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Câncer: novas moléculas podem tornar tratamento menos agressivo

Publicado em 13 abril 2021

Por Henrique Fontes, da Assessoria de Comunicação do IQ/Unesp

Um dos desafios que motiva cientistas que pesquisam formas de combater o câncer é a busca por alternativas que permitam diminuir a agressividade dos tratamentos, promovendo melhor qualidade de vida às pessoas acometidas pela doença. Dentro desse contexto, especialistas da área estudam a criação de substâncias menos nocivas que os quimioterápicos utilizados hoje em dia, de forma que elas gerem menos efeitos colaterais ao paciente, mas que mantenham a eficiência da terapia. Como uma iniciativa relevante nesse sentido, pesquisadores do Instituto de Química (IQ) da Unesp, em Araraquara, desenvolveram novos compostos que apresentaram resultados promissores em testes iniciais realizados em laboratório. O trabalho resultou em um artigo que foi publicado recentemente na Materials Science & Engineering C: Materials for Biological Applications, revista científica internacional. 

Em ensaios realizados in vitro, os especialistas aplicaram as novas moléculas contra células humanas de câncer de pulmão e de mama e obtiveram resultados animadores. Mesmo em baixas concentrações, as substâncias se mostraram muito mais “potentes” que a cisplatina, quimioterápico amplamente empregado no tratamento de diversos tipos de câncer e conhecido pelos seus efeitos colaterais. “Com uma concentração cerca de 20 vezes menor que a cisplatina, um dos nossos compostos foi capaz de inibir a multiplicação de 50% das células de câncer de pulmão. O mesmo composto também conseguiu frear a multiplicação de 50% das células tumorais de câncer de mama com uma concentração aproximadamente 15 vezes menor que o quimioterápico de platina", revela Adelino Vieira de Godoy Netto, professor do IQ e um dos autores do trabalho. 

A partir da avaliação prévia desses resultados, é possível afirmar que, para alcançar a mesma taxa de inibição da proliferação das células tumorais, as novas substâncias podem ser utilizadas em quantidades bem menores que o fármaco de referência, o que poderá proporcionar no futuro um tratamento igualmente eficaz, mas muito menos agressivo, reduzindo seus efeitos colaterais. As moléculas do IQ levaram cerca de um ano e meio para serem desenvolvidas e são constituídas basicamente de níquel. No entanto, como esse elemento químico é tóxico quando utilizado de forma livre, os cientistas precisaram modificá-lo a fim de atenuar seus efeitos nocivos. Foi por isso que ele ganhou uma nova “roupagem”, sendo revestido com um composto orgânico chamado tiossemicarbazona, sintetizado a partir de uma substância natural encontrada na canela (cinamaldeído).

No estudo, os pesquisadores também evidenciaram que os novos compostos são menos danosos às hemácias, células sanguíneas responsáveis pelo transporte de oxigênio. Ainda durante o trabalho, foi observado que as moléculas são mais seletivas para células tumorais, ou seja, atacam majoritariamente aquelas que estão doentes. Uma das explicações para esse resultado é que os compostos apresentaram um mecanismo de ação diferente dos fármacos à base de platina, os quais agem diretamente contra o DNA das células, atingindo tanto as tumorais quanto as saudáveis. As substâncias do IQ adotam uma outra via de ação, que por enquanto ainda não foi identificada pelos cientistas, mas que será investigada nas próximas etapas da pesquisa. 

O caminho até as células tumorais - Para que uma substância bioativa chegue até o alvo desejado, ela precisa ser transportada por uma proteína presente no plasma sanguíneo, a albumina. “Quando você ingere um medicamento por via oral, por exemplo, ele é absorvido, cai na corrente sanguínea e é levado para várias partes do corpo. Porém, para que isso ocorra, é preciso haver afinidade entre o princípio ativo e a albumina, que atua como se fosse um carro que oferece carona para o fármaco chegar até o seu alvo (destino)”, explica Nailton Monteiro do Nascimento Junior, professor do IQ e um dos autores do trabalho. Segundo os pesquisadores, a interação de um medicamento com a albumina deve ser equilibrada. Nem tão fraca de forma que comprometa a ligação entre eles, mas também não tão forte a ponto de fazer com que o fármaco “não desça do automóvel” para cumprir sua função.

Para avaliar a interação da albumina com as moléculas de níquel desenvolvidas no IQ, os cientistas recorreram à bioinformática, campo científico interdisciplinar que une biologia e computação. Por meio de simulações realizadas em programas de computador, é possível analisar, interpretar e entender como algumas interações biológicas ocorrem. Os resultados computacionais mostraram que as moléculas criadas no Instituto se ligam à albumina de forma ideal e conseguem agir com eficiência nas células tumorais. 

Segundo estimativa publicada pelo Instituto Nacional do Câncer (INCA), o Brasil deve registrar em cada ano do triênio 2020-2022 cerca de 66 mil novos casos de câncer de mama, o segundo mais incidente junto ao de próstata, e 30 mil casos de câncer de pulmão, o quarto com mais registros. Nos próximos meses, as moléculas desenvolvidas no IQ começarão a ser testadas em animais (testes in vivo). Caso os resultados positivos se confirmem nesta etapa, a fase seguinte da pesquisa será a de testes clínicos, quando os compostos são aplicados para avaliação em seres humanos. Com investimento contínuo, os pesquisadores estimam que todas etapas do trabalho possam ser finalizadas em alguns anos. 

O estudo foi financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). O trabalho contou com a colaboração de pesquisadores da Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF) da Unesp, em Araraquara, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Universidade Federal de Sergipe (UFS), Universidade Federal do Rio Grande (FURG), Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Universidade Estadual de Londrina (UEL), Universidade Técnica de Dresden, da Alemanha, e do Instituto de Física de São Carlos (IFSC-USP).


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