Notícia

Gazeta Mercantil

Capital da tecnologia atrai gênios empreendedores

Publicado em 25 setembro 1996

"Cabeças pensantes" que saíram da universidade há pouco tempo e que misturam a genialidade do professor Pardal com o espírito empreendedor de Bill Gates têm oportunidade de começar a transformar idéias em dinheiro no programa de incubadoras de empresas com base tecnológica da Fundação ParqTec, em São Carlos (SP). A cidade, promovida como a "capital da tecnologia", tem oferecido um ambiente propício para o desenvolvimento de novos negócios: conta hoje com mais de setenta empresas de base tecnológica, dispõe de infra-estrutura para acomodar 50 empresas dentro da Fundação ParqTec e acaba de inaugurar a Business School, que pretende capacitar empreendedores como bons administradores. Haroldo Thomaz Kerry Jr., de 28 anos, é um dos exemplos desses novos empreendimentos. Ao se formar em engenharia mecânica, na USP, montou, junto com três colegas de curso, a KSR, que produz softwares para planejamento do processo de fabricação de peças (CAPP). O produto deve faturar R$ 1 milhão neste ano. Muito do que vem sendo desenvolvido pelos micro e pequenos empresários de São Carlos pode ser conhecido durante a Feira de Alta Tecnologia e a Mostra de Transferência de Tecnologia, que acontecem no município de 12 a 16 de outubro. São Carlos atrai tecnologia de ponta Jovens recém-saídos das universidades desenvolvem empresas dentro do ParqTec Não faltam exemplos de "cabeças pensantes" que saíram da universidade há pouco tempo e, com apoio do programa de incubadoras de empresas com base tecnológica da Fundação ParqTec, conseguiram aquele essencial empurrão para começar a transformar idéias em dinheiro. O jovem Haroldo Thomaz Kerry Jr., de 28 anos, saiu da engenharia mecânica da USP e, ao lado de três colegas do mesmo curso, montou a KSR, que produz softwares CAPP (computer aided process planning), o equivalente ao CAD, mas para planejamento do processo de fabricação de peças. O produto é destinado a indústrias metalmecânicas, principalmente. Criada há cinco anos num dos módulos da incubadora, que têm 50 metros quadrados em média, foi só no ano passado que a KSR conseguiu sair da teoria para a prática dos negócios. Botou um dos sócios para fazer contatos comerciais com grandes empresas e o resultado foi o fechamento de contratos de fornecimento para a Cummings (motores a diesel), Nec (telefonia celular), TRW, DHB-Delphi e Ericsson-Packard, entre outras, num total de dezoito clientes de peso. O faturamento da KSR este ano deve saltar para R$ 1 milhão, ante R$ 300 mil no ano passado. "Tínhamos no início a cabeça muito orientada para 'exatas' e queríamos fazer um produto bom. Quando, no ano passado, começamos a investir um pouco na divulgação do software, o resultado veio rapidamente", comenta Kerry. O jovem empresário acredita que a meta para 1997 seja avançar rapidamente em direção à "América". "Queremos começar a exportar, inicialmente para os Estados Unidos, depois para a Alemanha", diz, sem modéstia. Juarez Felipe Jr., outro engenheiro mecânico, de 31 anos, saiu, como Kerry, da USP e montou, ao lado de quatro cabeças, a Sensis, em maio do ano passado. Durante seis meses os jovens dedicaram-se a desenvolver um sistema de monitoramento de emissão acústica que foi denominado BM12, hoje já vendido para uma grande companhia que fornece componentes para a Volks e a GM. O aparelho custa R$ 2,5 mil, e tem um sensor que detecta falhas nas válvulas fabricadas para motores de carros. "Nosso cliente costumava fazer o teste com as válvulas visualmente, e uma em cada mil apresentava defeito depois das verificações. Com o sensor, o índice de rejeição caiu para zero", garante o engenheiro. A Sensis levou seis meses e investiu R$ 20 mil para desenvolver o aparelho. E a meta para 1997 é aperfeiçoá-lo na forma de um microprocessador que possa ser conectado diretamente ao comando numérico das máquinas. Exemplos como os da KSR ou da Sensis, de jovens com boas idéias e prontos para ganhar o mercado do futuro, ocorrem na cidade com facilidade. Mas o grande sonho de muitos que estão começando, ou mesmo dos que já têm experiência, ainda não está se materializando: o namoro com a recém-chegada Volkswagen. Segundo José Corrêa Rebelo, gerente-geral da fábrica de São Carlos, a montadora está cadastrando por enquanto apenas empresas que pretendem participar de concorrência para prestação de serviços nas áreas de alimentação, limpeza, ferramentaria e manutenção. "Não temos, por enquanto, na região, nenhum fornecedor de componentes. Mas o mercado poderá evoluir nesse sentido. Leva tempo", explica. Em Betim (MG), por exemplo, argumenta, levou vários anos até que se formasse o pólo de fornecedores que hoje servem à Fiat. "As empresas daqui têm bom know-how. Para a Volks seria bom ter o máximo de fornecedores aqui mesmo em São Carlos." Marília