Notícia

Correio Popular (Campinas, SP)

Campineiros desvendam tesouro em ilha maia

Publicado em 30 janeiro 2009

Pesquisadores da Unicamp farão escavações em porto na ilha que serviu como entreposto comercial estratégico

 

Pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) se preparam para investigar, no México, tesouros arqueológicos da civilização maia. Ainda no primeiro semestre deste ano, uma equipe formada por professores e alunos de história fará escavações em Cerritos, uma ilhota da Península de Yucatán. O objetivo da expedição, financiada com recursos da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), é desvendar os segredos do suposto porto milenar que abastecia a poderosa cidade de Chichén Itzá, que ficava no continente, a 100 quilômetros do mar.

A ilha, com apenas 200 metros de comprimento, fica nas proximidades da atual cidade de San Felipe — 150 quilômetros a Oeste de Cancún. O grupo brasileiro vai acampar no sítio arqueológico inaugurado pelos cientistas da Universidade Autônoma de Yucatán (Uady), que desde a década de 80 estudam uma região estratégica para o desenvolvimento da civilização poderosa, que chegou a ter 4 milhões de habitantes em uma área que se estendia do Sul do México a Belize, El Salvador, Honduras e Guatemala.

O coordenador brasileiro da pesquisa é Alexandre Guida Navarro, campineiro graduado em história pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas), que se apaixonou pela saga maia ao fazer o mestrado na Universidade de São Paulo (USP) e o doutorado na Universidade Autônoma do México (Unam). Agora, com a Fapesp financiando as pesquisas do pós-doutorado no Núcleo de Estudos Estratégicos da Unicamp, ele pretende desvendar o complexo sistema de navegação comercial, que trazia para a “metrópole” produtos valiosos de fora do território.

Guida explica que as primeiras escavações em Cerritos comprovaram a importância do local. Há sinais de muros para minimizar a força das ondas, pátios com colunas, passagem para barcos e torres de vigia para o monitoramento do tráfego de embarcações. “Ao contrário de outras áreas controladas pelos maias, fartas em vegetação e rios, o Norte de Yucatán era árido. A alternativa do comércio marítimo permitiu o progresso de Chichen Itzá”, diz. Os artigos chegavam ao porto em imensos barcos, feitos em trocos únicos de cedro. Do Litoral, os produtos eram carregados (no ombro dos trabalhadores) para a cidade que, no seu auge (entre os anos 800 e 1.000 da era Cristã), tinha 30 mil habitantes.

As trocas de longa distância eram muito praticadas. As pesquisas anteriores já encontraram no sítio tesouros como as conchas trazidas do Oceano Pacífico (ornamentos de luxo usados nas tumbas dos reis), o tohil plomiza (vaso fino que era tributado pelos governantes), a obsiadiana (rocha vulcânica originária do México central, usada para a fabricação de armas), mosaicos de turquesa (pedra trazida da região onde hoje se encontram os Estados Unidos), e ouro (provavelmente do Panamá).

“É nítido que Cerritos era um entreposto importantíssimo, muito influente na economia das cidades maias”, diz Guida. O raio de atuação comercial ultrapassava a casa dos 2 mil quilômetros. O Litoral do Golfo do México era a grande rota das trocas comerciais.

De acordo com o pesquisador, a chegada dos espanhóis à América testemunhou raros espaços ainda ativos em Chichén Itzá. Um deles era um poço natural, sagrado para a cultura maia, que servia como principal fonte de abastecimento de água para os moradores do núcleo. A era dos descobrimentos também revelou, na península, a existência cativante de construções monumentais. O sítio arqueológico atual, no continente, já revelou que a cidade tinha pirâmides e palácios de arquitetura característica. Traços que incluem Chihén Itzá no seleto grupo de metrópoles maias planejadas, como a guatemalteca Tikal ou a mexicana Uxmal, já estudadas.

O colapso da civilização maia é outro tema instigante para os pesquisadores. De acordo com Navarro, a análise química de esqueletos já comprovou que alguns moradores morreram desnutridos. É que o crescimento desenfreado da população, associado ao feroz desmatamento para a construção das cidades, acabou com as áreas reservadas para a agricultura. As grandes secas no território árido também derrubaram a produção dos canteiros. E a fome provocou guerras sangrentas entre as cidades.

O pesquisador, mesmo antes de viajar com o grupo, já coleciona um acervo primoroso de relíquias arqueológicas da região. A pintura de um templo em Chichén Itzá remete a Cerritos. Trata-se de uma cena costeira, com guerreiros navegando pelo mar. Na parte do continente, aparece um maia ajoelhado, moendo grãos. Na parte centro-superior, pessoas caminham com vultos nas costas, referência a comerciantes que carregavam as mercadorias de uma cidade a outra.

Entre os tesouros disponíveis, também há fotos de máscaras de deuses e reprodução de recentes trabalhos de prospecção, feitos por pesquisadores mexicanos em escadarias de templo.

Economia era alicerçada na cultura do milho

A economia maia era alicerçada basicamente na cultura do milho. Mas também plantavam algodão, tomate, feijão, batata e cacau. As propriedades rurais pertenciam ao governo central e tudo era cultivado de forma coletiva. A pecuária ocupava uma condição de atividade econômica complementar. O povo fazia artesanatos com pedras, cerâmicas e tecidos. A organização social era feita em camadas: os guerreiros (que executavam a administração pública), os sacerdotes religiosos e o povo (basicamente trabalhadores e camponeses). Os escravos, em pequeno número, eram geralmente prisioneiros de guerra ou infratores. Na religião, os deuses eram relacionados com os fenômenos da natureza, como chuva, trovão e sol. Na arte, as principais habilidades eram no campo da arquitetura, esculturas e pintura. Na ciência, os maias dominavam astronomia e matemática. Realizavam cálculos complexos e explicavam eclipses e fases da lua. A civilização maia tinham uma escrita fonética própria, que aliava sinais e desenhos. Acontece que a colonização espanhola acabou com a grande maioria de documentos e cartões.

Contato com pesquisador

As pessoas interessadas em fazer contato com o pesquisador Alexandre Guida Navarro podem ligar para o

(19) 3289-4411 (Núcleo de Estudos Estratégicos da Unicamp) ou escrever para o e-mail altardesacrificios@yahoo.com.br.