Notícia

Revista RPANews

Cana de açúcar: a pior crise do setor? Veja o que pensam especialistas

Publicado em 15 abril 2020

O setor da cana-de-açúcar foi um dos mais afetados por conta da pandemia do Covid-19. No etanol, por exemplo, para grande parte dos especialistas no assunto, esta seria uma das melhores safras se comparada com as últimas dez tanto em relação aos preços quanto em relação à produção.

No entanto, a chegada da guerra de preços do petróleo e a disseminação do coronavírus jogaram por terra essa possibilidade. “Um cenário de tragédia se instala. Ainda fica difícil prever o que pode acontecer. O preço do petróleo caiu 65% em um mês”, relatou Marcos Fava Neves Marcos Fava Neves, docente da USP e especializado em agronegócios.

Com a queda drástica do consumo de etanol, parte do setor corre grave risco de ficar sem caixa para tocar as atividades, sendo que ao redor de 70% das despesas das usinas ocorrem nos seis primeiros meses da safra, de acordo com a Unica (União da Indústria De Cana-de-Açúcar).

Vivemos a pior crise do setor da bioenergia?

Com intuito de responder tal questão, a Udop (União Nacional da Bioenergia) realizou o Webinar sobre o tema. O objetivo foi de discutir com especialistas como a pandemia do Covid-19 e a queda no preço do petróleo atingem o setor da bioenergia.

De acordo com o Caio Carvalho, Diretor da Canaplan e Conselheiro da entidade, o setor vive hoje a chamada “tempestade perfeita”. Carvalho relembrou que as perspectivas neste início de ano eram de um ciclo virtuoso de crescimento para o setor, com a entrada em vigor, efetivo, do RenovaBio, além de boas perspectivas mundiais. Mas, de uma pra outra, o mundo virou de cabeça pra baixo.

“Passamos a ter um excedente enorme de petróleo, vimos os preços do barril despencarem. Do lado do agro, somos um dos setores que mais sofre os efeitos dessa crise, potencializada com o Covid-19 e o baixo consumo de etanol”, destacou.

Comparação com outros momentos

Para Jacyr da Costa Filho, Presidente do Cosag (Conselho Superior do Agronegócio) da Fiesp e Membro do Comitê Executivo do Grupo Tereos, o que difere o atual momento de outros colapsos que atingiram o setor da bioenergia no passado, é que esta crise atinge a praticamente todos os segmentos.

“É uma crise geral. Acredito que teremos uma solução mais global. Vamos sair mais preocupados com saúde pública”. O especialista citou exemplos de estudos que ligam a poluição ao maior número de casos positivos de coronavírus.

“Essa preocupação que tem com a poluição e a correlação com a saúde pública será um dos legados deixados por essa crise”. Sendo assim, segundo ele, essa será uma ótima oportunidade para o etanol.

“São Paulo, no ano 2000, tinha um índice de particulado de 150 mg/m³ de ar e hoje estamos no nível de 30 mg/m³, sendo que a frota de veículos que roda em São Paulo aumentou em 30%. Sem dúvida, o etanol teve uma participação muito grande neste índice”, destacou Costa Filho.

Pedro Robério, presidente do Sindaçúcar (Sindicato da Indústria do Açúcar e do Álcool), também defende que questões do meio ambiente e da saúde pública podem ser beneficiadas com a crise e serem tratadas diferentes do que têm sido.

“Nós temos acentuado muito a importância de reduzir o planejamento, deixar que as forças de mercado organizem o processo econômico e sem planejamentos estamos mais expostos”.

Luiz Augusto Horta, Coordenador do BIOEN – Programa FAPESP de Pesquisa em Bioenergia – também acredita que esta é uma crise de dimensões inusitadas. “Nós não esperamos e isso mostra como a história pode nos surpreender e surpreender de uma forma muito pesada”, relata.

Para ele, essa crise é uma pancada tremenda na economia e nas expectativas, que eram boas. “O setor estava num momento muito bom. Mas são realidades e situações que não dá para escapar”.

Para Pedro Robério, essa crise é maior quantitativamente, mas não necessariamente é maior qualitativamente. “As crises que nós vivemos em maior ou menor intensidade no setor elas eram confinadas a um problema do próprio setor. Em alguns momentos com relação a intervenção, a simetria entre os mercados e as produções”, explica.

Por fim, ele salienta que a única crise mais recente que não foi somente setorial, foi a de 2008, a crise financeira mundial, na qual o setor estava no pico de uma super produção e por fim arrastou muitas empresas.