Notícia

Innaldo Sardinha

Câncer de mama em mulheres com menos de 35 anos não é hereditário

Publicado em 29 agosto 2018

Apesar de geralmente ser associado a uma herança genética, o câncer de mama em mulheres jovens, com idades entre 20 e 35 anos, não tem origem hereditária. De acordo com o estudo publicado no periódico Oncotarget, cerca de 80% dos casos são causados apenas por mutações nas células da mama não herdadas pelos pais. A pesquisa foi realizada no Centro de Investigação Translacional em Oncologia (LIM 24) do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp) com apoio da FAPESP.

O câncer de mama é o tipo mais comum em mulheres --a estimativa é de 59 mil novos casos no Brasil em 2018-- e ocorre principalmente naquelas que têm mais de 50 anos e já se encontram na menopausa. No entanto, 4,5% dos casos da doença acometem mulheres jovens. Por ter diagnóstico mais difícil e ser pouco esperado, normalmente o tratamento nesses casos é iniciado quando a doença já está em estágio mais avançado e apresenta maior taxa de mortalidade do que em mulheres mais idosas.

No estudo, foram analisados os casos de 79 pacientes com menos de 36 anos e diagnosticadas com câncer de mama. Treze delas (16,4%) apresentavam mutações germinativas nos genes BRCA1 e 2, que são alterações que têm a hereditariedade como base. O estudo identificou ainda outros genes herdados, que são menos comuns que o BRCA1 e 2.

“Dentre todos os tumores que acometem pacientes jovens, 25% são câncer de mama. É também o tipo mais comum em jovens. Há poucos estudos nessa área. Enquanto existem 2 mil tumores de mama sequenciados e disponíveis em bancos de dados, apenas 29 tumores que acometem mulheres jovens tinham sido caracterizados. Nosso grupo sequenciou outros oito e analisamos os dados conjuntamente com os outros 29 já existentes”, afirma Maria Aparecida Koike Folgueira, pesquisadora da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e uma das autoras do artigo.

Folgueira explica que as células da mama, em especial, proliferam a cada ciclo ovulatório e entram em apoptose (morte celular), o que faz com que elas tenham maior chance de uma mutação ao acaso.

“Mais de 40% dos casos estudados apresentaram mutação em gene sem origem hereditária que codifica proteína de reparo de DNA, ou seja, o surgimento do câncer veio de um problema em algum sistema de reparo de DNA, que se originou na própria célula da mama e não foi herdado”, conta ela.

O que causa a mutação responsável pelo câncer?

Segundo os pesquisadores, mutações ocorrem o tempo todo, seja por metabolismo celular ou duplicação das células (replicação do DNA), entre outras causas. Tanto que cabe a uma enzima específica --DNA polimerase-- criar duas cadeias de DNA idênticas, a partir de uma única molécula de DNA original. Porém, ela pode não ser muito fiel à cópia, gerando erros nessas replicações.

Para que o erro do DNA polimerase não passe adiante, existe ainda um sistema de reparos de DNA e, de acordo com o estudo feito no Icesp, 43% dos casos de câncer de mama em mulheres jovens estão relacionados a mutações em genes desse sistema.

“Se a célula prolifera bastante, ela tem mais chance de ter uma mutação ao acaso e é isso que parece ocorrer nos casos que estudamos”, diz Folgueira.

De acordo com a cientista, os genes BRCA1 e BRCA2 codificam proteínas importantes que participam do reparo do DNA. Quando esse sistema não funciona, esse DNA fica mais propício a sofrer mutações, e o acúmulo delas gera uma célula alterada, que pode desencadear o câncer.

Para a pesquisadora, embora a descoberta não altere momentaneamente o tratamento e atenção à população de mulheres jovens, ela surge como uma indicação. “Reparo de DNA é muito importante e um dos tratamentos no câncer de mama metastático. Existem estudos clínicos em andamento para avaliar se este tratamento pode também beneficiar pacientes que apresentam mutações em outros genes de reparo, além de BRCA1 e BRCA2. Este seria o caso de cerca de 40% das pacientes jovens com câncer de mama”, relata Folgueira.

A descoberta também abre caminho para novas linhas de pesquisa. “É uma indicação importante que a maioria dos casos não seja por questões hereditárias. Ainda assim fica a pergunta se são de fato apenas mutações somáticas ao acaso. Desde que nascemos estamos expostos a tudo, não é? O câncer de mama é o mais frequente em mulheres e um dos motivos pode ser porque as células proliferam bastante e há mais chance de errar”, conclui ela.

FONTE: https://vivabem.uol.com.br

*** Com informações da Agência FAPESP.