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Campanha vende sonhos de consumo

Publicado em 01 setembro 2010

Na semana passada, durante um seminário realizado em Brasília sobre metas nacionais de reduções de emissões de gases de efeito estufa, só foi encontrado um representante de partido político na plateia. De acordo com o Instituto Socioambiental, entidade organizadora do evento e uma das mais importantes do País no setor, todos os partidos foram convidados, mas apenas o PV achou necessário enviar alguém para ouvir o que se debatia lá.

O episódio sinaliza uma vez mais o pouco interesse que a questão ambiental ainda desperta no meio político, embora não se possa negar que a presença da senadora Marina Silva nas eleições deste ano, concorrendo pela legenda do PV, tenha guindado esse debate a um patamar até agora desconhecido. Não se encontra hoje candidato que não manifeste, mesmo que superficialmente, interesse pelo tema.

A ex-ministra Dilma Rousseff, do PT, é lembrada por ter apresentado em Copenhague, no fim do ano passado, as metas brasileiras de redução de emissões de gases. De José Serra, do PSDB, conta-se que liderou o processo que resultou no compromisso formal do Estado de São Paulo de também reduzir emissões. Nenhum dos dois, porém, tem a questão ambiental como destaque na biografia. A maioria dos políticos brasileiros, aliás, reserva pouco espaço ao tema ambiental. "Ele está mais presente nas eleições deste ano do que em todas as anteriores", diz Marcio Santilli, da coordenação do Instituto Socioambiental. "Mas ainda está muito aquém do que merece."

O pesquisador do Inpe Carlos Nobre, coordenador do Programa de Pesquisa em Mudanças Climáticas Globais da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), concorda com Santilli. Para ele, Marina mostrou ousadia quando pôs o ambiente no centro de sua campanha e tentou arrastar os outros candidatos para o debate. "Não deu certo porque os concorrentes não são visionários, não têm visão do futuro. Parece que estamos mergulhados num estado de inércia mental."

A sensação de inércia citada por Nobre só aumenta quando se compara o cenário brasileiro ao de outros países. Nas eleições realizadas na semana passada na Austrália, as propostas de redução de emissões de gases figuraram entre os pontos centrais do debate sobre o futuro do país, o que acabou valorizando a presença do Partido Verde na cena política de lá. Movimento semelhante já se verifica há alguns anos em outros países desenvolvidos, como Alemanha, Suécia, Noruega, Espanha, Japão.

Por que não ocorre o mesmo no Brasil? "Os partidos verdes são fortes nos países mais ricos, que há muito tempo já resolveram suas necessidades básicas e apresentam altos padrões de consumo", diz o cientista político Carlos Melo, do Instituto de Ensino e Pesquisa, de São Paulo. "Não é essa a realidade brasileira, onde até recentemente muitos eleitores não tinham geladeira, telefone, computador e sequer sonhavam em ter carro. Como é que se diz para esse eleitor, que está chegando agora ao mercado de consumo, graças ao crescimento econômico, que o primeiro carro dele vai aquecer e piorar o planeta?"

A partir de levantamentos comparativos entre Brasil e Estados Unidos, pode-se notar que, embora a venda de automóveis brasileiros esteja batendo recordes há quase dois anos, nosso mercado ainda se assemelha ao que existia na década de 50 entre americanos. Em outra palavras, ainda há muita margem para crescer, se perseguirmos o padrão americano de consumo.

Um outro levantamento realizado em nível nacional pelo instituto de pesquisas Ipsos Marplan MediaCT mostra que o grau de consciência ambiental varia de acordo com a classe econômica. Chega a 7% na população da chamada classe A - na qual 99% das famílias já têm automóvel. Não se pode dizer, definitivamente, que seja alto. Mas é quase três vezes maior que o verificado na base da pirâmide, nas classes D e E. Ali, onde apenas 1% das famílias tem automóvel na garagem, o nível de preocupação com questões ambientais baixa para 2%.

Fica fácil entender, diante desse quadro, por que a campanha de Marina desperta maior interesse entre os que ganham mais e têm maior grau de instrução. Por outro lado, o estilo de propaganda de Dilma, favorita nas pesquisas de intenção de voto, com imagens grandiosas de um país que cresce e cria empregos, parece embalar melhor o sonho de ascensão da população.

Pode-se concluir então que, por falta de apoio dos eleitores, fica impossível tornar o desenvolvimento econômico compatível com políticas de proteção ambiental? Para Carlos Nobre a resposta é não: o obstáculo é a estreiteza do debate político.

"O acesso a padrões mínimos de consumo e de qualidade de vida é um direito legítimo dos pobres do Brasil e de todo o mundo e tem de ser atendido", afirma Nobre. "A tecnologia disponível no mundo aponta vários caminhos para se fazer isso sem atropelar a questão ecológica. É possível imaginar um Brasil com 220 milhões de habitantes - que é por onde deve se estabilizar a população brasileira, segundo institutos de pesquisa - consumindo mais energia do que consome hoje e que essa energia seja totalmente renovável. Nenhum outro país tem a densidade e o potencial de energia renovável do nosso. O que nos atrapalha é o debate insuficiente, a falta de políticas, o desperdício de oportunidades."

Um desses desperdícios verificou-se no ano passado, quando, em meio à crise econômica mundial, os governos abriram o caixa para socorrer suas economias. Em vários países houve preocupação em associar a liberação de recursos a projetos que levassem em conta a questão ambiental. Na China, quase 30% do dinheiro dos subsídios estava ligado a áreas de energia renovável. Na Coreia, o índice chegou a 60%.

No Brasil, não houve essa preocupação. Quando liberou o pagamento de IPI nas vendas de automóveis, o governo não fez distinções e perdeu a oportunidade de favorecer os que usam tecnologia flex, que permite o uso de etanol, menos poluente. Para Nobre, esse é um exemplo, entre muitos, de como o País deixa escapar oportunidades por falta de debate político adequado.

Fonte: O Estado de S. Paulo