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O Imparcial (Presidente Prudente, SP) online

Canalização de córregos gera alagamentos em PP

Publicado em 12 abril 2015

Por Mariane Gaspareto

O estudo “A construção da paisagem de fundos de vale em cidades do oeste paulista” constatou que os municípios do interior de São Paulo esconderam seus rios, canalizando os cursos d’água que cortam os trechos urbanos, camuflados, quase invisíveis aos olhos. Em Presidente Prudente, que foi uma das 16 cidades analisadas, avaliou-se que a canalização dos córregos do Veado, Saltinho e Colônia Mineira é a razão de alagamentos que ocorrem nesses pontos em dias de chuvas volumosas, fazendo com que as galerias subterrâneas transbordem.

A pesquisadora Norma Regina Truppel Constantino, chefe do Departamento de Arquitetura, Urbanismo e Paisagismo da Unesp (Universidade Estadual Paulista), campus de Bauru, conduziu a pesquisa que contou com o apoio da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). Para ela, Prudente precisaria “reabrir” as construções que canalizaram os córregos – como é o caso do Parque do Povo – renaturalizando-os e recuperando a mata ciliar de suas margens. “Ao promover essa medida, a vegetação conseguiria absorver a chuva, de modo que as águas chegassem ao subsolo, evitando uma vazão de água maior do que a capacidade de armazenagem desses rios canalizados”.

Para Constantino, “Prudente não valoriza seus córregos”, visto que os escondeu, no lugar de torná-los visíveis. “A cidade vai crescendo e se tornando cada vez mais impermeável e não tem como a água da chuva penetrar no solo”, pontua.

Obras nos córregos

De acordo com Constantino, desde a década de 80 “as estratégias da engenharia hidráulica estiveram orientadas no sentido de retificar o leito dos rios, para que suas vazões fossem dirigidas para a jusante [fluxo normal da água, do ponto alto para o baixo] pelo caminho mais curto, sem que sejam avaliados os efeitos ou os reais benefícios da obra, de modo que alguns córregos chegam a ser completamente extintos”. A questão é controversa, mas há um consenso entre os biólogos de que a canalização é um desastre ecológico, conforme a pesquisadora.

O Córrego do Veado teve sua canalização concluída em 2007. Ela é subterrânea, somente aparecendo a céu aberto em alguns trechos. Sobre o córrego foi implantado o Parque do Povo em 1982, cuja área verde, equipamentos e ciclovias são muito utilizados pela população, cercado por avenidas com trânsito intenso. “Esse é o fator mais surpreendente. Ao invés de o córrego correr sobre o parque, tornando-se fator de desfrute para a população, foi escondido no subterrâneo”, comenta a pesquisadora.

O delegado regional do Creci (Conselho Regional de Corretores de Imóveis do Estado de São Paulo), Alberico Peretti Pasqualini, por sua vez, relembra que antes da canalização do Córrego do Veado e da construção do Parque do Povo, a região, praticamente inóspita, tinha uma procura de imóveis irrisória. “Hoje ele é quase um calçadão, a ‘menina dos olhos’ do cliente, com quase nenhuma oferta para muita procura, porque o ramo de estabelecimentos alimentícios migrou com a expansão daquela localidade”, avalia.

O Córrego Saltinho também cruza a área urbana e se encontra canalizado desde 2009 ao longo de dois quilômetros. A mata ciliar vem sendo recomposta pela prefeitura prudentina com a participação da comunidade, através de campanhas realizadas principalmente em datas comemorativas. Não existem projetos de implantação de parque de fundo de vale.

Já o Córrego Colônia Mineira, afluente do Veado, também está totalmente inserido na área urbana de Prudente. Ele encontrava-se degradado, sofrendo despejo de esgoto sem tratamento e de resíduos sólidos, quando foi canalizado em 1995. Posteriormente, foi elaborado o projeto de um parque de lazer sobre a área, que ainda não foi implantado.

A pesquisadora relata que moradores dos bairros do entorno deste córrego já discutiram a degradação ambiental dos fundos de vale e carência de áreas de lazer. “Ainda assim para muito deles, canalizar e enterrar o córrego ‘solucionaria os problemas’”, expõe.

Poder público

O secretário municipal de Meio Ambiente, Wilson Portella Rodrigues, afirma que não há como estimar o valor necessário para tornar novamente visíveis os córregos e renaturalizá-los.“Sem falar que não seria uma obra viável reabrir ali com toda a estrutura que já tem em cima”, diz.

Já o titular da Sosp (Secretaria Municipal de Obras e Serviços Públicos), Rodnei Rena, salienta que a prefeitura tem intenção de sanar os problemas de alagamentos nos pontos da cidade, dentre eles o Parque do Povo. “Estamos correndo atrás disso, mas está difícil conseguir um convênio”, diz. O secretário, no entanto, acrescenta que problemas climáticos influenciam nos pontos de inundação. “Recentemente tivemos episódios de temporais com chuvas de 40 milímetros em 15 minutos”, salienta.

SAIBA MAIS

TEMPORAIS

Em 2014, Presidente Prudente registrou pelo menos três grandes temporais. Em julho, ventos de até 92 km/h, conforme o Climatempo, atingiram a região, causando danos à estrutura das casas, queda de árvores e de fios elétricos. No dia 2 de setembro, rajadas de vento alcançaram até 108 km/h na área urbana de Prudente e 74km/h no Aeroporto Estadual, deixando 11 bairros sem energia após 24 horas do ocorrido. Já em dezembro, o temporal chegou a causar a morte de uma mulher de 32 anos, que foi levada pela força da enxurrada.

DA