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Jornal Brasil

Cana, uma alternativa energética

Publicado em 08 novembro 2015

À exceção do Brasil, os demais países da América Latina e Caribe que plantam cana-de-açúcar utilizam a cultura para produzir prioritariamente o açúcar. Estudo desenvolvido pelo Núcleo Interdisciplinar de Planejamento Energético (Nipe) da Unicamp, no contexto do projeto temático Contribuição de Produção de Bioenergia pela América Latina, Caribe e África (LACAf), financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), acaba de concluir que a planta também apresenta grande potencial para a geração de bioenergia (etanol e eletricidade) na região. De acordo com a pesquisa, quase todos os 15 países analisados teriam condições de substituir 10% da gasolina por etanol, caso o biocombustível passasse a ser produzido a partir de um subproduto gerado pela fabricação do açúcar, o melaço.

As conclusões da pesquisa foram apresentadas no último mês de setembro em um congresso científico realizado em Cali, na Colômbia, pelos pesquisadores Simone Pereira de Souza e Luiz Augusto Horta Nogueira. O estudo foi premiado como o melhor trabalho estrangeiro do evento. De acordo com Simone de Souza, o objetivo da investigação foi apresentar o potencial da cana-de-açúcar como fonte de energia, bem como os consequentes benefícios sociais, ambientais e econômicos que o seu melhor aproveitamento traria para os países da região.

O ponto de partida do estudo, conforme a pesquisadora, foi analisar o atual contexto energético dos países. Assim, foram consideradas a dependência de cada um deles da gasolina e as necessidades de importação de eletricidade e açúcar, entre outros pontos. A partir dessa avaliação, os pesquisadores traçaram dois cenários distintos. No primeiro deles, foi avaliado o aproveitamento do melaço, subproduto gerado pela fabricação do açúcar, para a produção do etanol. Atualmente, esse resíduo tem tido destinação menos nobre, como o uso para o enriquecimento da alimentação animal.

Após as análises, os pesquisadores concluíram que quase todos os países poderiam misturar pelo menos 10% de etanol à gasolina utilizada pelos veículos automotores, sem a necessidade de promover grandes mudanças em sua infraestrutura energética. Algumas nações, como Colômbia, Guatemala, Nicarágua e Cuba poderiam ir além desse índice, produzindo excedentes do biocombustível.

No segundo cenário, os pesquisadores do Nipe projetaram uma expansão de 1% da área de cultivo de cana sobre pastagens. “Seria uma expansão pequena, que não traria impacto à produção de alimentos”, garante Simone de Souza. Pela proposta, a produção de metade dessa área expandida seria destinada à produção de açúcar e a outra metade, para a produção direta de etanol. “Nesse cenário, o que identificamos foi que a maioria dos países conseguira promover uma mistura de 20% de etanol na gasolina. No caso da Nicarágua, por exemplo, o país teria condições de produzir um volume de etanol quase três vezes maior que a demanda para E10 (mistura de 10% de etanol). Obviamente, para alcançar essas misturas seria necessário que os países analisados implantassem políticas públicas que favorecessem esse avanço”, pondera a pesquisadora.

Além disso, o estudo também analisou o potencial de geração de eletricidade por meio do aproveitamento do bagaço da cana. Mais uma vez, a conclusão foi de que essa capacidade é bastante expressiva. Nesse caso, foram igualmente considerados dois cenários: um sem e outro com expansão da área plantada de cana-de-açúcar. No primeiro caso, sem qualquer incremento na produção canavieira, a Guatemala teria condições de suprir 43% da sua demanda residencial. Com a expansão de 1% da área cultivada, atingiria 100% da demanda.

A Argentina, com a sua produção atual, poderia suprir 13% da demanda de eletricidade com o aproveitamento do bagaço. “Como se vê, o potencial do uso da cana como fonte de energia renovável é muito grande tanto na América Latina quanto no Caribe. Em relação ao aproveitamento da cana pelo segmento elétrico, é preciso lembrar que isso dependeria de uma alteração no sistema, para que ele possa receber esse tipo de energia. Outra providência seria tornar as caldeiras das usinas mais eficientes. Por fim, seria preciso criar, ainda, um mercado cativo, de maneira a garantir que a eletricidade produzida seja efetivamente vendida”, adverte Simone de Souza.

