto maior quanto maisjusta seja a sociedade.

[Fonte Carta Capital].