de Camargo César - São Carlos — ParqTec: (016) 272-6977 Sebrae-SP: 0800 780202 Sensis: (016) 272-6977 KSR: (016) 272-6977 Volkswagen: (016) 264-1022 Oktobertech reúne 50 empresas Muito do que vem sendo desenvolvido pelos micro e pequenos empresários são-carlenses pode ser conhecido durante a Feira de Alta Tecnologia de São Carlos (Fealtec) e Mostra de Transferência de Tecnologia, que este ano acontecem de 12 a 16 de outubro. Os dois eventos eram o forte do que era chamado, até o ano passado, de Semana da Tecnologia, uma programação patrocinada por diversas instituições com o objetivo de promover a troca de informações entre universidade/empresa e o pólo tecnológico em si. Este ano, o evento ganhou tanto espaço que se transformou na Oktobertech - um mês inteiro com cerca de setenta eventos culturais, além da feira. A programação será oficialmente aberta no dia 12, no mesmo dia da inauguração da fábrica de motores da Volkswagen. Os negócios a partir desta 10ª Fealtec são estimados em R$ 5 milhões, quando cerca de cinqüenta empresas, entre elas a própria Volks e a IBM, irão participar. As gigantes estarão lado a lado das pequenas, como a Mestre Software, uma promissora microempresa de software, que mostra seu premiado programa educacional Mestre, para crianças desde a pré-escola até o 1º grau. Ou a Industra, uma das que participam do programa de incubadoras da fundação. O empresário Emílio Gastezzi exibirá seu novo aparelho para microcirurgia de desobstrução de tumores. (MCC) De "professor Pardal" a Bill Gates: escola vai ensinar a ganhar dinheiro Tão raro quanto encontrar alguém com o saldo bancário de Bill Gates é achar um indivíduo com seu cérebro e, ao mesmo tempo, sua capacidade empreendedora. Na prática, os "professores Pardal" costumam ter muita dificuldade em solucionar equações menos objetivas, como por exemplo negociar um empréstimo com algum carrancudo gerente de banco. "Samba, futebol e ser empresário aprende-se na escola", garante Sylvio Goulart Rosa Jr., diretor-presidente da Fundação Parque de Alta Tecnologia de São Carlos e do Sebrae/SP. "Professor Sylvio", como é conhecido, comemora a criação no município da primeira escola voltada especificamente para ajudar "professores Pardal a aprender a ganhar dinheiro". A ParqTec Business School, que começou com sua primeira turma na semana passada, é um projeto da fundação, em parceria com a UFSCar - Universidade Federal de São Carlos e com apoio do Sebrae/SP. A idéia é vestir os recém-saídos das universidades locais com uma capa empresarial, através de treinamentos em marketing, planejamento, organizacional e análise de investimentos, entre outros. O curso completo será dividido em três módulos, num total de 132 horas-aula, e irá custar R$ 100 por módulo. Outra boa notícia é que a pequena empresa receberá um tratamento especial. Segundo o professor Sylvio, uma das metas da Business School é formar nos universitários uma predisposição para trabalhar em pequenas empresas. "Hoje, o pessoal se forma sempre pensando em trabalhar para uma multinacional ou uma grande companhia. Queremos que eles tenham na pequena empresa uma opção de negócio". A Business School é, na verdade, um ingrediente a mais na receita que a Fundação ParqTec vem formulando há vários anos no intuito de promover São Carlos como a "capital da tecnologia" do Brasil. O título já é bem conhecido. Vem da existência de um pólo com mais de setenta empresas de base tecnológica, em sua maioria criadas por ex-alunos de engenharia, física ou química da USP e UFSCar, duas das mais conceituadas universidades do País. Eles ajudaram a cidade a definir sua vocação de centro gerador de tecnologia e conhecimento, e a projetar a fama de município com o mais alto índice de Ph.Ds per capita do Brasil: com 170 mil habitantes, há um cidadão para cada grupo de 2-50 com título de doutor-professor. Como presidente da fundação há nove anos (em onze de existência) e do Sebrae-SP há pouco mais de um, Goulart Rosa tem se esforçado para atrair investimentos para a cidade, sempre vendo com carinho especial os que prestigiem micro e pequenas empresas com base tecnológica para reforçar o marketing da "capital da tecnologia". "Queremos atrair os melhores alunos, que serão os melhores profissionais e irão gerar riqueza. É o que chamamos de uma migração seletiva." Outra novidade que deverá colaborar com essa sinergia entre universidade e capital vem do próprio Sebrae-SP. A entidade irá lançar, agora em outubro, um edital para acadêmicos interessados em formar núcleos de pesquisa sobre a pequena empresa. O Sebrae-SP irá destinar mais de R$ 5 milhões nos próximos cinco anos para bancar os dez melhores projetos de coleta de informações e subsídios estatísticos para o setor. "Os professores poderão, além da pesquisa, sugerir por exemplo cursos para recém-formados que tenham ênfase na pequena empresa", explica. (MCC)