Notícia

Gazeta Mercantil

Caiu o ritmo da formação de doutores

Publicado em 03 setembro 2008

Por Leonardo Trevisan — Editorialista

Com a solenidade que sempre cerca o discurso bonito, tanto na universidade como na empresa, repetem-se os avisos de que é preciso integrar essas duas pontas para que a pesquisa e desenvolvimento (P&D) avance no Brasil. A realidade, porém, continua teimosamente desmentindo as boas intenções. Os dados da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) mostraram que apenas 23% dos cientistas brasileiros desenvolvem pesquisas em laboratórios industriais. É muito pouco: na Coréia do Sul essa cifra é de 54% e nos Estados Unidos de 80%. Esses números, divulgados na revista Pesquisa Fapesp, edição de agosto, da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, completam uma outra preocupação: afinal, o que querem pesquisar, estudar ou conhecer os pesquisadores brasileiros?

Além da vontade sobre o que pesquisar, é preciso medir a eficiência do que é pesquisado. O presidente da Capes lembrou, corretamente, que o Brasil é referência na área agrícola e odontológica e "isso precisa ser valorizado". Basta observar as conquistas do agronegócio, via Embrapa óbvio, ou comparar o tratamento de dentes recebido em países do chamado Primeiro Mundo, para confirmar essa avaliação. Porém, são conquistas pequenas para o País, que não quer ser visto só como "grande fazenda".

Nesse ponto, a revista da Fapesp levantou questão essencial: o crescimento na produção de papers dos cientistas brasileiros já bateu no teto? A base de dados Thomson Scientific revelou que em 2007 o Brasil manteve a 1ª posição no ranking de publicação de artigos científicos em revistas especializadas, com 2.556 artigos a mais que em 2006, 1,92% da produção científica mundial. Outra base de dados, a Scopus, mostrou outra realidade: o País publicou 292 artigos a menos do que no ano anterior e vale lembrar a diferença de alcance entre as duas bases, pois a Scopus tem registro 45% maior em publicações que a da Thomson.

O professor Marcelo Hermes-Lima, especialista no tema de produção científica, considerou que o Brasil chegou no "ponto de saturação da curva de crescimento na produção de papers", lembrando o limite no crescimento vegetativo de pesquisadores no País. Outro especialista, Rogério Meneghini, também citado na revista da Fapesp, tem outra visão: não houve "freio nos investimentos que justifique a queda na produção científica". Meneghini, no entanto, avisou que o Brasil investe menos que concorrentes diretos, China ou Coréia por exemplo, e destacou a concentração em medicina, agricultura, bioquímica, genética, física e astronomia da produção científica brasileira.

É possível ler esses dados e ver neles mais do que um debate acadêmico. É uma boa oportunidade: afinal, quem pára de produzir paper, pode começar a pensar em patentes. A divisão entre ciência pura e aplicada é um nó, mas não é o único na produção científica brasileira. A questão do crescimento vegetativo dos pesquisadores é também relevante: entre 1995 e 2003 a taxa de crescimento dos doutorados foi de 16% ao ano. Depois de 2004 caiu para 4% anuais. O Brasil forma cinco doutores a cada 100 mil habitantes, enquanto a Coréia forma 13; os EUA, 24; e a Alemanha, 30. Uma possível razão do recuo na formação está na desconcentração de recursos para P&D definida desde 2003. A Capes insiste em que é preciso desconcentrar para crescer. Há outros caminhos. A maioria dos países concentra recursos em "ilhas de excelência" incentivando quem está na "fronteira" da produção. O Brasil faz o oposto.

A Fapesp cumpriu seu papel, como agência de fomento, de abrir o debate oferecendo dados e expondo tendências. Curiosamente as reitorias das maiores universidades brasileiras permaneceram bem quietas sobre esses dados, e as lideranças empresariais mais ainda. O silêncio desses interlocutores sobre as escolhas de futuro para a produção científica e tecnológica do País é o único caminho que não pode ser trilhado.