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Jornal de Beltrão

Câncer de mama: é possível levar uma vida sexual saudável após a mastectomia?

Publicado em 28 março 2012

Por Thiago Chiapetti

Mulheres afetadas pelo câncer de mama conseguem ter uma vida sexual saudável, sim. É o que afirma uma pesquisa realizada pela Universidade de São Paulo (USP). Mas a retirada da mama, a mastectomia, ainda é um assunto constrangedor, na avaliação do oncologista do Ceonc (hospital do câncer) de Francisco Beltrão, Daniel Rech. "Em nossa região, essa questão ainda parece constranger as pacientes. Embora elas estejam livres para perguntar, são poucas as pacientes que se sentem livres para questionar. Parece-me que nos primeiros meses do tratamento elas ficam mais preocupadas com as chances de cura propriamente dita", diz.

Mas a pesquisa da USP que avaliou 139 mulheres descobriu que metade delas manteve uma vida sexual ativa. E relataram ter tido pelo menos um parceiro sexual no último ano. Quase a metade delas também disse ter feito sexo no último mês. Destas pacientes avaliadas, 33,8% tinha feito sexo na última semana. As que haviam se relacionado há seis meses ou um ano somaram 3% e 38,8%.

Segundo o médico Daniel, a estética causa mais preocupação nas mulheres do que a própria retirada da mama. "Elas ficam bastante desconcertadas com a perda do cabelo por causa da quimioterapia. O cabelo é uma marca feminina. Também acho que, por ser visível, deixa exposta a situação e a própria fraqueza desse momento", analisa.

Mas a dificuldade maior é a "vergonha ao falar sobre o que está incomodando". Os problemas como a redução de libido e a falta de lubrificação vaginal são totalmente tratáveis. "Gosto de repetir para as mulheres que é melhor dormir com a consciência livre de preocupações", diz, ao incentivar pacientes a procurarem a ajuda de um ginecologista ou médico de confiança.

Para Daniel, pesquisas otimistas em relação ao tratamento do câncer de mama são uma boa dose de esperança na recuperação de pacientes. "A cura é uma verdade cada vez mais presente, uma vez que as mulheres estão continuando duas vidas. É gratificante quando elas descobrem que não estão mais doentes e percebem que ainda são mulheres e podem viver bem."

Apesar do susto do diagnóstico e da inesperada fase de tratamento, a recuperação é sempre uma conquista. "É quando elas percebem que estão bem e livres da doença e que podem ser felizes novamente", destaca Daniel. "Sempre aprendemos na faculdade que a cirurgia da mama afetaria mais a vida sexual das mulheres, mas isso parece não ser completamente verdade. Claro que afeta a vida do casal, mas com o aumento das chances de cura e com as cirurgias conservando a mama, há uma consequente mudança no foco."

Por isso, ao sinal de qualquer nódulo na mama é preciso procurar ajuda médica. "O câncer de mama não dá sintomas no começo. Mas um desconforto ou uma situação diferente é uma oportunidade de investigação. Na maioria das vezes não é nada", ensina.

Pesquisa aponta três situações

A idade e a situação marital são mais importantes que o próprio câncer no caso das pacientes sem relação sexual há mais de um ano. Mas outro levantamento realizado pelo Núcleo de Ensino, Pesquisa e Assistência na Reabilitação de Mastectomizadas (Rema) da USP revela três situações.

Há mulheres em que as alterações do corpo prejudicaram a vida sexual; há aquelas que disseram não ter observado diferenças significativas; e há ainda um terceiro grupo que relatou ter percebido uma melhora na vida sexual após o tratamento do câncer. O medo da morte teria sido um dos responsáveis pela melhora na relação com o parceiro.

Mas a entrada na menopausa por causa dos hormônios usados no combate ao tumor é uma das complicações que provoca redução da libido e secura na vagina. Os inchaços causados pela retirada de gânglios linfáticos das axilas também são outra dificuldade encontrada pelas pacientes. (Com informações Agência Fapesp)

Autoexame X Mega-Sena

O oncologista Daniel Rech lembra que a melhor pessoa para apontar alterações no corpo da mulher é ela própria. "O autoexame é algo diário, e se dá inconscientemente desde a adolescência. O autoconhecimento é extremamente importante para uma vida sexual saudável, pois acho que o conhecimento do próprio corpo é fundamental para descobrir o caminho dessa felicidade."

E deixar para mais tarde uma possibilidade que pode mudar a vida nem deveria gerar dúvida. "É a diferença entre a verdadeira cura ou uma noticia desagradável. Há mais de 95% de chance de cura no câncer de mama. Se alguém lhe falasse: jogue na Mega-Sena, pois há 95% de chance de ganhar, o que você faria?"