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Jornal da USP online

Camarões, siris e outros seres do mar

Publicado em 04 setembro 2013

Por Rosemeire Soares Talamone

Pesquisadores da USP de Ribeirão Preto, da Universidade Estadual de Santa Cruz, na Bahia, e da University of Louisiana at Lafayette, nos Estados Unidos, mapearam novas espécies de crustáceos decápodes (de dez patas) no litoral brasileiro, a partir de evidências de populações do litoral paulista. As descobertas são alguns dos vários resultados do Projeto Temático Biota Fapesp Crustáceos decápodes: multidisciplinaridade na caracterização da biodiversidade marinha do Estado de São Paulo – (taxonomia, espermiotaxonomia, biologia molecular e dinâmica populacional). Iniciado em 2011 e com término previsto para 2015, o objetivo é ampliar o inventário paulista de animais com dez patas, como camarões, siris, lagostas, ermitões e caranguejos, por meio de diferentes linhas de investigação.

Das novas espécies descobertas até o momento, duas são de camarões-estalo, uma do popular “corrupto”, decápode do gêneroCallichirus, utilizado como isca por pescadores, e outra de um caranguejo eremita (ermitão) do gênero Clibanarius. Tais descobertas, segundo os pesquisadores, devem-se ao esforço empreendido no sentido de aumentar o número de expedições científicas em áreas pouco exploradas e na melhoria das análises para identificação, em particular com a comparação com a fauna de outras localidades.

O estudo também já identificou e reportou a presença de espécies invasoras, não nativas do litoral paulista, como a de um minúsculo camarão do gênero Athanas, originário do Mediterrâneo, e outra do caranguejo Charybdis hellerii, presente nos oceanos Índico e Pacífico. Para os pesquisadores, essa presença ocorre em função do transporte de larvas dessas espécies, que chegam até nosso litoral na água do lastro dos navios comerciais (parte do casco é cheio, na origem, com água que confere equilíbrio à embarcação durante a navegação). Quando os navios chegam ao destino, essa água é liberada e, com ela, as larvas são soltas, encontrando em águas brasileiras ambiente favorável tanto para se desenvolver como para se reproduzir.

Outra descoberta que surpreendeu os pesquisadores, após análises detalhadas sobre a morfologia e a genética, foi o fato de que algumas espécies de corruptos e de ermitões presentes no Brasil são diferentes, apesar de serem nominadas como espécies presentes em outras localidades. Para o professor Fernando Luis Medina Mantelatto, da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP e coordenador do projeto temático, isso se deve a uma limitação imposta por barreiras geográficas, que isolam determinadas populações e o processo de especiação acaba ocorrendo.

Em alguns desses casos, muito provavelmente a bacia do rio Amazonas parece ser o grande responsável. “O aporte de águas funciona como uma barreira geográfica. Assim, o que está abaixo dessa região se isolou e interrompeu o fluxo gênico, tornando as espécies diferentes, por exemplo, das populações que estão na região do Caribe.” Grande parte dessas descobertas está relacionada à ampliação e à acuracidade na comparação de espécimes da costa brasileira com as de outras regiões, por meio da combinação de ferramentas informativas, como a morfologia do adulto, da larva e da análise genética.

Nesse amplo projeto temático, a pesquisa conta com a participação de pesquisadores da Unesp de Jaboticabal, Bauru e Botucatu, proporcionando uma ação concomitante e integrada em três vertentes: análises sobre a taxonomia alfa e filogenia molecular, que trazem informações acuradas sobre as variações morfológicas e genéticas sobre o passado evolutivo da espécie; a espermiotaxonomia, que caracteriza morfologia de alguns dos aspectos reprodutivos dos crustáceos (espermatóforo e espermatozoide), importantes para a separação taxonômica e o entendimento dos processos evolutivos que norteiam a reprodução; e ecológicas, em que estão sendo estudadas algumas espécies com interesse comercial para avaliar os estoques populacionais, genéticos e a dinâmica do ciclo de vida ao longo da costa do Estado de São Paulo, para adequar tais diferenças às  leis de manejo.

Código de barras – Um dos principais resultados desse projeto, segundo o coordenador, é a descrição do código genético para todas as espécies de crustáceos decápodes marinhos e estuarinos do litoral paulista, com o depósito das sequências em um dos bancos mundiais de dados que reúnem genes de espécies do mundo todo, o GenBank, mantido pelo National Center for Biotechnology Information, nos Estados Unidos.

