Notícia

Gazeta Mercantil

Cana, liderança tecnológica mundial

Publicado em 09 março 2007

Precisamos formar pessoas com idéias brilhantes como o etanol biocombustível

A bola da vez é o etanol brasileiro. Ao longo de muitos anos de paciente trabalho o País desenvolveu uma tecnologia que supera aquela desenvolvida em qualquer parte do mundo para produzir bioetanol para energizar motores a explosão.
Juntos, os Estados Unidos e o Brasil produzem 75% do etanol produzido no mundo. Em 2006 os EUA produziram 18 bilhões de litros e o Brasil, 17 bilhões. Mas o custo do etanol americano, feito a partir do milho, é bem maior que o do etanol de cana feito no Brasil. Além desta diferença no custo, o uso do milho para fazer etanol traz o encarecimento do alimento, aumentando, por exemplo, o custo para se alimentar frangos e porcos, devido à alta do preço do milho, como se está vendo nos EUA atualmente.
Aumentando a vantagem brasileira, nos EUA a possibilidade de expandir a área plantada para aumentar a produção é extremamente limitada, enquanto no Brasil, onde hoje se plantam 3 milhões de hectares de cana para fazer etanol, há 200 milhões de hectares de pastagens, de tal modo que, usando-se apenas 10% das pastagens, se poderia multiplicar por sete a produção de etanol sem se tocar em uma folha da Amazônia.
O interesse dos EUA pelo etanol advém da conjugação de dois fatos recentes. Um, o avanço científico e tecnológico que eles promoveram gerando a possibilidade de produzir etanol a partir da celulose. O outro, o aumento do custo da gasolina de petróleo, que fez com que os altos custos do etanol de celulose se tornassem competitivos, mesmo que sejam bem maiores do que os cistos do etanol de cana brasileiro. Hoje o custo do etanol de celulose seria de 59 centavos de dólar por litro, enquanto o custo do etanol de cana brasileiro custa 20 centavos de dólar por litro.
Este aumento exponencial do interesse dos EUA pelo etanol é ótimo para o Brasil, pois tende a legitimar mundialmente aquilo que o Brasil há muito sabia e havia demonstrado desde meados dos anos 80: etanol pode ser considerado seriamente como um substituto parcial para a gasolina.
Fundamental para a manutenção da competitividade brasileira no assunto é o avanço da tecnologia e do conhecimento sobre a cana e sobre o processo de fabricação do etanol de cana. Isso requer a intensificação das atividades de pesquisa, em instituições públicas e em empresas privadas, sobre temas como melhoramento da planta de cana, melhoria de sua agricultura e colheita, efeitos no meio ambiente e tecnologias de fabricação do etanol, incluindo-se aí a hidrólise e fermentação.
Diferentemente do que estamos acostumados a constatar em assuntos que dependem de pesquisa científica e tecnológica, em etanol o Brasil é o líder mundial em conhecimentos e em sua aplicação. O País detém, por exemplo, a maior parcela das publicações científicas sobre melhoramento e estudos da cana-de-açúcar. Igualmente, o conhecimento sobre os processos de fermentação e da tecnologia de fabricação de etanol a partir de sacarose da cana são muito avançados no País. Os motores flex-fuel desenvolvidos no Brasil, mesmo que por empresas estrangeiras, são os melhores e mais competitivos, com idéias muito engenhosas criadas por engenheiros brasileiros.
Neste ponto vários analistas norte-americanos têm cometido um equívoco flagrante: atribuem o sucesso do etanol brasileiro apenas à mão-de-obra barata, e associam o sucesso do bioetanol brasileiro à destruição da Amazônia. E com estes argumentos errados, concluem que a experiência brasileira não é útil para o mundo. De maneira oportuna, o professor José Goldemberg, em artigo sensato e fundamentado numa das mais importantes revistas científicas do mundo, a Science, demonstrou como a base do sucesso brasileiro em etanol está em acúmulo de conhecimento. Outro fator importante é a boa sorte (sorte faz parte do jogo também, desde que bem aproveitada e associada a esforço intelectual e planejamento) de nosso território ser bem adaptado ao plantio da cana, uma planta completamente singular na capacidade de converter energia do sol em energia de biomassa.
Em resumo, o que trouxe o Brasil a esta posição favorável de destaque mundial foi uma combinação de fatores, como geralmente ocorre. Houve o que a natureza nos deu: terra boa abundante, chuva e sol nas horas certas, e uma planta especial, a cana-de-açúcar. Houve também o esforço de se estudar o assunto, com boa pesquisa científica e tecnológica. Muitas vezes se pergunta "para que o Brasil precisa ter excelentes universidades e pesquisa?". Pois é exatamente para isso: para formar as pessoas que constroem idéias brilhantes como esta do etanol biocombustível. A hora é agora. Se o País concentrar seu esforço e suas capacidades, pode tirar o máximo do investimento já feito, do conhecimento acumulado, e de seus recursos naturais; e ainda ajudar o planeta a substituir os combustíveis que causam efeito estufa e aquecimento global.

Carlos Henrique Brito Cruz - Diretor científico da Fapesp, ex-reitor da Unicamp.