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Jornal de Londrina online

Cana e biotecnologia

Publicado em 26 setembro 2013

Por Décio Luiz Gazzoni

Um estudo do Programa Fapesp de Pesquisa em Bioenergia (Bioen), publicado no Plant Biotechnology Journal, descobriu que genes que regulam o teor de sacarose comportam-se de acordo com o potencial de rendimento da cana: mais biomassa, menor teor de sacarose. O foco do estudo é a “cana energia”, que não precisa ter muito açúcar e sim, muita biomassa, sinônimo de alta produtividade.

A premissa é que, no futuro, cultivaríamos dois tipos de cana: a atual, com alto teor de açúcar; e a cana fibra, para produzir energia. Usando técnicas biotecnológicas é possível desconstruir carboidratos complexos da fibra, como celulose e hemicelulose, até açúcares duplos ou simples. Esses açúcares serão fermentados por microrganismos modificados geneticamente, podendo produzir grandes quantidades de qualquer biocombustível (etanol, butanol, bioquerosene, biogasolina, diesel vegetal etc.).

A produtividade da lavoura de cana brasileira situa-se entre 80 e 100 t/ha. O potencial produtivo, demonstrado em talhões experimentais, é de 400 t/ha, se forem eliminados todos os estresses bióticos (pragas) e abióticos (seca, frio, baixa fertilidade). Esta produtividade foi atingida com variedades convencionais, de alto teor de açúcar. Como a eficiência da planta é maior para produção de polímeros (fibras), as atenções se voltam para novos tetos de produtividade da cana, acima de 400 t/ha.

O teto é apenas um sinalizador teórico da produtividade que pode ser obtida nas lavouras comerciais. Com menor demanda de energia da planta, seria possível aumentar a produtividade total no campo se o teor de açúcar fosse menor. Este não seria um grande problema se fossem desenvolvidos processos para desconstrução das substâncias complexas para outras mais simples, utilizando microrganismos. Esta linha de pesquisa também apresenta novidades, pois estão sendo “engenheirados” microrganismos que fariam as duas etapas simultaneamente, ou seja, digerir as fibras e transformar em combustíveis os açúcares assim obtidos. Essa inovação representa uma redução de custo de produção, competitividade para a cadeia e menor custo do biocombustível na bomba, favorecendo a substituição de combustíveis fósseis, altamente poluentes.