“Nós temos como meta sequenciar dois genes específicos do DNA mitocondrial (mtDNA), considerados indicadores mais adequados para estudos sobre taxonomia e filogenia. Um deles, o COI (sigla para citocromo c oxidase subunidade I), recebe a denominação de ‘código de barras de DNA’, uma etiqueta genética com sequências curtas para identificação das espécies, que são depositadas no GenBank. Diversos grupos de pesquisa participam de um esforço internacional para estabelecer a técnica de DNA barcoding como padrão global para o estudo da biodiversidade. O Consortium for the Barcode of Life (CBOL) foi criado em 2004 com o objetivo de auxiliar no desenvolvimento de um sistema capaz de identificar todas as espécies do planeta.”

Ainda segundo Mantelatto, o Laboratório de Bioecologia e Sistemática de Crustáceos (LBSC) da USP em Ribeirão Preto é a referência brasileira nessa biblioteca mundial, que tem depositado somente 1% de genes da fauna brasileira. “No Brasil, apesar de iniciativas pontuais, este é o primeiro projeto formal focado especificamente nos crustáceos decápodes do litoral paulista. No mundo, cerca de 17 mil espécies de decápodes são conhecidas, e na costa brasileira há mais de 600 ocorrentes. Já a lista atual do litoral paulista é estimada em 377 crustáceos decápodes. Nossa pesquisa já conseguiu coletar 60% desse material e, desse porcentual, 70% já foram mapeados geneticamente. Quando conseguirmos completar nossos objetivos, colocaremos o Estado e o Brasil em evidência”, avalia o professor.

A explicação para a grande diversidade de crustáceos no Estado de São Paulo, segundo Mantelatto, deve-se, entre outras razões, ao fato de o território paulista estar numa área com condições abióticas favoráveis à presença de distintos organismos, ou seja, temos a presença de decápodes típicos de áreas tropicais e também de áreas frias. Algumas correntes oceânicas favorecem o trânsito e o estabelecimento de uma mescla de espécies. “Temos também um relevo muito recortado, com baías e enseadas, que promove áreas de instalação para essa fauna, que encontra espaço, de proteção e alimento.” Particularmente no sul do Estado, diz o professor, existe uma influência muito grande de água doce, que, em razão de um relevo repleto de rios e estuários, se transformam em áreas com grande importância ecológica. Por isso, há a necessidade de novos estudos para se conhecer melhor a dinâmica dos organismos que ali se encontram.

Todos os animais são coletados mediante licença de coleta permanente concedida aos pesquisadores pelo Ibama/ICMBio. Em seguida, eles são catalogados e depositados na coleção de crustáceos do Departamento de Biologia (CCDB) da FFCLRP, que é fiel depositária das amostras de componentes do patrimônio genético de crustáceos, conforme portaria do Conselho de Gestão de Patrimônio Genético (CGEN), vinculado ao Ministério do Meio Ambiente, publicada no Diário Oficial da União. Os resultados do projeto já deram origem a mais de 40 publicações em revistas nacionais e internacionais, várias apresentações em eventos científicos e mais de 15 dissertações e teses, além de vários prêmios a estudantes de graduação e pós-graduação que estão vinculados ao projeto temático.

Expedições – Para a captura dos animais, os pesquisadores, em grupos de 15 a 20 pessoas, fazem expedições com duração média de uma semana, utilizando barcos pesqueiros, em áreas pouco exploradas. Em 2013, por exemplo, estão focando amostragens em ilhas oceânicas e áreas pouco exploradas do litoral sul. Num primeiro momento, diz Mantelatto, em ilhas próximas à costa, e depois em áreas mais distantes. “Ainda temos previstas amostragens em áreas mais profundas, por meio de arrastos, e para isso a ideia é uma parceria com o Instituto Oceanográfico da USP, para participação em expedições do navio Alpha Crucis”, diz o professor. “Nosso objetivo é coletar material recente, porque é factível de se extrair o DNA e obter as sequências. De material depositado em museu nem sempre é possível fazer extração, pois no passado a fixação era feita com formol, por exemplo, que degrada a molécula de DNA e dificulta sua amplificação. Ainda constatamos que algumas espécies registradas para o litoral paulista constituem registros duvidosos quanto à localidade, à preservação do espécime testemunho e à correta identificação. Daí a importância e o esforço em voltar a essas e outras localidades de registro para a obtenção de novos exemplares e a adequada catalogação e acondicionamento.”

De Ribeirão Preto