Mas se o uso da cana-de-açúcar como fonte energética é tão promissor assim na América Latina e Caribe, por que essa alternativa não tem sido considerada pelos países da região, à exceção do Brasil? A resposta, segundo Simone de Souza, está no fato de o açúcar gerar mais lucros que o etanol e de os países ainda não disporem de infraestrutura para o aproveitamento adequado da planta, como mencionado anteriormente.

Além disso, existem barreiras políticas a serem superadas e setores que resistem fortemente ao uso do etanol. “Na Guatemala, por exemplo, a indústria automobilística se posiciona contrariamente ao uso do biocombustível para abastecimento da frota de automóveis. O argumento é de que a mistura do etanol na gasolina poderia comprometer o desempenho dos carros, o que obrigaria os fabricantes a promover adaptações nos motores. Aqui no Brasil, essa mistura é de 27% atualmente, mas o país tem larga experiência no uso do etanol. Um dado curioso é que a Guatemala exporta todo o álcool que produz, mas importa toda a gasolina que consome”.

ÁFRICA

Pesquisa semelhante à realizada na América Latina e Caribe também foi feita na África pelos pesquisadores do Nipe, mas em contexto diferente. O foco do estudo foi o uso do etanol em substituição à lenha utilizada pelas populações pobres para a cocção de alimentos. Simone de Souza destaca que a utilização da lenha pelos africanos traz duas consequências importantes. A primeira é o dano à saúde das pessoas, visto que os fogões são precários e produzem fumaça potencialmente nociva ao organismo. A segunda é o avanço do desmatamento, uma vez que a extração de árvores é que garante o preparo das refeições de um grande contingente da população.

Em Angola, por exemplo, mais de 50% dos moradores dependem da lenha para preparar seus alimentos. Em Moçambique e no Malawi, quase 100% das pessoas cozinham em arcaicos fogões a lenha. Ademais, nesses países somente uma pequena parcela dos moradores tem acesso à eletricidade. Assim como no estudo que contemplou a América Latina e o Caribe, a pesquisa envolvendo a África também considerou dois cenários possíveis para o melhor aproveitamento da cana-de-açúcar como fonte para a produção de bioenergia.

No primeiro, somente com o uso do melaço obtido a partir da produção do açúcar, seria possível atender 50% de demanda (meta pré-estabelecida) para cocção e ainda utilizar o excedente para abastecimento veicular. Na Suazilândia, o subproduto da fabricação do açúcar atenderia metade das necessidades da população para uso na cozinha e ainda permitiria misturar 10% de álcool à gasolina. No segundo cenário, que prevê a expansão de 1% da área plantada de cana, é possível ir ainda mais longe. “Nesse caso, daria para atender à mesma demanda para cocção, promover uma mistura de 20% de etanol na gasolina e ainda gerar excedente, que poderia ser vendido para países vizinhos que importam gasolina”, aponta Simone de Souza.

A questão do uso da madeira para cocção pelos africanos tem sido objeto de um programa desenvolvido pelo Projeto Gaia, iniciativa global para o desenvolvimento e utilização de fogões a etanol. O objetivo da ação é substituir os fogões a lenha nos países africanos, de forma a reduzir os danos à saúde das populações carentes e também ao meio ambiente. Atualmente, segundo o projeto, cerca de 40 mil refugiados etíopes têm utilizado essa tecnologia na preparação diária de suas refeições.

Quanto ao potencial africano de geração de eletricidade a partir do aproveitamento do bagaço, o maior destaque ficou por conta de Moçambique, onde metade da população não tem acesso a esse tipo de energia. Num primeiro cenário, sem qualquer expansão da área cultivada de cana, o país poderia suprir toda a demanda nacional. Segundo a pesquisa, Zâmbia e Zimbábue também apresentam potencial elevado nesse sentido.

A expectativa dos pesquisadores do Nipe, conforme Simone de Souza, é de que esses estudos contribuam para a discussão e formulação de políticas públicas que permitam aproveitar o potencial da cana-de-açúcar como fonte energética nas regiões analisadas. “O professor Luiz Augusto Horta Nogueira, que coordena a pesquisa sobre a América Latina e o Caribe, esteve recentemente na Guatemala, onde se reuniu com representantes do governo e do setor produtivo justamente para mostrar essa capacidade. A Guatemala, junto com a Colômbia, são os países onde há maiores possibilidades da proposta avançar na América Latina, por causa dos contatos que já temos. Na África, nossa prioridade tem sido Moçambique, pelo mesmo motivo”, adianta a pesquisadora do Nipe.

Fonte Jornal da Unicamp