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A Gazeta (Cuiabá, MT) online

Canavial "forrado" polui menos

Publicado em 25 julho 2011

Por Wisley Tomaz

Um estudo comprovou que canaviais forrados com a própria palha da cana-de-açúcar poluem menos. Os cientistas da Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias, campus Jaboticabal (SP) chegaram a conclusão de que o solo coberto de palha de cana libera 20% menos gás carbônico na atmosfera. A explicação é que sem a proteção natural o estoque de carbono da terra se dissipa com mais facilidade. Na pesquisa, foi mostrado que a diferença na emissão de dióxido de carbono (CO2) entre o terreno coberto pelos detritos e aquele desprotegido foi de 400 quilos de carbono, ou 1,5 mil quilos de gás carbônico.

A equipe foi liderada pelo físico Newton La Scala Júnior. Na avaliação dele, o trabalho é um alerta para a indústria canavieira, que há algum tempo desenvolve projetos para o uso da palha da cana na produção de plásticos, energia elétrica a partir da queima da biomassa e até uma modalidade de álcool, o chamado etanol de segunda geração. Segundo o pesquisador, não só do ponto de vista ambiental é mais vantajoso deixar a palha sobre o solo, porque ao liberar gás carbônico o solo também fica mais pobre em nutrientes, o que significa que a manutenção da palha após a colheita fará o produtor economizar no uso de fertilizantes.

Realizada de 2008 a 2010, a pesquisa é intitulada Impact of managemente practices on soil CO2 emissions in sugarcane production areas, southern Brazil ou Impactos das práticas de manejo nas emissões de CO2 do solo em áreas de produção de cana-de-açúcar no Sudeste do Brasil. O projeto teve financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Na metodologia utilizada a investigação comparou três cenários: terreno coberto com uma espessa camada de palha de cana-de-açúcar, exatamente como fica o chão após a colheita mecanizada; solo com apenas parte dessa palha; e lavoura sem nenhuma proteção no solo após a colheita. Sendo que para fazer as medições, o cientista espalhou pelos locais suportes de PVC com uma câmara acoplada, uma espécie de tubo que é posicionada sobre o solo. Dentro dela, um sistema com infravermelho capta o fluxo gasoso. Conforme explica o pesquisador, ao abafar o solo a palha impede que a temperatura da terra se eleve demais. Isso permite que a terra acumule maior índice de umidade e tenha uma atividade microbiana menos intensa. Essa diminuição da atividade das bactérias na terra é que faz com que seja emitido menos gás carbônico.

A próxima etapa de estudos deve investigar outros aspectos da manutenção da palha no solo. Os cientistas querem saber, por exemplo, se a cana molhada nas épocas de chuva pode fazer com que o solo emita uma quantidade maior de gás metano, outro "vilão" do aquecimento global. Por fim, o pesquisador alerta que fica claro que se quisermos realmente chegar a sistemas agrícolas de pouco impacto ambiental, o manejo da terra precisa ser planejado mais cuidadosamente.